
A melhor coisa a fazer quando meu pai falava em vender a casa era... mudar de assunto. Não levávamos a serio. Aquela historia era velha. Já tínhamos ouvido isso mil vezes. Não tínhamos com o que nos preocupar. Pelo menos é o que eu queria que alguém me convencesse.
Mas parecia que daquela vez a história estava mais séria do que de costume. Sentamos para jantar: o núcleo tradicional da família e meu pai, o homem que daria as más notícias. Segundo ele, estávamos atolados em dívidas, tínhamos um patrimônio incompatível com o montante que devíamos e venderíamos a casa. Pelo tom que ele falou, eu desconfiava que nem toda a lógica do mundo o convenceria do contrário.
Desnecessário dizer que foi uma decisão que repercutiu em todos nós. Como se um furacão tivesse atingido nossa casa, sem deixar sobreviventes. O resto da noite ninguém falou nada. Por algum motivo, guardamos tudo para nós.
O primeiro interessado na compra viria na semana seguinte. Às duas horas da tarde. Fui convocado para mostrar-lhe a casa. Juro que não sei a partir de que critérios. Tive uma covarde sensação de que, quando ele chegasse, eu teria febre.
Nosso inimigo chegou com a esposa pontualmente, às duas. Não sei mesmo como fui designado para esse posto. Até onde eu sabia, eu não tinha apenas vinte anos, mas uns vinte anos notavelmente imaturos. Sem nenhum grau de competência.
Consegui mostrar toda a casa e ainda respondi algumas perguntas sobre seu funcionamento. No final, era como se eu tivesse nascido pra isso. Já estava até confraternizando com o inimigo. Foi uma das tardes mais longas de toda a minha vida. Comecei a me ver como alguém extremamente competente e febril.
Mas a casa foi vendida somente um ano e três meses depois.
O tempo necessário para que pudéssemos nos despedir de toda nossa história nela.
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