segunda-feira, 28 de junho de 2010

Pantanal


Falar de Rose é retornar ao Pantanal Mato-Grossense, um lugar selvagem de chuva morna e ventos verdes. Onde se é possível ouvir a liturgia dos rios e a lerdeza de suas águas.

O Pantanal é a terra de pessoas generosas. Generosas em sorrisos, beleza e simpatia - uma mistura da cultura indígena com a cultura européia. Um lugar perfumado de cheiros característicos, de mil sabores de frutas tropicais que só dão por lá. Um lugar que chove quase todos os dias e fica com cheiro de floresta.


Bonito - uma cidade nunca mereceu tanto o nome que tem - é o “paraíso das águas”, onde os rios são transparentes, numa limpidez que impressiona. Percorremos os rios da Prata, do Peixe, Sucuri e Formoso, satisfeitos em deixar-nos levar. Acompanhamos o cotidiano de mais de quarenta espécies de peixes - dourados, piraputangas e corimbas - e inúmeras espécies de plantas.

Nas regiões mais montanhosas, estas águas vão descendo pelos morros. Pouco a pouco se forma uma queda que em alguns anos compôe uma cachoeira.


Essas cachoeiras têm tamanho reduzido e volume de água também reduzido. As plantas que crescem sobre elas chegam a dar a impressão que essas cachoeiras estão vivas.

Percebo que não posso ficar muito tempo afastado dessa origem que alimenta a vida. A minha vida.

sábado, 26 de junho de 2010

Rose


Rose, com aconchego e proteção, aqueceu meu coração num período invernal. Me fez ver que algumas ondas iam estourar e tentou, de algum modo, impedir o seu rebento. Quando não conseguiu, navegou em sua espuma, ao meu lado.

Sempre de modo evidente ou implícito, é fácil saber o que ela está pensando. Não esconde ou omite a verdadeira face. Possui a formidável combinação de leveza bem-humorada com densidade psicológica. Tem olhos transparentes que escancaram seu sentimento amoroso, ao mesmo tempo em que também revelam pensamentos que vêm da sua inquietante fonte de sinceridade

É uma mulher de ultimatos e polarizações. Avança a passos largos suas possibilidades a seguir e abre os seus próprios caminhos. A fala é honesta, autêntica e corajosa. A voz é liberta, saborosa, cheia de estilo e audácia. Tem ainda aquele andar sedutor que não hesita.

Hoje é seu aniversário. Dia de respostas definitivas e verdades últimas.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Olívia


A Lua sempre guiou a trajetória de Maria Olívia, canceriana por essência, o que não deixa de ser um mérito a mais. Reside nela toda inocência e ternura natural desse signo.

Desde que a conheci, há exatamente seis anos atrás na casa do Valter, fui entregue ao encantamento do seu brilho lunar e me rendi totalmente. Cai de amores mesmo. Assim como a lua que renasce da escuridão, ela se transforma sempre para brilhar outra vez, utilizando todos os seus artifícios femininos, a começar pela elegância de berço.

Não é totalmente fora de propósito dizer que ela é tão teimosa em seus objetivos quanto uma donzela desprotegida do velho faroeste. Para tanto, possui uma imensa reserva de afeto, amabilidade e grandeza de coração. Lá do alto, Fábio está latindo nesse exato momento.

Hoje é seu aniversário. Dia de graça, doçuras, mimos e gentilezas.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Inverno


Uma estação de tempo fresco, por vezes cinzento. Luzes nos mais variados tons produzidos pelo sol. Dias mais curtos. Noites mais longas. Sim, estamos na estação mais fria do ano. O Inverno se antecipou e resolveu aparecer de verdade.

Gostoso é poder curtir a casa e o cheiro das comidas se espalhando pelo ar. Os amigos estão todos encouraçados em seus agasalhos, cheios de palavras de conforto e amor. Principalmente nesses dias de Copa do Mundo, quando nos reunimos para assistirmos aos jogos e bebermos vinho ou qualquer outro tipo de álcool.

O inverno inicia também o signo de câncer, um dos meus preferidos. Signo da sensibilidade, da emotividade e, principalmente, signo de quatro grandes amigos.

"de lá pra cá, não sei... e o inverno no Leblon é quase glacial" (Adriana Calcanhoto)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Entre parênteses e aspas


Ainda estou pensando sobre aquela conversa que tive com meus dois alunos - postada em 24 de maio, "Momentos" - sobre os grandes momentos da vida. Muitos desses momentos vieram novamente em minha direção. Tentei encaixá-los primeiro em caps lock. Depois em negrito. Por fim, em itálico. Me senti bastante vaidoso. É a eleição do sucesso, do que deu certo.

Comecei a pensar então naqueles momentos borrados, nos apagados e por fim, nos deltados. Para só depois concluir que eles não devem ter sido de todo apagados ou deletados, já que eles vieram à memória. E nem demoraram tanto assim a aparecer.

Percebi então que muitos momentos eu não conseguia encaixar... Decidi colocá-los então entre parênteses... Outros, eu coloquei aspas... Gostei do que vi.

Minha conclusão: muito do que importa é vivido entre (parênteses) e “aspas”.

E tem ainda os momentos do (”quase”). Assim mesmo, (“quase”). Entre parênteses e aspas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O primeiro a ir embora


Fábio não foi meu primeiro amigo peludo. Na verdade, foi Branquinho, um gato vira-lata bem alvo, que encontrei abandonado, perto da rua onde eu morava. Na época eu tinha oito anos, uma casa com jardim e uma vontade imensa de ter um cachorro. Decidi trazê-lo para casa - o que era contra todas as normas e regras da família - na ilusão de comover os corações dos meus pais.

Bem, se minha mãe não o rejeitou inteiramente, sempre o aceitou com frieza e com aquele distanciamento.

Meu pai era diferente. Chegava a ser hostil. Não fazia nenhum esforço para disfarçar sua aversão por ele. Pior: não dava nenhum indício de que as hostilidades pesassem em sua consciência.

Na verdade, tanto meu pai quanto minha mãe torciam a favor de uma dissidência na minha relação com meu mais recente amigo.

Tentei não me incomodar muito com tudo isso. Resolvi dar prosseguimento ao caso. Passadas 24 horas, ele ainda não havia sido expulso de casa, o que era um tipo de sinal verde, considerando quem eram os meus pais. Optaram por fazer voto de silêncio.

Convivemos juntos por quase uma semana, cinco dias para ser bem exato. Mas Branquinho fugiu, pulando pela janela, e a seguir, pelo muro da minha casa. Não sei se percebeu que o clima não era lá muito favorável à estadia dele ou se foi outra coisa mesmo. Mas fiquei bem triste. Afinal, ele nem sequer se despediu.

Foi o primeiro amigo a ir embora da minha vida.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Reminiscentes


Inadvertidamente, eu ainda me pego procurando um ou dois maneirismos reminiscentes de Fábio.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Pilha de queixas 10

S. é o melhor exemplo de como chegar aos 40 anos destituída de qualquer bom senso. Uma mulher de meia idade perdida entre o que não tem e o que não é. Que pra não afundar no pântano da auto miséria, pisa em alguns e compra outros. Que, numa desesperada tentativa de não precisar olhar-se ou confrontar-se com o que pensam dela, compra tanto, tanto, que endossa o auge do escapismo, numa tentativa de impedir a pessoa de dizer o que pensa. Ela trabalha de 9 às 5. Nesse período, ela arrasa, manda, pisa, compra. Mas de 5 às 9, sua vida é um fiasco. Comporta-se como uma mendiga implorando por afeto.

Para criar uma aparência de felicidade, ela tira retratos – falsos ou verdadeiros, isso já não importa mais – da bolsa, como se esses instantes, esses flashes conseguissem traduzir sua felicidade. É como vender cartões postais, tipo: “olha, como sou feliz”.

S. não é simples na concepção de felicidade. Esforça-se para fazer um milagre todo dia. Precisa mostrar ao mundo que é feliz. Recrutou alguém para tapar um buraco que é só dela. Na verdade, sabemos que ninguém vai conseguir fechar esse rombo.

Ela insiste numa história totalmente sem pé nem cabeça. Na verdade, não existe história, porque não existe nada ali. Primeiro, cheguei a pensar que pudesse ser um vigarista interesseiro. Não. Antes fosse o caso. Nem isso ele é. Ele é apenas alguém - de difícil compreensão, já que só tenho o seu relato - se aproveitando de uma situação, enquanto não aparece oportunidade melhor.

Sei que é difícil de entender um enredo assim tão sem cabimento. Tive a mesma dificuldade que você, caro leitor, está tendo. Principalmente, porque nesses enredos, há mentiras em verdades misturadas no que se conta.

Essa escolha de S. de tentar se enganar acaba deixando um rastro de nada, de não-amizade, de não-amor, de não-realidade. S. tem a superficialidade na pele. Ela já não consegue distinguir se sente o que finge ou se finge o que sente.

Ela confirmou recentemente: “qualquer idiota sabe que essa minha historia é uma mentira, mas não me obriguem a admitir”. Questiono o processo de análise. Teorizo que só nos descobrirmos quando entramos em contato com nossas verdades, não com nossas mentiras. Ninguém vai se descobrir numa relação sem amor, numa historia de mentira.

Investigando sua história pregressa, descobri que ela foi uma garota que, lá no passado, acreditou que seria amada e amaria. Porém, as coisas foram evoluindo para uma situação em que ela mesma nem sabe mais o que é sentir algo de verdade por alguém ou apenas manter alguém do lado.

Demorei para descobrir que ela nem gosta do ‘pseudo’ alguém que ela insiste em nomear. É visível que não ha sentimento. Ha apenas uma posse. Uma vontade de ter. Enquanto algumas pessoas compram apartamento, carro, S. opta por fazer um leasing de homem.

Assim, ela isola seu sentimento e olha as pessoas como animais no zoológico. Vai lá e quer levar um pra casa. S. caiu numa cilada tão grande de desaprender sobre sentimentos que restou apenas consumir – uma espécie de adicção.

Teorizo que sujeitos, que foram muito massacrados ao longo da vida, e em momento algum, não ocorreu à redenção, acabam ficando sozinhos e apagados. Assim, tornam-se raivosos, dentro de uma frustração mal resolvida.

Tudo que S. tá oferecendo para esse ‘pseudo’ alguém, ela ta contabilizando. Uma contabilidade que não fecha e que só aumenta sua frustração. Porque bem sabemos, caro leitor, que contabilidade assim nunca fecha.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Ouro Preto e Mariana


Cheguei ontem à noite de Ouro Preto. Uma fabulosa cidade setecentista imersa num vale profundo das montanhas mineiras. Parece até uma miragem em meio à névoa desse começo de inverno. É sempre uma viagem no tempo. Não importa quantas vezes se esteve lá.

Ouro Preto está acima do bem e do mal. Uma cidade extremamente humana, por isso mesmo cruel e corajosa. Seja nas paredes das antigas minas de ouro, onde os escravos trabalhavam o dia inteiro. Seja no Panteão da Liberdade por todos aqueles que um dia sonharam a independência de Minas Gerais.

Pegamos a famosa Maria Fumaça para irmos para a cidade de Mariana, a 18 quilômetros de Ouro Preto. A construção da estrada de ferro foi iniciada em 1883 e concluída em 1914. Na época, a locomotiva era um modelo de prosperidade, um marco do progresso. Um sonho acalentado durante muito tempo. O ouro já não vertia mais. Era preciso substituir o sonho do ouro por outro. O trem permitia isso. Selou ainda mais o destino destas duas cidades, irmãs na história, contada em suas estações.

A paisagem é incrível. Dos dois lados da janela. As encostas, a neblina, os vagões. O caminho lembra as músicas do Clube da Esquina, de Milton Nascimento.

Passamos o dia em Mariana, uma cidade de arquitetura colonial com uma acentuada ascendência do artista Aleijadinho. A cidade é cheia de conjuntos arquitetônicos representativos do barroco de Minas Gerais.

No caminho de volta a Ouro Preto, faltando apenas 4 km para chegarmos, paramos na Mina da passagem, a maior mina de ouro aberta à visitação no mundo. Um pequeno trolley - espécie de vagão com bancos que era usado pelos mineiros na época da exploração do ouro – nos levou a mais de 120 metros de profundidade. Aprendi que somente desta mina já foram retiradas aproximadamente 35 toneladas de ouro.

Primeira cidade brasileira a ser declarada pela UNESCO, Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, no ano de 1980, Ouro Preto é um museu a céu aberto.

Sua essência é a própria essência do homem.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Itacaré


O verão de 2009 eu passei em Itacaré, sul da Bahia. Mais uma dica de uma paciente minha, que tinha estado lá um mês antes e curtido muito. Curioso que eu sou, fui conferir.

Aprendi com os nativos que Itacaré teve seu apogeu na época de ouro do cacau. Ainda consegui ver alguns casarões históricos que hoje são charmosas pousadas e restaurantes. As ruas são de paralelepípedos. Casas coloridas, gente eclética e muita energia. Uma cidade animada e divertida.

As praias de Itacaré são umas pequenas enseadas cheias de encanto cercadas por morros. Estes, por sua vez, são cobertos por coqueirais e pela mata atlântica. Ainda por cima, com rios, cachoeiras, manguezais, muita mata virgem. O cenário natural é perfeito para tudo, desde caminhadas a esportes de aventuras como rafting.


As praias localizadas perto da cidade - Concha, Resende, Tiririca, Costa, Ribeira -são bem legais, porém as mais afastadas são lindíssimas. Pontal, Prainha, Engenhoca, Havaizinho, Itacarézinho. Claro, as minhas preferidas. Quase desertas. O acesso não é tão fácil, mas possível. Um paraíso.


Mas o melhor mesmo, como diz Dorival Caymmi, é "sentar na areia da praia que acaba onde a vista não pode alcançar".


À noite, Itacaré ganha ares cosmopolitas, com uma grande variedade de lojas, bares e restaurantes. O agito atravessa a madrugada, pelo menos no verão, quando estive lá. Sempre termina num "rastapé" numa das casas de forró ou melhor, na praia, ao som de reggae e música eletrônica.

Foram literalmente dias dourados.