S. é o melhor exemplo de como chegar aos 40 anos destituída de qualquer bom senso. Uma mulher de meia idade perdida entre o que não tem e o que não é. Que pra não afundar no pântano da auto miséria, pisa em alguns e compra outros. Que, numa desesperada tentativa de não precisar olhar-se ou confrontar-se com o que pensam dela, compra tanto, tanto, que endossa o auge do escapismo, numa tentativa de impedir a pessoa de dizer o que pensa. Ela trabalha de 9 às 5. Nesse período, ela arrasa, manda, pisa, compra. Mas de 5 às 9, sua vida é um fiasco. Comporta-se como uma mendiga implorando por afeto.
Para criar uma aparência de felicidade, ela tira retratos – falsos ou verdadeiros, isso já não importa mais – da bolsa, como se esses instantes, esses flashes conseguissem traduzir sua felicidade. É como vender cartões postais, tipo: “
olha, como sou feliz”.
S. não é simples na concepção de felicidade. Esforça-se para fazer um milagre todo dia. Precisa mostrar ao mundo que é feliz. Recrutou alguém para tapar um buraco que é só dela. Na verdade, sabemos que ninguém vai conseguir fechar esse rombo.
Ela insiste numa história totalmente sem pé nem cabeça. Na verdade, não existe história, porque não existe nada ali. Primeiro, cheguei a pensar que pudesse ser um vigarista interesseiro. Não. Antes fosse o caso. Nem isso ele é. Ele é apenas alguém - de difícil compreensão, já que só tenho o seu relato - se aproveitando de uma situação, enquanto não aparece oportunidade melhor.
Sei que é difícil de entender um enredo assim tão sem cabimento. Tive a mesma dificuldade que você, caro leitor, está tendo. Principalmente, porque nesses enredos, há mentiras em verdades misturadas no que se conta.
Essa escolha de S. de tentar se enganar acaba deixando um rastro de nada, de não-amizade, de não-amor, de não-realidade.
S. tem a superficialidade na pele. Ela já não consegue distinguir se sente o que finge ou se finge o que sente.
Ela confirmou recentemente: “
qualquer idiota sabe que essa minha historia é uma mentira, mas não me obriguem a admitir”. Questiono o processo de análise. Teorizo que só nos descobrirmos quando entramos em contato com nossas verdades, não com nossas mentiras. Ninguém vai se descobrir numa relação sem amor, numa historia de mentira.
Investigando sua história pregressa, descobri que ela foi uma garota que, lá no passado, acreditou que seria amada e amaria. Porém, as coisas foram evoluindo para uma situação em que ela mesma nem sabe mais o que é sentir algo de verdade por alguém ou apenas manter alguém do lado.
Demorei para descobrir que ela nem gosta do ‘
pseudo’ alguém que ela insiste em nomear. É visível que não ha sentimento. Ha apenas uma posse. Uma vontade de ter. Enquanto algumas pessoas compram apartamento, carro, S. opta por fazer um
leasing de homem.
Assim, ela isola seu sentimento e olha as pessoas como animais no zoológico. Vai lá e quer levar um pra casa. S. caiu numa cilada tão grande de desaprender sobre sentimentos que restou apenas consumir – uma espécie de adicção.
Teorizo que sujeitos, que foram muito massacrados ao longo da vida, e em momento algum, não ocorreu à redenção, acabam ficando sozinhos e apagados. Assim, tornam-se raivosos, dentro de uma frustração mal resolvida.
Tudo que S. tá oferecendo para esse ‘
pseudo’ alguém, ela ta contabilizando. Uma contabilidade que não fecha e que só aumenta sua frustração. Porque bem sabemos, caro leitor, que contabilidade assim nunca fecha.