V. (39 anos) namora o chefe casado. Quando sóbria, diz que o acha maravilhoso e está feliz com ele. Bastam duas doses de qualquer álcool que ela despeja toda a infelicidade de namorar esse mesmo chefe, que fica o tempo todo falando assunto de trabalho e mandando ela anotar tudo a ser feito no dia seguinte, estejam onde estiverem. Inclusive na cama. Penso: “ela é praticamente a amante estenógrafa dele”.
Ela sempre foi muita calma em relação a sua história afetiva, embora sua tranquilidade seja de origem farmacêutica: ela reveza doses diárias de calmantes e excitantes, remédios fortíssimos que minam seus nervos e provocam efeitos colaterais.
V. afirma que está “cansada dessa situação” – que diga-se de passagem, ela mesma criou. A auto-sabotagem é uma arma feminina, sacada sempre que a imunidade da mulher é abalada por algo desconhecido.
Ultimamente ela tem falado que "a ele está reservado o prato frio da vingança". Disse, com um certo orgulho, que "não deixo barato nenhum mal que alguém tenha feito a mim, sei dar o troco, me vingo mesmo", batendo com força no peito.
A vingança faz esconjurar a consciência ferida de quem se sente enganado. Explico que é comum às vezes sentirmos vontade de 'acabar' com alguém que nos fez mal, embora o maior prejudicado do rancor e do ódio seja sempre aquele que os sente. Porém, aprendi que é muito difícil dissuadir alguém com um plano que já está prestes a ser executado.
Ainda não vi pagar o mal com o mal ou guardar 'num baú' todos os maus sentimentos trazer lucro pra ninguém. Nem pro coração, nem pro estômago. Principalmente pra alma. Além do que, nos deixa presos àquele que nos prejudicou: acordamos pensando nisso, comemos lembrando do que nos fez, gerando muitas vezes uma gastrite dos infernos. Ou até mesmo uma úlcera.
Aleguei tudo isso e ela prometeu pensar sobre o assunto. O que já é um começo.
É aquela cena da pessoa à beira do precipício, mas que não tem coragem de se jogar, então tenta armar uma cena em que fique parecendo que alguém a empurrou, e escolhe justamente aquele que um dia estendeu a mão amiga, e agarra a mão do algoz eleito e joga todo o peso nessa mão sabendo que uma hora ele não irá aguentar mais segurá-la.
ResponderExcluirJá tá pronta pra levar o tombo. Já olhou o precipício, viu que não tem ninguém, só falta coragem... a pessoa tem tanta auto-piedade que passa a escolher o seu algoz.
ResponderExcluirNão basta se presentear com a derrota, tem que culpar alguém junto.