J. chega no consultório, com um pequeno atraso. Vive uma crise conjugal com a namorada. Estão juntos "há quase um ano", mas as divergências começaram "logo no primeiro mês de namoro". Em quarenta minutos, enumera uma pilha de queixas sobre a namorada.
Reclama, num discurso empolado, que ela "pensa que todo mundo é cabeça de bagre, só ela é esperta, mas o que ela não sabe é que na verdade ela é a grande cabeça de bagre". Embora considere os outros idiotas, ela tem uma "maldita mania" de achar que os outros precisam de sua ajuda.
Cita, ainda irritado, que ela é mentirosa, "metida a honesta" e "só faz burrada na vida" devido a sua "teimosia idiota".
Surpreende-se quando pergunto se ele quer alguém assim pra continuar se relacionando.
Talvez tenha achado uma ousadia a minha pergunta.
Não sei se ela realmente é tudo isso que ele falou. Não importa também. O que importa é que é assim que ele a vê.
Fiquei me perguntando o que nos leva a ser atraídos por algo no outro que tanto abominamos. Será que é porque reconhecemos tudo isso dentro de nós ?
sexta-feira, 31 de julho de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Adolescência 2 - O mesmo de sempre

Um gesto familiar.
As mãos nos bolsos traseiros da calça Levis.
O mesmo de sempre, apesar de tudo. Um bom sinal.
Apesar da expressão de cansaço nos olhos. Olhos que ainda procuram.
Ainda crê nas fotos antigas de um cara de cabelo comprido e rugas de riso em volta da boca e dos lábios. Nada de ar cansado.
Os olhos tem uma expressão diferente. Difícil de acostumar. O mesmo de sempre. Imagem que tem que ser dissolvida.
Não espere que eu seja o mesmo que antes.
Eu espero. Eu e todo mundo.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Adolescência 1 - Menos intensidade

Caminho depressa, sem rumo. Pra me acalmar. Pra fugir dos pesadelos, pois ainda há piores. Não quero pensar em nada.
Menos intensidade, menos intensidade. Mas, como se consegue ?
Concentrar-se nisso é fazer o contrário.
O carro de polícia aproxima-se e encosta no meio-fio.
Todos os sinais exteriores devem estar cem por cento: o cabelo cortado na altura certa, respostas polidas, blusão caro made in USA.
Você está cem por cento. Igual a todo mundo.
E aquilo, de caminhar pelas ruas às quatro da manhã, também não tem nada de mais.
Ou tem ?
Há algo errado nisso ? Algo que não é normal.
Mas, o que é ? Não consigo me lembrar.
Fecho o zíper do blusão até em cima. Dou meia volta. E sigo as luzes do carro de polícia.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Confessional
A linha do blog começa então a se definir. Quero escrever textos que explorem meu lado poético. Um auto-retrato. Uma grande história de amor, contada por mim mesmo, a partir da minha memória afetiva, com direito a encontros e despedidas, entusiasmos e súplicas.
Revelar meu lado mais íntimo e desconhecido. Traçar um mosaico a fim de fotografar minha personalidade, de maneira nada usual.
Ponto final. O momento é esse, não havia como fazer um blog diferente. Um equilíbrio interior entre emoção e intuição.
O título é confessional. A assinatura simples. Os olhos serão o ponto de destaque da minha imagem daqui pra frente.
O caminho que vou tomar agora será diferente de toda trajetória acadêmica.
"Mesmo que nunca se aprenda", o blog, demorou a nascer. Cheguei a pensar em outra forma, mas estanquei. Não queria que ele nascesse de fórceps ou de cesariana. Preferi que nascesse de parto natural. A gestação transcorreu com alguns incidentes. Foi um parto gradual e sem dor, porém sangrento.
Ele é aberto com "Franco", uma crônica intimista sobre a amizade. Alguns vão gostar. Outros podem odiar.
Confio na sorte, nos dias que correm.
Revelar meu lado mais íntimo e desconhecido. Traçar um mosaico a fim de fotografar minha personalidade, de maneira nada usual.
Ponto final. O momento é esse, não havia como fazer um blog diferente. Um equilíbrio interior entre emoção e intuição.
O título é confessional. A assinatura simples. Os olhos serão o ponto de destaque da minha imagem daqui pra frente.
O caminho que vou tomar agora será diferente de toda trajetória acadêmica.
"Mesmo que nunca se aprenda", o blog, demorou a nascer. Cheguei a pensar em outra forma, mas estanquei. Não queria que ele nascesse de fórceps ou de cesariana. Preferi que nascesse de parto natural. A gestação transcorreu com alguns incidentes. Foi um parto gradual e sem dor, porém sangrento.
Ele é aberto com "Franco", uma crônica intimista sobre a amizade. Alguns vão gostar. Outros podem odiar.
Confio na sorte, nos dias que correm.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Só sei que começou
Durante muito tempo, vários amigos meus insistiram que eu deveria ter um blog. O gozado é que por um segundo cheguei a pensar em escrever mesmo, mas sempre fui resistente a essa idéia. Na verdade, isso não fazia muito sentido para mim.
Passei sete anos da minha vida escrevendo dissertação de mestrado, tese de doutorado e alguns artigos científicos para periódicos e revistas especializadas. Comecei a sentir-me desconfortável com todos esses textos acadêmicos. Um desconforto indefinido. Uma rebeldia contra o que sabia ser um padrão imposto de fora pra dentro. Cheguei a acreditar que seria o único caminho possível.
Mas como diz uma paciente minha, com sua calma desafiadora, "tudo tem o seu tempo".
A morte do Franco disparou em mim alguns questionamentos. Talvez porque ele tivesse apenas 29 anos ou talvez seja por outra coisa. Percebi estar passando por uma emoção que não conseguia decifrar.
Comecei a reviver lembranças antigas e eu não sabia porque. Não importa que eu não tivesse a menor idéia de onde eu queria chegar. A dúvida faz isso com você, especialmente depois da morte de um amigo.
Foi então que percebi pela primeira vez que estava ficando velho.
Ligo em seguida para Luciana e digo: "O blog começou".
Ela pergunta: "Mas o que vai ser o blog ?"
Respondo: "Ainda não sei, só sei que começou".
domingo, 26 de julho de 2009
Franco

Fabrizio me ligou na terça feira para dizer que Franco tinha morrido. A notícia foi transmitida pelo telefone. A tristeza de um amigo sintonizou em mim.
Um abismo de silêncio, um abismo de tempo.
Deve ser difícil para você. Gostaria que fosse mais fácil.
Foi tudo que consegui dizer. Não podia falar em aceitação, isso nunca ocupou um espaço importante no meu repertório.
Franco foi um dos melhores amigos do Fábio, meu amigo peludo. Tinham, não só uma admiração mútua, uma verdadeira amizade, genuína, dessas de dar inveja a qualquer um. Travou uma batalha feroz contra um câncer. Marchou corajosamente para o ataque. Foi uma derrota gloriosa.
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