
No princípio era o
Caos (
Num), o oceano primordial, dentro do qual se ocultava Atum, escondido num botão de lótus. Inesperadamente,
Rá (
Sol) apareceu sobre o
Caos e criou dois filhos divinos: Chu, deus do Ar, e Tefnet, deusa da Umidade (não da chuva, inexistente no Egito). Deste casal, nasceram
Gheb, deus da Terra, e
Nuit, deusa do Céu, que por sua vez deram à luz dois filhos,
Osíris e
Seth, e duas filhas,
Ísis e
Néftis. O filho de
Osíris e
Ísis foi
Hórus.

Personificando a abóbada celeste,
Nuit era representada geralmente como mulher arqueada sobre a terra com os pés e mãos tocando os horizontes oriental e ocidental, cujo corpo abriga os astros. Em virtude do sua ligação com o simbolismo de renascimento e ressurreição,
Nuit desempenhava importante papel funerário como protetora do morto, e assim a parte interna da tampa do sarcófago e nas paredes da tumba representava-se a sua imagem coberta de estrelas ou arqueada sobre a múmia, o que significava que a tumba e o sarcófago eram eles mesmos o céu de onde o morto despertaria para a vida nova no além.
Osíris era um mítico rei-deus dos habitantes do Nilo. Soberano benéfico, induziu os seus selvagens a viver em paz, a não destruir-se mutuamente e a abandonar a aventureira vida nômade. Ensinou-lhes a trabalhar a terra, a cultivar as parreiras e a obter delas o vinho bem como a cevada para extrair cerveja. Convenceu-os ainda a viver em comunidade e a fundar cidades.
Ísis é a mais famosa e cultuada deusa egípcia. Irmã e mulher de
Osíris, curava as doenças, expulsava os espíritos malignos com as magias. Fundou as famílias, ensinou aos homens fazer o pão e às mulheres a tecelagem e o bordado. Em suma, inventaram a civilização.

O Egito se viu, assim, na Idade do Ouro.
Toth era o deus lunar da escrita, das ciências, da comunicação. Era mensageiro e escrivão dos deuses, patrono dos escribas e companheiro e amigo de
Osíris. A ele coube a tarefa de ensinar aos egípcios ler e escrever. Aparece representado por uma cabeça de Íbis ou de um babuíno. Seu nascimento é obscuro. Acredita-se que tenha sido um homem de extrema inteligência, inventor dos hieróglifos que, por sua importância no Egito, ganhou o ‘
status’ de Deus. É através dele que
Rá (
Sol) materializou sua criação. Todas as ciências estão em seu poder e como tal é sua responsabilidade difundi-las. Por esse motivo, criou a escrita como forma de perpetuação dos conhecimentos transmitidos. Como deus da lua exerce suas funções divinas.

Conta a lenda que
Rá, cansado das intrigas e brigas incessantes dos homens, resolve abandonar a terra para se refugiar no céu. Com essa decisão, cria um caos na terra, uma vez que o astro solar
Rá ilumina a terra durante o dia e à noite a deixa em total escuridão para iluminar o mundo subterrâneo.
Thoth, a lua, substitui, então,
Rá em sua ausência noturna.
“Tu tomarás o meu lugar, serás o meu substituto. Chamar-te-ão
Thoth, o substituto de
Rá. Farei que rodeies os dois céus com a tua beleza e a tua claridade.” (Mitologia Egípcia, p.106)
Por fim, ele intervém no Além, exercendo as funções de escriba divino e de mensageiro dos deuses funerários, junto com
Maat.
Maat é a deusa egípcia da justiça e da verdade, a ordem universal e o equilíbrio cósmico desejado no momento da criação. É graças a ela que o mundo organizado conserva sua integridade. Tem como função controlar a regularidade dos fenômenos cósmicos e zelar pelo bom funcionamento das regras sociais. No culto divino diário, cada um deve respeitar aquilo que ela encarna para possibilitar o retorno dos fenômenos naturais que garantem a vida.

No momento da pesagem do coração,
Maat está colocada sobre um dos dois pratos da balança e tem de determinar o peso das faltas do defunto. Esta prova, a que ninguém pode se eximir para ascender ao reino de
Osíris, permite determinar se a alma do defunto está em conformidade com
Maat, isto é, se está em harmonia com as normas morais que regem a sociedade.
Maat assim pesa o coração morto em uma de suas balanças e na outra a pena de avestruz que ostenta em sua cabeça.
Thoth é quem anota o veredito da deusa, levando o defunto para
Osíris. Caso o coração do morto seja mais pesado que sua pena, imediatamente é devorado pelos chacais de
Anúbis. Caso contrário, se a pessoa viveu de acordo com a justiça e a verdade de
Maat, e seu coração pesar menos ou igual a sua pena, ganhará a imortalidade e viverá no reino de
Osíris.
Osíris quis levar a sua missão de paz e ensinamentos ao resto do mundo e, durante sua ausência, confiou a regência do trono a
Ísis. Porém,
Seth, o irmão excluído do trono por ser o segundo filho, planejou uma trama para usurpá-lo.
Osíris regressa da viagem, concluída com êxito, em companhia de
Toth e de
Anúbis, deus dos mortos que tinha dois aspectos distintos opostos. Como guia do céu e condutor das almas a
Osíris, ele era um deus benevolente. Mas como personificação da morte e da decomposição ele era um ser que inspirava terror.
Seth oferece uma grande festa em homenagem ao irmão, e durante o banquete mostra aos convidados um escrínio finamente adornado e proclama que o presentearia a quem entrasse nele e o ocupasse exatamente com o próprio corpo –
Seth tinha-o mandado fazer sob medida para
Osíris, que era de grande estatura. Todos os convidados admiraram a obra e desejaram tê-la. Então, cada um experimentou para ver se o seu corpo cabia dentro, mas o escrínio resultava sempre demasiadamente grande.

Enfim, chegou a vez do rei, cuja estatura se adaptou perfeitamente.
Seth, rapidamente, com seus cúmplices, fecha a tampa, lacra-a com chumbo e lança o escrínio no rio Nilo. Apavorados, os deuses tomaram formas de animais para fugir.
Ísis, desesperada, arranca as roupas e com a ajuda de
Toth foge e parte á procura dos restos mortais do esposo.
Nos arredores de Tânis, fica sabendo que a caixa, na correnteza daquele braço do Nilo, havia chegado ao mar. Desesperada, caminha até chegar a Biblos e recupera o esquife, transformando-o no tronco de uma árvore.
Porém, o rei de Biblos, ao ver a estranha árvore, ordena que a cortassem para fazer da mesma uma coluna no seu palácio.
Ísis ofereceu-se então para ser criada do palácio do rei e assim, ficar mais perto da coluna. Uma noite a rainha ao entrar no quarto de seu filho depara-se com uma situação aterradora: o berço estava rodeado por chamas e, aos pés da cama, sete escorpiões montavam guarda. Gritou perplexa e
Ísis, com um simples sinal, apaga as chamas.
A rainha agradecida promete-lhe o que quisesse.
Ísis pede a grande coluna de onde tirou o escrínio. Retoma o caminho de volta e transforma-se num falcão que agitando sobre ele as asas para restituir-lhe a vida, milagrosamente, fica fecundada. Chegando ao Egito, esconde o esquife num lugar solitário. Mas, por acaso,
Seth o encontra e vê os restos mortais do irmão. Fica furioso, despedaça-o em quatorze partes, espalhando-o pelo Egito.
Ísis, auxiliada por sua irmã
Néftis, recomeça a procura pelos restos fúnebres, recolhe os membros, pranteia sua morte, zela por seus pedaços e depois de imensas fadigas consegue reconstituí-los exceto o membro viril devorado por um ossírinco. Recomposto o corpo,
Ísis , a irmã
Néftis,
Toth e
Anúbis, todos juntos utilizam seus esforços para restituir a vida de
Osíris, ressucitando-o. Através de seu grande poder mágico, batendo suas grandes asas,
Ísis engravida e dá à luz a
Horus.
Anúbis embalsamou o corpo e surge assim a primeira múmia. Nas paredes do sepulcro, em Abidos, foram gravadas fórmulas mágicas rituais. Junto ao sarcófago foi colocada uma estátua semelhante ao defunto.
Assim,
Osíris ressuscitou, mas não pode reinar mais sobre esta terra e tornou-se rei do “Lugar que fica além do horizonte ocidental”.
Isis começa o seu segundo papel, o de mãe zelosa e dedicada que precisa resguardar o recém-nascido da fúria do
Seth, que ao saber de seu nascimento, parte à sua procura para dar-lhe cabo. Só não alcança seu intento devido ao poder mágico de
Ísis que, por diversas vezes, usa de seu conhecimento tanto de venenos quanto de antídotos, para salvar seu filho.
Ísis é aquela que detém os segredos da vida, da morte e da ressurreição.