quarta-feira, 28 de abril de 2010

Competente e febril


A melhor coisa a fazer quando meu pai falava em vender a casa era... mudar de assunto. Não levávamos a serio. Aquela historia era velha. Já tínhamos ouvido isso mil vezes. Não tínhamos com o que nos preocupar. Pelo menos é o que eu queria que alguém me convencesse.

Mas parecia que daquela vez a história estava mais séria do que de costume. Sentamos para jantar: o núcleo tradicional da família e meu pai, o homem que daria as más notícias. Segundo ele, estávamos atolados em dívidas, tínhamos um patrimônio incompatível com o montante que devíamos e venderíamos a casa. Pelo tom que ele falou, eu desconfiava que nem toda a lógica do mundo o convenceria do contrário.

Desnecessário dizer que foi uma decisão que repercutiu em todos nós. Como se um furacão tivesse atingido nossa casa, sem deixar sobreviventes. O resto da noite ninguém falou nada. Por algum motivo, guardamos tudo para nós.

O primeiro interessado na compra viria na semana seguinte. Às duas horas da tarde. Fui convocado para mostrar-lhe a casa. Juro que não sei a partir de que critérios. Tive uma covarde sensação de que, quando ele chegasse, eu teria febre.

Nosso inimigo chegou com a esposa pontualmente, às duas. Não sei mesmo como fui designado para esse posto. Até onde eu sabia, eu não tinha apenas vinte anos, mas uns vinte anos notavelmente imaturos. Sem nenhum grau de competência.

Consegui mostrar toda a casa e ainda respondi algumas perguntas sobre seu funcionamento. No final, era como se eu tivesse nascido pra isso. Já estava até confraternizando com o inimigo. Foi uma das tardes mais longas de toda a minha vida. Comecei a me ver como alguém extremamente competente e febril.

Mas a casa foi vendida somente um ano e três meses depois.

O tempo necessário para que pudéssemos nos despedir de toda nossa história nela.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Osíris e Ísis


No princípio era o Caos (Num), o oceano primordial, dentro do qual se ocultava Atum, escondido num botão de lótus. Inesperadamente, (Sol) apareceu sobre o Caos e criou dois filhos divinos: Chu, deus do Ar, e Tefnet, deusa da Umidade (não da chuva, inexistente no Egito). Deste casal, nasceram Gheb, deus da Terra, e Nuit, deusa do Céu, que por sua vez deram à luz dois filhos, Osíris e Seth, e duas filhas, Ísis e Néftis. O filho de Osíris e Ísis foi Hórus.


Personificando a abóbada celeste, Nuit era representada geralmente como mulher arqueada sobre a terra com os pés e mãos tocando os horizontes oriental e ocidental, cujo corpo abriga os astros. Em virtude do sua ligação com o simbolismo de renascimento e ressurreição, Nuit desempenhava importante papel funerário como protetora do morto, e assim a parte interna da tampa do sarcófago e nas paredes da tumba representava-se a sua imagem coberta de estrelas ou arqueada sobre a múmia, o que significava que a tumba e o sarcófago eram eles mesmos o céu de onde o morto despertaria para a vida nova no além.

Osíris era um mítico rei-deus dos habitantes do Nilo. Soberano benéfico, induziu os seus selvagens a viver em paz, a não destruir-se mutuamente e a abandonar a aventureira vida nômade. Ensinou-lhes a trabalhar a terra, a cultivar as parreiras e a obter delas o vinho bem como a cevada para extrair cerveja. Convenceu-os ainda a viver em comunidade e a fundar cidades.

Ísis é a mais famosa e cultuada deusa egípcia. Irmã e mulher de Osíris, curava as doenças, expulsava os espíritos malignos com as magias. Fundou as famílias, ensinou aos homens fazer o pão e às mulheres a tecelagem e o bordado. Em suma, inventaram a civilização.


O Egito se viu, assim, na Idade do Ouro. Toth era o deus lunar da escrita, das ciências, da comunicação. Era mensageiro e escrivão dos deuses, patrono dos escribas e companheiro e amigo de Osíris. A ele coube a tarefa de ensinar aos egípcios ler e escrever. Aparece representado por uma cabeça de Íbis ou de um babuíno. Seu nascimento é obscuro. Acredita-se que tenha sido um homem de extrema inteligência, inventor dos hieróglifos que, por sua importância no Egito, ganhou o ‘status’ de Deus. É através dele que (Sol) materializou sua criação. Todas as ciências estão em seu poder e como tal é sua responsabilidade difundi-las. Por esse motivo, criou a escrita como forma de perpetuação dos conhecimentos transmitidos. Como deus da lua exerce suas funções divinas.


Conta a lenda que , cansado das intrigas e brigas incessantes dos homens, resolve abandonar a terra para se refugiar no céu. Com essa decisão, cria um caos na terra, uma vez que o astro solar ilumina a terra durante o dia e à noite a deixa em total escuridão para iluminar o mundo subterrâneo. Thoth, a lua, substitui, então, em sua ausência noturna.

“Tu tomarás o meu lugar, serás o meu substituto. Chamar-te-ão Thoth, o substituto de . Farei que rodeies os dois céus com a tua beleza e a tua claridade.” (Mitologia Egípcia, p.106)

Por fim, ele intervém no Além, exercendo as funções de escriba divino e de mensageiro dos deuses funerários, junto com Maat.

Maat é a deusa egípcia da justiça e da verdade, a ordem universal e o equilíbrio cósmico desejado no momento da criação. É graças a ela que o mundo organizado conserva sua integridade. Tem como função controlar a regularidade dos fenômenos cósmicos e zelar pelo bom funcionamento das regras sociais. No culto divino diário, cada um deve respeitar aquilo que ela encarna para possibilitar o retorno dos fenômenos naturais que garantem a vida.


No momento da pesagem do coração, Maat está colocada sobre um dos dois pratos da balança e tem de determinar o peso das faltas do defunto. Esta prova, a que ninguém pode se eximir para ascender ao reino de Osíris, permite determinar se a alma do defunto está em conformidade com Maat, isto é, se está em harmonia com as normas morais que regem a sociedade.

Maat assim pesa o coração morto em uma de suas balanças e na outra a pena de avestruz que ostenta em sua cabeça. Thoth é quem anota o veredito da deusa, levando o defunto para Osíris. Caso o coração do morto seja mais pesado que sua pena, imediatamente é devorado pelos chacais de Anúbis. Caso contrário, se a pessoa viveu de acordo com a justiça e a verdade de Maat, e seu coração pesar menos ou igual a sua pena, ganhará a imortalidade e viverá no reino de Osíris.

Osíris quis levar a sua missão de paz e ensinamentos ao resto do mundo e, durante sua ausência, confiou a regência do trono a Ísis. Porém, Seth, o irmão excluído do trono por ser o segundo filho, planejou uma trama para usurpá-lo.

Osíris regressa da viagem, concluída com êxito, em companhia de Toth e de Anúbis, deus dos mortos que tinha dois aspectos distintos opostos. Como guia do céu e condutor das almas a Osíris, ele era um deus benevolente. Mas como personificação da morte e da decomposição ele era um ser que inspirava terror.

Seth oferece uma grande festa em homenagem ao irmão, e durante o banquete mostra aos convidados um escrínio finamente adornado e proclama que o presentearia a quem entrasse nele e o ocupasse exatamente com o próprio corpo – Seth tinha-o mandado fazer sob medida para Osíris, que era de grande estatura. Todos os convidados admiraram a obra e desejaram tê-la. Então, cada um experimentou para ver se o seu corpo cabia dentro, mas o escrínio resultava sempre demasiadamente grande.


Enfim, chegou a vez do rei, cuja estatura se adaptou perfeitamente. Seth, rapidamente, com seus cúmplices, fecha a tampa, lacra-a com chumbo e lança o escrínio no rio Nilo. Apavorados, os deuses tomaram formas de animais para fugir. Ísis, desesperada, arranca as roupas e com a ajuda de Toth foge e parte á procura dos restos mortais do esposo.

Nos arredores de Tânis, fica sabendo que a caixa, na correnteza daquele braço do Nilo, havia chegado ao mar. Desesperada, caminha até chegar a Biblos e recupera o esquife, transformando-o no tronco de uma árvore.

Porém, o rei de Biblos, ao ver a estranha árvore, ordena que a cortassem para fazer da mesma uma coluna no seu palácio.

Ísis ofereceu-se então para ser criada do palácio do rei e assim, ficar mais perto da coluna. Uma noite a rainha ao entrar no quarto de seu filho depara-se com uma situação aterradora: o berço estava rodeado por chamas e, aos pés da cama, sete escorpiões montavam guarda. Gritou perplexa e Ísis, com um simples sinal, apaga as chamas.

A rainha agradecida promete-lhe o que quisesse. Ísis pede a grande coluna de onde tirou o escrínio. Retoma o caminho de volta e transforma-se num falcão que agitando sobre ele as asas para restituir-lhe a vida, milagrosamente, fica fecundada. Chegando ao Egito, esconde o esquife num lugar solitário. Mas, por acaso, Seth o encontra e vê os restos mortais do irmão. Fica furioso, despedaça-o em quatorze partes, espalhando-o pelo Egito.


Ísis, auxiliada por sua irmã Néftis, recomeça a procura pelos restos fúnebres, recolhe os membros, pranteia sua morte, zela por seus pedaços e depois de imensas fadigas consegue reconstituí-los exceto o membro viril devorado por um ossírinco. Recomposto o corpo, Ísis , a irmã Néftis, Toth e Anúbis, todos juntos utilizam seus esforços para restituir a vida de Osíris, ressucitando-o. Através de seu grande poder mágico, batendo suas grandes asas, Ísis engravida e dá à luz a Horus.

Anúbis embalsamou o corpo e surge assim a primeira múmia. Nas paredes do sepulcro, em Abidos, foram gravadas fórmulas mágicas rituais. Junto ao sarcófago foi colocada uma estátua semelhante ao defunto.

Assim, Osíris ressuscitou, mas não pode reinar mais sobre esta terra e tornou-se rei do “Lugar que fica além do horizonte ocidental”.

Isis começa o seu segundo papel, o de mãe zelosa e dedicada que precisa resguardar o recém-nascido da fúria do Seth, que ao saber de seu nascimento, parte à sua procura para dar-lhe cabo. Só não alcança seu intento devido ao poder mágico de Ísis que, por diversas vezes, usa de seu conhecimento tanto de venenos quanto de antídotos, para salvar seu filho.

Ísis é aquela que detém os segredos da vida, da morte e da ressurreição.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Frágil


Já confessei aqui que desde que Tai apareceu definitivamente na minha vida, não consigo pensar em ninguém mais como ela, para captar imagens.

Tai tem preferência pelo lado direito do meu rosto. Justamente o mais frágil.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Adolescência 11 - Trégua


Como é que posso ser aberto quando ninguém fala nada ?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Zurique


Zurique, a última parada. Tudo no lugar certo, na hora certa, da forma certa, como se fosse um relógio suíço. Dois dias na Suiça. Quase de passagem. Para nós, brasileiros, conhecer um lugar como Zurique é, mantidas as proporções, mais ou menos como visitar outro planeta.

Não há o jeitinho brasileiro, o improviso, o na hora a gente vê como é que fica. Tudo parece ser feito de acordo com os manuais e normas técnicas. Talvez por isso alguns brasileiros que vivem lá acham o dia a dia desprovido de emoções. Eu acharia. Mas os suíços não reclamam. Zurique tem sido repetidamente apontada como a cidade líder em todo o mundo, em termos de qualidade de vida.

A maior cidade da Suíça é a síntese de um povo que deu certo. Tem um cenário privilegiado, onde destacam-se as água tranqüilas do Zurichsee e, ao longe, as montanhas do Alpes. Zurique é acima de tudo uma cidade bonita. E só.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Krems / Telc


Ainda na Austria, meu roteiro incluia duas pequena cidades que tinha muita curiosidade de conhecer: Krems e Telc.

A 70 kms a oeste de Viena, na confluência dos rios Krems e Danúbio, está localizada Krems ou Krems an der Donau, no estado da Baixa Austria.

Fiz um passeio incrível navegando pelas águas do rio Danúbio até chegar lá.

A história dessa cidade começa com registros do ano de 925, mas aparentemente o local já tinha assentamentos muito antes dessa data, como atestam túmulos de crianças descobertos com mais de 27 mil anos de idade. Durante os séculos XI e XII, Chremis, como era chamada, era maior do que a prórpia Viena. As principais atrações turísticas e históricas são seus antigos muros, uma antiga igreja gótica e Steiner Tor, o último portal da cidade, construído em 1480 e único remanescente do período medieval.

Descobri também que é uma antiga cidade vinícola, o lar de várias adegas bem conhecidas. Austríacos e estrangeiros conhecedores de vinho se reúnem na cidade, especialmente no outono na época da colheita.

No dia seguinte, fui para a cidade renascentista de Telc. Foi fundada no século XIV pelos senhores feudais de Hradec como um assentamento fortificado, com um castelo separado da cidade por uma grande muralha. Em 1992, Telc foi declarada "Patrimônio da Humanidade", distinção que contrasta com o pequeno número de turistas que estavam lá. E estávamos no verão.

A praça antiga da cidade é rodeada em três de seus lados por casas renascentistas construídas sobre as ruínas de suas antecessoras góticas, todas destruídas no grande incêndio de 1530. Destacam no conjunto arquitetônico da cidade, a Torre Românica, a leste da praça, e a Coluna Mariana, de estilo barroco, em harmonia com o resto do quadro. Mas o monumento mais representativo de Telc, é o Castelo de Água, de 1568, no extremo ocidental da praça.

Uma verdadeira aula de história.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Viena


Depois de cinco dias em Budapeste e cinco dias em Praga, chego a Viena, para ficar mais cinco dias e depois percorrer o interior da Austria. Novamente de trem. Sol todos os dias. Muito bom.

Viena é uma cidade de avenidas largas e arborizadas, imponentes prédios históricos, palácios, museus e calçadas repletas de elegantes cafés e restaurantes. Vale lembrar que foi a capital da dinastia Habsburg, e sendo assim, a cidade mais influente da Europa. Seu domínio se estendeu por metade do continente, e ainda hoje exibe todos os símbolos daquela época elegante.

Décima maior capital européia. A terceira em nível de padrão de vida. Schönbrunn é o principal palácio de Viena. Ele é para Viena o que Versalhes é para Paris. Concluído em 1713, foi a residência de verão dos imperadores da Áustria, e a visita ao seu interior revela o ambiente de luxo, esplendor e riqueza da dinastia Habsburg. Aqui viveu a imperatriz Elizabeth (Sissi para os mais íntimos) amada pelo povo, mas desprezada pela corte Austríaca, devido à sua origem.

A praça de San Esteban (com sua catedral) é um lugar inesquecível. O gótico obscuro - a zona negra da catedral - é espectacular, devido a um incêndio. O seu interior é cheio de obras de arte. As pessoas se aglomeram ao redor de algum artista na rua que aproveita o tumulto para fazer o seu espetáculo. E tudo rodeado das lojas e dos cafés mais interessantes. Um lugar fantástico para se passear em dias de verão.

Uma cidade altamente musical. Tive a impressão de ouvir em algum lugar ao longe a melodia mais tocada nos palácios onde se dançava a valsa na época dos Habsburg, a eterna Danúbio Azul. Enquanto estive lá, ela parecia estar sempre tocando em minha cabeça. De alguma forma estava mesmo, me transportando para aquela Viena imperial.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Praga


Próxima Parada: Praga. Chego de trem, animado, vindo de Budapeste.

Conhecida como Pérola do Oriente, a capital da República Tcheca tem a fama – mais que merecida, por sinal, - de seduzir as pessoas. Franz Kafka já dizia: “Praga não deixa a gente ir embora”. É verdade. Foram cinco dias em Praga, mas eu teria ficado mais uns cento e vinte e três dias. Fácil, fácil. Cada bairro é um atrativo. Cada rua é uma obra de arte. Foi a cidade mais bonita e fascinante que estive em toda a minha vida. Praga é uma cidade antiga, mas não é velha. Ela é jovem, sensual e capaz de seduzir todos que passam por lá. Comigo não ia ser diferente.

Aprendi que essa era uma cidade muito pouco visitada por ser integrante do bloco comunista, e sendo assim, não era receptiva ao turismo. É um lugar para ir sem roteiro, caminhando a esmo, sem rumo nem direção, caminhando ao acaso e descobrindo um encanto novo a cada ruela.

Praga é cortada pelo rio Vltava e pode ser dividida didaticamente em cinco partes. À direita do rio, temos: Josefov (bairro judeu), Stare Mesto (cidade velha, onde está o centro) e Nove Mesto (cidade nova). Na margem esquerda do rio estão: Mala Strana (onde todas as construções são anteriores ao século XIX) e Prazsky Hrad Hradcany (onde foi fundada a cidade de Praga). Isso mesmo, uns nomes praticamente impossíveis. Desde Budapeste que não consigo aprender uma palavra nova, mesmo quando pergunto, e todos tem boa vontade, repito umas três vezes e quinze minutos depois já esqueci.

Caminhar peça cidade velha é como voltar a uns seissentos anos no tempo. Encontramos o relógio astronômico e a Igreja de São Nicolau. Local perfeito para se largar e ficar apreciando o movimento da cidade.

O povo é ainda mais animado do que em Budapeste, a quantidade de bares é enorme e o verão parece uma festa constante para eles. A sensação que tive em Budapeste voltava a noite. Como já falei, pode ser bebedeira louca. Mas pode ser também lucidez.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Budapeste


A Eurotrip inesquecível de 2004 começa em Budapeste. Uma cidade cheia de arte, cultura, arquitetura e tradições.

No lado direito do rio Danúbio vê-se Peste. No lado esquerdo está Buda. Oficialmente unidas desde 1873, as duas formam a cidade que ficou conhecida como Rainha do Danúbio, ou Budapeste. Através de uma história conturbada, de invasões e lutas, a capital da Hungria é uma cidade cheia de charme, considerada, por merecimento, a Paris do Leste Europeu.

Uma sugestão de caminhada é sair de Peste, pegar a ponte Lánchid, que foi a primeira ponte construída sobre o Danúbio e chegar a Buda. O bonde também funciona bem. Fui e voltei de um lado para o outro da cidade, bem como de Buda para Peste, de bonde. Mesmo sem entender as informações fixadas nas paradas, mesmo sem entender a língua e errando o caminho duas vezes, é possível chegar.

O prédio mais representativo da cidade é o Parlamento Húngaro. Construído em estilo gótico, com diversas torres, pináculos e centenas de salões, ornados com estátuas de húngaros proeminentes. A decoração do prédio tem as bandeiras com as cores nacionais da Hungria: vermelho, branco e verde.

Dominando a margem oposta do Danúbio, O Castelo de Buda sobressai na margem oeste do Danúbio. Tem-se também a Basílica de São Estevão, a maior igreja da cidade construída em 1851, um dos mais belos conjuntos de obra de arte da cidade.

O povo é alegre, comunicativo e gosta de beber. Muito. As noites são animadas e a vida noturna é bem intensa. Afinal, era o mês de julho, o auge do verão europeu.

Tive sensações de felicidade, excitação e reconhecimento em Budapeste.

Eu nem quis saber se foi bebedeira louca... ou lucidez.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Pilha de queixas 8

V. (39 anos) namora o chefe casado. Quando sóbria, diz que o acha maravilhoso e está feliz com ele. Bastam duas doses de qualquer álcool que ela despeja toda a infelicidade de namorar esse mesmo chefe, que fica o tempo todo falando assunto de trabalho e mandando ela anotar tudo a ser feito no dia seguinte, estejam onde estiverem. Inclusive na cama. Penso: “ela é praticamente a amante estenógrafa dele”.

Ela sempre foi muita calma em relação a sua história afetiva, embora sua tranquilidade seja de origem farmacêutica: ela reveza doses diárias de calmantes e excitantes, remédios fortíssimos que minam seus nervos e provocam efeitos colaterais.

V. afirma que está “cansada dessa situação” – que diga-se de passagem, ela mesma criou. A auto-sabotagem é uma arma feminina, sacada sempre que a imunidade da mulher é abalada por algo desconhecido.

Ultimamente ela tem falado que "a ele está reservado o prato frio da vingança". Disse, com um certo orgulho, que "não deixo barato nenhum mal que alguém tenha feito a mim, sei dar o troco, me vingo mesmo", batendo com força no peito.

A vingança faz esconjurar a consciência ferida de quem se sente enganado. Explico que é comum às vezes sentirmos vontade de 'acabar' com alguém que nos fez mal, embora o maior prejudicado do rancor e do ódio seja sempre aquele que os sente. Porém, aprendi que é muito difícil dissuadir alguém com um plano que já está prestes a ser executado.

Ainda não vi pagar o mal com o mal ou guardar 'num baú' todos os maus sentimentos trazer lucro pra ninguém. Nem pro coração, nem pro estômago. Principalmente pra alma. Além do que, nos deixa presos àquele que nos prejudicou: acordamos pensando nisso, comemos lembrando do que nos fez, gerando muitas vezes uma gastrite dos infernos. Ou até mesmo uma úlcera.

Aleguei tudo isso e ela prometeu pensar sobre o assunto. O que já é um começo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

"McCabe & Mrs.Miller"


No início do século XX, num dia chuvoso, um jogador chamado John McCabe chega, montado num cavalo, na cidade da “Igreja Presbiteriana”, noroeste úmido e frio dos Estados Unidos. Rapidamente ele conquista uma posição dominante sobre aquela cidade simplória, graças a sua personalidade agressiva e os rumores de que ele é um pistoleiro.



McCabe estabelece então um bordel, constituído por três prostitutas extravagantes compradas de um cafetão da cidade vizinha, e começa a obter algum sucesso. Constance Miller, uma "profissional" inglesa, viciada em ópio, chega na cidade e quer ser sua parceira. Ela há muito já se desinteressou por sua própria beleza, com exceção do que pode ganhar com ela. Argumenta que, como prostituta, pode fazer um trabalho de gestão do bordel melhor que ele. Os dois tornam-se então parceiros de um bem sucedido estabelecimento de classe. Um interesse amoroso desenvolve-se entre os dois, após McCabe aproveitar os seus serviços.

Há sempre dinheiro envolvido em tudo. Um dia um homem chamado Bart morre e no funeral, Mrs. Miller convence a viúva a tornar-se uma prostituta. Argumenta: “É o que você fazia antes com Bart, só que agora você pode ficar com uma parte do dinheiro para si mesma”.

A cidade prospera tornando-se mais rica e bem sucedida. Agentes da companhia de mineração da cidade vizinha chegam para comprar os negócios de McCabe, bem como as minas de zinco ao redor. Porém, essa companhia é bem mais conhecida por matar pessoas que se recusam a vender o que eles querem comprar do que pelas suas próprias atividades de mineração. McCabe não aceita vender pelo preço inicial oferecido e passa a inflacionar o valor nas negociações, apesar das advertências de Mrs. Miller, de que ele está subestimando a violência que se seguirá, se não aceitar o dinheiro.

Assim, três assassinos são expedidos pela empresa mineira para matá-lo. Embora tenha ficado com medo dos pistoleiros quando eles chegam na cidade, McCabe tenta em vão apaziguá-los, mas recusa-se a abandonar a cidade.

Finalmente, quando um confronto letal torna-se inevitável, ele mata dois dos homens armados atirando por trás, deixando apenas o outro vivo. Em uma torção final, McCabe atira no terceiro com sua pistola, mas é mortalmente ferido. A neve cai fortemente soprando sempre em uma inclinação. Enquanto o povo combate um incêndio na capela, McCabe morre na neve e Mrs. Miller entorpece-se com ópio chinês.



Poucos filmes têm um sentido tão esmagador da localização. A Igreja Presbiteriana é uma cidade perdida no nada, coberta por uma madeira bruta serrada, cortada das florestas. Parece um canteiro de obras. Buracos cavados. Madeira empilhada para cima esperando ser utilizada. Nessa cidade de pessoas simples, são quase todos homens e a maioria deles estão envolvidos na construção da cidade. Além do trabalho, não há nada a fazer senão beber, jogar e contratar os prazeres das mulheres.

A terra é uma lama de gelo. Os dias são curtos. Há pouca luz no interior. Os ambientes são fechados, as salas são escuras. Há apenas luz suficiente vinda ora de uma fogueira, ora de uma lâmpada de gás para fazer brilhar seja um dente de ouro ou uma lágrima.

Os personagens não são introduzidos. Eles já estão todos lá. Na verdade, eles já estão lá há muito tempo. Eles sabem tudo sobre os outros. Existe esse pressuposto fundamental: Todos os personagens se conhecem. A câmera não olha primeiro para um e depois para outro. Na linha do diálogo, eles não falam um após o outro, como personagens de um jogo. Eles conversam quando e como querem. Passamos a entender que não é tão importante ouvir cada palavra. Às vezes tudo o que importa é o tom escuro de um quarto.

A trilha sonora e todas as canções afogam os personagens na natureza. É escuro, molhado, frio e, em seguida, neva. O céu é um crepúsculo e a neve cai de forma constante toda vez que fecha alguma passagem do filme.

Em alguns filmes, geralmente quando o herói morre, vemos sempre o olhar triste de sua companheira/heroína. Numa aspereza poética, aqui vemos Mrs. Miller olhar triste antes mesmo de McCabe cumprir o seu destino. Na verdade, ela é o ópio no final da Igreja Presbiteriana. Sua atenção está focada em cores bonitas e superfícies. O tempo e lugar já estão tão mortos para ela que simplesmente prefere desligar a sua mente.

Só pra finalizar vale ressaltar também o título do filme "McCabe & Mrs. Miller". Não "e" como em um par, mas "&", como em uma corporação. É um acordo comercial onde eles trabalham em parceria. Porém é ela quem faz quase tudo – e quase sempre bem. Ela é segura, determinada, assertiva, fria, inteligente e principalmente, triste. Já detinha essa tristeza antes mesmo de chegar na cidade. Ao mesmo tempo que é suficientemente independente para preparar e consumir sua própria erva.

McCabe, esse estranho misterioso, é fanfarrão, borrifa suas fraquezas – covardia, pouca habilidade na matemática e mau jeito no manejo da arma – com uma água de colônia de terceira categoria. Passeia aprumado pela cidade, exalando um “novo riquismo” tão pífio quanto patético que acabará por lhe sair caro. Porém, ele tem a poesia em si. He has poetry inside him. Passa muito tempo conversando consigo mesmo, murmurando críticas ou intenções. Ele diz para si mesmo o que tanto gostaria de dizer para Mrs.Miller : "Se apenas tivesse um momento em que você pudesse ser doce, sem pensar em dinheiro".

O filme deixa subentendida a união (amorosa), porém quase sobrefilma a separação. As cenas de sexo estão omissas e o fato de partilharem a mesma cama passa quase desapercebido.

Mas McCabe estava numa cidade onde ninguém sabia o que era apenas uma poesia, e Mrs.Miller já tinha perdido a sua há muito tempo.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

McCabe



Desde que iniciei o blog, McCabe ganhou vida própria. A intenção era ser uma nova versão de mim mesmo. Porém, o personagem inventado por mim começou a escrever um texto inventado por ele.

O nome é uma homenagem ao personagem de Warren Beatty em “McCabe & Mrs.Miller” (1971), um western dirigido por Robert Altman. Meu pai adorava esse filme e creio que ele viu na época do seu lançamento. Eu só fui assistir na década de 80, televisionado numa ‘Sessão Coruja’ e ainda por cima, dublado. Devia ter uns 16 anos na época e confesso que além de não ter entendido quase nada, achei tudo muito chato. Meses antes de iniciar o blog, baixei o filme e fiquei bem impressionado. Já estava na atmosfera de resgatar minha história.

Trata-se de um filme perfeito. Sem dúvida, é um das histórias mais tristes que já vi em toda a minha vida. Cheio de uma ânsia de amor e de um repouso que nunca chega. Não por McCabe, nem por Mrs. Miller. Mas pela cidade da Igreja Presbiteriana, que se esconde sob um céu cinza sempre pesado, seja com chuva ou neve.

O filme é um poema, um conto sombrio - uma elegia para o fim.