sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um ano descontínuo


Um ano descontínuo.

Fui e voltei do presente ao passado, num leva-e-traz de pensamentos e memórias. Minha cabeça oscilou entre a doçura e a intempestividade. Descobri-me incompreendido e deslocado, muitas vezes com vontade de me refugiar incógnito em algum canto do mundo. No mar. Sempre o mar.

Acumulei reticências e temores no meu rosto, sulcado de milímetros canyons. Colecionei lugares-comuns e tive grande prazer em exibir minha coleção. Testemunhei batalhas perigosas dentro e fora dos limites da minha fantasia.

Um ano descontínuo.

domingo, 27 de novembro de 2011

Jerusalém


Chegamos a Jerusalém. Não há outro lugar onde o arcaico e o moderno convivem com tamanha harmonia, onde a fé genuína e a pura fantasia se fundem nas mentes humanas mais sensíveis, com tamanha frequência. Em Jerusalém vivemos o passado, o presente, o futuro, e quem sabe, uma outra dimensão, tudo no mesmo dia. Paisagens solenes em meio a rituais religiosos. É possível pela manhã passar pelo Santo Sepúlcro (cristãos) e a tarde, ir a the Kotel (judeus) e the Dome (muçulmanos).

A harmonia porém só é geográfica. Há uma atmosfera repressora que causa desconforto.
Toda a região é tensa. Muito. Toda a tensão presente no Egito não faz frente ao que se passa em Israel. O tempo todo. Nos aeroportos, nas estações de trem, de ônibus, sempre presenciamos uma inquietação a mais. A ação e a aventura a qualquer preço, e em qualquer lugar, são mais do que uma forma de vida: uma redenção. Ao menos da boca pra fora.

Passear pela Old City of Jerusalém é permitir que o passado se abra à minha frente, deixando-me às cegas. Andar por aqueles caminhos é contar uma parábola de ressonâncias bíblicas cheia de segredos e mistérios.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Petra


Minha segunda viagem ao Oriente Médio. Dessa vez, Jordânia e Israel. O Oriente é um lugar tenso. Muito. Já havia passado por toda essa tensão em minha viagem ao Egito. Mas essa parte do mundo exerce um fascínio sobre mim. Histórico sim, mas vai além disso. Algo da ordem do emocional. É sempre uma emoção muito grande percorrer essas estradas, esses caminhos. A Europa é o Velho Continente, mas ali é o berço de tudo, de toda a nossa história.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Rock in Rio - Sons e memória

Os sons ainda estão percorrendo minha memória. Não sou crítico musical, logo ter ido ao Rock in Rio, sábado, dia 1 de outubro, foi um acontecimento mágico.

Duas bandas que são trilha sonora para minha vida tocaram nesse dia: Skank e Coldplay. As duas bandas, inclusive, já mereceram posts derramados sobre minha devoção a elas. E as duas estavam lá, profetizando toda a emoção da noite. Skank com "Três lados", "Acima do sol" e "Sutilmente". Coldplay com "Yellow", "In my place", "The scientist", "Lost", "Fix you", "Violet hill" e o recente "Every teardrop is a waterfall", já trilhando nova emoção em minha vida. Mas a grande surpresa foi o Maroon 5. O disco "Songs about Jane" era um dos meus preferidos em 2004, e lá estavam todos os hits "This love", "Sunday morning" e a melhor de todas "She will be loved", numa versão extended, talvez o melhor momento da noite.

Saí feliz e pensativo. Essas músicas me jogam sempre para muitos lugares. E todos eles compõe minha memória afetiva. Confesso que fico meio confuso, principalmente porque mais de uma década de fatos e personagens ressurgem ali. Saudades de todos esses tempos.

Os sons ainda estão percorrendo minha memória.

sábado, 1 de outubro de 2011

Aniversário















Há exatamente um mês atrás foi meu aniversário, o dia em que me torno um tipo de unanimidade. O dia que colho os mimos, as atenções e as adulações das pessoas que me cercam. Continuo mantendo minha fidelidade a parcerias antigas e renovando meu amor no coração da minha sagrada quadrilha.

Em minha inquieta molecagem, respiro os novos tempos, os outros ventos, os novos novos. Sempre sentindo que algo novo virá por ali e de todos em minha volta.

A empolgação parece exagero. Mas faz sentido, sim. O otimismo se justifica. Total adesão dos meus amigos. Todos lá. Rose, Fabrizio, Márcia, Guilherme, Maria Olívia, Tai, Déborah, Cris, Babi, Bela, Luísa, Bernardo, Carol, Rogério e tantos outros, alguns estreando no CaduFest Rodrigo, Luíza, Gaia. E eu, em meus oligofrênicos transes espirituais, conjugando felicidade à aprovação unânime.

Luciana não pode vir de São Paulo. Segundo ela, salvo a década que morou em Manhattan, esse foi o primeiro aniversário que ela não compareceu. Mas o motivo foi justo. E ela estava em alma&espírito, mandando torpedos constantes que só fui ler no dia seguinte. Maria Olívia a representou, sempre disposta a provar que sua versatilidade não tem limites. O que até agora ela conseguiu plenamente. E não sem esplêndidas compensações.

O resultado foi sensacional. Méritos meus, mas iguais elogios para todos presentes.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dois anos depois


O blog tem revelado um caminho novo para mim. Busco sempre o novo e a transformação. Esse espaço me trouxe a vontade de criar. Uma espécie de perfil de mim mesmo e da minha galeria de honra. Minha platéia agora é um grupo de amigos que se procura agradar, num pódio quase particular. Isso tem me alegrado muito. Com ele, há troca. Um bate-e-volta. Um entrosamento.

A passagem do tempo está impressa post a post. Uma profusão de fotos me leva a uma viagem fotográfica desde as minhas origens até os dias de hoje. Assumo todos os meus lados. Estou inteiro no blog, como talvez nunca tenha estado em outras coisas que escrevi. Combinando maturidade e afeto, o binômio dessa minha fase. É bom lembrar que maturidade é sempre uma das melhores conquistas na vida.

Sei que o blog tem personagens em excesso, que aparecem e somem sem maiores explicações, ao acaso de situações desligadas entre si. Nunca se sabe muito bem por quais regras os personagens se comportam. Mas não se deve buscar também uma história linear, com começo, meio e fim. Apenas acompanhar a forma afetiva com que eu retrato a convivência dos meus personagens entre eles ou mesmo comigo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Pilha de queixas 15

B. (38 anos) é um modelo de virtude religiosa e retidão moral. Um colosso de bons sentimentos. Possui, ninguém duvida, um coração de ouro.

Na primeira entrevista, foi capaz de citar mansamente a Bíblia e as sagradas escrituras, numa evangélica oratória, demonstrando preocupação “com a glória nas alturas e a tentação do demônio”. Tem confiança “no poder da redenção, nos valores da decência” e a convicção de que “a graça divina triunfará sobre os descaminhos do vício”. Pretende borrifar litros de água benta sobre tantos sacrilégios, acreditando assim que será levada para o reino dos bem-aventurados. Ela é quase sempre uma pastoral.

Quando pergunto sobre hobbies, ela diz que lê “sobre a vida dos santos” e se penitencia pelos pecados que ainda não cometeu. Quando pergunto sobre relacionamentos amorosos, diz que “resiste aos apelos frenéticos da carne”. Deve acreditar que o sexo é algo que só pode ser praticado por desajustados. Como se não bastasse tanta santificação e sem perder de vista o apocalipse, ela apega-se a uma profusão de símbolos cristãos com o fervor de uma carmelita sempre que se sente atraída por alguém.

Mas quem se importa ? Os outros acham-na tão intolerável que nem sequer ousam retribuir-lhe um bom dia. Nada há de errado com ela, a não ser o fato dela ser absolutamente chata devido ao seu inabalável credo religioso. Trilha o caminho certo para doses inigualáveis de chatice, como dar conselhos e sermões moralistas que ninguém ouve se puder evitar. Assunto, naturalmente, não lhe falta. Mas os ouvintes vêem nela um castelo de preceitos morais.

Ela diz que gostaria de se analisar, para “fazer mais amizades”. O mundo de B. já está pronto e escrito nas páginas da Bíblia. Como sugerir que ela abdique de tudo que acredita fervorosamente para abrir as portas para um outro mundo ?

domingo, 5 de junho de 2011

Purgatório


Aquele foi seu ano de purgatório. Durante esses tempo, insuspeitamente discreta e laboriosamente comedida, ela procurou afugentar todos os diabólicos mal-entendidos que, no passado, marcaram as passagens de sua vida. Controlou seu temperamento. Ponderou palavras e opiniões. Silenciou gestos e expressões. Não deu um passo em falso. Resistiu enquanto pôde no coração das trevas.

Submeteu-se a uma bateria de conselhos e sugestões. Mesmo quando os seus mentores marchavam contra as idéias que fervilhavam em sua cabeça para completar essa árdua jornada de penitência, guardadas todas as devidas proporções de tempo e espaço.

Não se pode pretender, porém, que os recém purificados se tornem imediatamente felizes e espontâneos. Todo paraíso tem a sua serpente. A maçã que traz para sua mordida é o passado. Ela tem uma imagem a confirmar e outra a desmentir. Quer se livrar dos arranhões a sua reputação. Não seguiu completamente a lição. Mas sinceramente reconheceu seu engano. O tempo passou e o pesadelo foi esquecido. O mal foi castigado.

domingo, 29 de maio de 2011

Ela e eu


Naquele momento, o que eu desejava mais que tudo era a liberdade de silêncio. E o poder do silêncio - para silenciar a todos que quisessem saber porque não éramos mais amigos ou não nos falávamos mais.

No começo, foi um tiroteio de perguntas, onde eu tentava responder de modo mais evasivo possível. Não queria discussões, ataques ou defesas, ou mesmo ser o alvo de nenhum tipo de curiosidade alheia. Quase agradecia de joelhos quando não me perguntavam nada sobre ela. Recusei-me a falar sobre a nossa separação, no intuito de não revolver a chaga ou abrir novas feridas.

Cinco anos depois, por um motivo que muitos conhecem, decido quebrar o silêncio. Digo a mim mesmo que isso só vai doer um minuto.

Tudo começou com uma desconfortável suspeita que ela me enganava. Sem embaraços nem constrangimentos. Senti o mau presságio, como se soubesse o que estaria por vir. Confirmei minhas premonições. Sua suposta lealdade foi posta à prova. Naquela madrugada, passou o diabo na minha cabeça. Meu cérebro fervilhou.

Ela não tinha nada de ingênua. Talvez tudo a respeito dela tenha me enganado. Acho que nunca soube mesmo quem ela era. Se alguém me perguntasse hoje como se escreve seu nome, não me sinto na liberdade de responder.

Segui de peito aberto, cabeça reta. Desanimado, escalando um telhado íngreme. Decidi engolir tudo quieto. Fiz voto de silêncio, cumprindo o dever moral de me calar sobre o assunto. Uma omissão propositada. Olhando o mar. Sempre o mar. Sem desentendimento, não há conflito, não há acerto de contas e, portanto, não há tragédia. Mas também não há mais nada.

Por dentro, me sentia num barco abandonado navegando um mar bem quente. Tudo isso ajudou a encerrar meu tom de vida acelerado, a militância boêmia e a época barulhenta dos superlativos. Dando início a dois anos de introspecção, de mais suavidade e de um casamento feliz.

Minha casa não era mais o epicentro da folia. Uma época agitada e embaçada mostrava sinais de estar no fim. Comecei a mudar o compasso. Hoje, tudo deixa claro que eu estava assinalando rupturas.

Nossa amizade não acabou simplesmente. Eu é que tive que acabar aos poucos com ela, antes que ela acabasse comigo. Primeiro, tornei-a semi-póstuma. Parecia estar morta, mas mesmo assim agonizava vivendo. No fundo, tinha minhas dúvidas sobre a validade legal destes procedimentos forçados. Enfraqueci o sentimento para deixar então que morresse de morte natural, quase às escondidas. Até que pudesse ser sepultada e sumisse por debaixo da terra. Como finalmente aconteceu. Custa a acreditar que ela pudesse ter ficado tão surpresa com o meu distanciamento, como depois fiquei sabendo.

Na verdade – e tenho de ser cauteloso ao afirmar isso - o afastamento foi oportuno. Ela percebeu o quanto seria difícil ressuscitar a inocência da minha confiança. Sabia que eu não havia de querer nem ouvir falar a respeito de toda aquela história. Tentou mostrar indiferença.

Nunca a indiferença de alguém me foi tão reconfortante. Lamentei algumas vezes não saber muito bem o que fazer a respeito. Sei que ela não calculou o prejuízo imprevisível. Gostaria de pensar que ela pudesse ter enlouquecido. Mas pra mim, pelo menos, foi um dano grave.

Poucas amizades foram tão fulminantes e nenhuma teve uma queda tão brusca quanto a nossa. Porém, o que foi doloroso e difícil de entender abriu caminho para uma guinada. E assim o destino se cumpriu: o trágico rompimento de duas pessoas que pareciam se gostar. Ela cortada pela culpa. Eu atrofiado pela tristeza.

Tinha gente que duvidava que eu pudesse renascer assim tão confiante depois de tudo. Mas estive aí esse tempo todo pra quem quisesse conferir.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tempestade


Neste momento, então, a vida é uma tempestade que machuca, molha, mas passa.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Capricho do destino


Meu irmão e eu estávamos condenados, desde que nascemos. Por um capricho do destino, nossas histórias se cruzaram. Pro melhor e pro pior. O mais engraçado é que, durante muito tempo, nos divertíamos os dois juntos. Foi com o passar do tempo que então percebemos o horror do que estava acontecendo: nossa capacidade de negociação parou de funcionar. Não concordávamos a respeito de mais nada. Entramos em rota irreversivel de colisao. Nenhum de nós cedia - havia princípios em jogo. Foram traçadas as linhas da batalha. As palavras falharam. As negociações fracassaram. Iriam começar as hostilidades. Nem minha mãe, uma mediadora experiente, poderia transpor o abismo.

E no auge dessa constatação, quando meu irmão havia acabado de tirar sua carteira de motorista, meu pai solicitou que fossêmos no aniversário da filha de um funcionário de sua empresa. Na Baixada Fluminense.

Meu irmão, na fissura de pegar o carro do meu pai, aceitou o desafio. Eu fui subornado com uma mesada duplicada. Quando você tem onze anos, uma mesada duplicada corresponde quase a um apartamento. É claro que aceitei. Que tribunal no mundo me condenaria ?

Meu pai começou então a explicar como chegar lá, a partir da Avenida Brasil. Com um ar superior que só um idiota ou um irmão mais velho pode ter, ele afirmou que havia entendido perfeitamente o caminho. Mas ele não fazia a menor idéia. Eu o conhecia desde que tinha 36 horas de vida. Rodamos por toda a Baixada. Várias vezes. Ele não cedia. Preferia enfrentar um pelotão de fuzilamento do que pedir uma informação.

Três horas, oito voltas longas pela cidade e seis postos de gasolina depois, ainda estávamos perdidos. Aquela situação estava se prolongando de maneira insuportável. Atravessei o campo minado e perguntei: “Você está louco?”. Naturalmente a pergunta era retórica. Mas talvez ele estivesse mesmo. Já estava escurecendo. Por um breve instante, meu irmão e eu concordávamos em alguma coisa: voltar.

Não nos falamos ao voltar para casa, assim como não nos falamos desde que pegamos a Avenida Brasil. Mas talvez ouvíssemos um pouco mais o que dizíamos em silêncio. Provavelmente foram os momentos mais longos daquele ano. A medida em que íamos calados para casa, íamos pensando no absurdo da situação. Duas pessoas ligadas sem nada em comum. Naquela noite, a diferença entre 18 e 11 tinha ficado um pouco maior. Eu lutando para ser um homem e meu irmão vinte quilos mais forte do que eu. E quanto mais lutássemos contra isso, mais enlaçados ficávamos.

Eu entendi algumas coisas sobre ser irmão. Num dia, brigam até morrer. No outro, fazem algo juntos. Não precisaríamos ser melhores amigos ou coisa assim. Mas seríamos sempre irmãos.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Retorno irresistível ao passado


Não há quem não tenha imaginado o que aconteceria se pudéssemos retornar ao passado, ou melhor, a um determinado momento específico da nossa trajetória. Acho que é uma fantasia que todos nós já alimentamos, pelo menos, uma vez na vida.

Penso que se eu tivesse essa oportunidade, seria para alterar a história de maneira drástica. Corrigiria os erros. Evitaria os enganos que, no futuro, seriam minha fonte de remorso. Não cometeria atos que desencadearam sofrimentos. Fugiria dos amores fadados ao fracasso. Repararia injustiças.

Porém, algumas situações na vida são tão intensas, que mesmo que uma pessoa possa alterá-las, é muito difícil escapar de sua influência. Tragédias verdadeiras tendem a ser inevitáveis. O destino pode ser excessivamente cruel e arbitrário.

Sei que ficar aqui especulando ou imaginando o que poderia ter acontecido se tivéssemos feito diferente é uma saída fácil demais. Porém, é irresistível também.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Teotihuacan


Teotihuacan é a cidade dos deuses e também a cidade dos mortos, daqueles que passam a ser teutl, isto é, heróis divinizados. The place where men become gods.

As civilizações mexicanas tinham uma lenda, segundo a qual, uma primeira geração de homens havia sido destruída por terremotos (primeiro sol - Terra). A geração seguinte fora destruída por furacões e ventanias (segundo sol – Ar). Uma terceira por erupções vulcânicas (terceiro sol - Fogo). A quarta havia desaparecido com o dilúvio (quarto sol – Água). Estes sóis de cada uma das idades não eram como o sol que aquece e dá vida. Este último sol teria sido criado em Teotihuacan (quinto sol).

A expansão do império de Teothiuacan foi conseguida pelo uso sábio do comércio e da religião. Quando a cidade tornou-se grande e poderosa, as casas passaram a ser edifícios de pedra substituindo cabanas de madeira e palha. Não se conhece qual a causa da sua decadência e posterior destruição, mas acredita-se que seja por motivos climáticos ou fatores de ordem social.

Eu e Bela chegamos a Teothiucan, depois de dois inteiros conhecendo a Cuidad do México. O impacto é incendiário. Não há uma única pedra sobrando em Teotihuacan. Um espetáculo visualmente deslumbrante que merece ser admirado de maneira irrestrita. Lá estão as serenas Pirâmedes do Sol e da Lua, banhadas por uma luz dourada e difusa, lembrando que o conhecido e o inesperado se misturam. Difícil não perder o senso do real nesse realismo fantástico. Ficamos fascinados, perdidos na fronteira entre dois mundos. Estava feliz como nunca. Me sentia como um touro de rodeio. Não parava quieto.

Primeiramente, subimos, indômitos e sem muita prudência, os 45 metros da Pirâmede da Lua – ela encontra-se à mesma cota da Pirâmede do Sol, pois está construída em terreno mais elevado. O ânimo esquentou vários graus. Não temíamos nenhum perigo. Sentamos para contemplar o infinito como se víssemos alguma cena a se desenrolar. Mesmo com a paisagem empoeirada, o universo estava pacificado.

Logo depois, com a força redobrada e o espírito tuaregue, subimos os 65 metros da Pirâmede do Sol, a maior da cidade, orientada para o ponto exato onde o Sol se põe. No vértice superior existiu um templo. Pelo menos, foi o que nos disseram. Emoção estampada em nossos rostos. Sem meio termo possível. No percurso dessas idas e voltas, percebo o quanto o inebriante cruza-se com o improvável.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Adelante, el Mérrico !


O convite era fascinante. Feito com euforia e aceito com efusividade. Idéia perseguida há tempos. Idéia posta em prática de imediato: Uma viagem para o México. Principalmente para conhecermos Teotihuacan - a maior cidade conhecida pré-Colombiana na América e assim, a sede da civilização clássica no Vale do México – a 40km a noroeste da Cuidad do México.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Egito


Amarna é o nome árabe de uma localidade que funcionou como capital do Antigo Egito durante o reinado do faraó Akhenaton (Amenófis IV), sendo então designada como Akhetaton (horizonte de Aton). Está situada na margem oriental do rio Nilo, na província egípcia de El Minya.

O faraó decidiu fundar uma nova cidade que funcionasse como sede para o novo culto religioso, tendo escolhido uma região entre Mêmphis e Tebas, duas importantes cidades do Antigo Egito. Com a morte de Akhenaton, a cidade deixou de ser a capital.

O Egito é o passado que se abre à minha frente, deixando-me às cegas. Parece uma parábola de ressonâncias bíblicas cheia de segredos e mistérios, onde o que se vê não é o que parece e ninguém é o que se imagina. Tudo aquilo é bastante inverossímel, mas, afinal, onde no Egito não é.

Há uma atmosfera repressora que causa desconforto e aguça a sensibilidade. Uma curiosidade inesgotável, uma ameaça extra, uma inquietação a mais. Me sinto em equilíbrio perfeito sobre o fio da navalha, como se um barril de pólvora estivesse à espera de uma fagulha. O sol brilha alto. Na medida em que o dia avança, o calor aumenta.

Os egípcios, vestindo disfarces psicológicos em suas caras aborrecidas, são convincentes na atmosfera amedrontadora que criam. Rostos que dosam estados de espírito podem ser mais eloquentes em silêncio. Chego a suspeitar se eles não sentem um pavor dos ocidentais, cúmplices resignados. É como se todos nós, visionários, pressentíssimos o perigo e descobríssemos que esse perigo nasce do lado mais sombrio e perigoso de cada pessoa.

Na vida, há os que fazem o que querem e os que querem e não fazem. Fica a critério de saber quais se destruirão mais depressa.

No final da tarde, os trovões pontuam a paisagem elaborada anunciando a chuva que teima em não cair. Tem-se a impressão que algo ameaçador está prestes a acontecer.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Encontros


Reunir a sagrada quadrilha depois das férias não exigiu grande esforço de coordenação. Não é a primeira vez que nos reunimos esse ano. Nem há de ser a última. Em primeiro lugar, porque nos gostamos. Do companheirismo e provas de amizade às histórias meio sem pé nem cabeça, era inevitável que sentíssemos vontade de estar todos juntos de novo.

Meio brincando, meio a sério, os membros efetivos, numa demonstração de amizade entre pessoas que se sentem ligadas a um destino, fizeram a ata da reunião - o balanço desta colorida e movimentada odisséia mafiosa. Sem pompa nem glória.

Resultado: prevê-se daqui em diante, com pluviométrica generosidade, uma safra de substanciais encontros.

A conclusão pode ser contestável. Decidimos, então, lavrar o protesto em instâncias superiores.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Muito bacana


Minha mãe me contou que, quando eu era criança, eu disse que seria muito bacana entrar numa casa diferente, jantar com pessoas erradas por engano, dormir na cama errada por engano e dar beijo de despedida em todo mundo pela manhã, pensando que era sua própria família.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Memória


Estou revendo fotografias e recordando acontecimentos agradáveis e dignos de serem lembrados. Sei que minha memória pode falhar no meio de lacunas ou cenas de transição. Posso confundir as imagens sobre os personagens que habitam a minha memória. Com apenas uma exceção. Tenho total confiança nas minhas lembranças dele.

domingo, 20 de março de 2011

A imagem é tudo !


Qualquer garoto de 14 anos já sabe a grande verdade universal: a imagem é tudo !!! você é quem você aparenta. Aparência é algo que você constrói com esforço e cuidado planejado.

Meus amigos, todos de 14, queriam passar o Reveillon, no Clube Federal, no Leblon, um clube freqüentado pelos projetos de mauricinho da época. Bastava apenas que um dos pais fosse para se responsabilizar pelos demais. A mãe de um deles topou. Agora seria fácil. Só convencer os meus.

“Não!” foi a resposta que minha mãe me deu, alegando que eu era muito novo para esse tipo de festa. Levei meu caso a corte superior. Tudo tinha limites. Parecia que toda minha vida dependia de uma resposta do meu pai. “De jeito nenhum”, foi o que ele falou. “Miserável traidor”, pensei. Minha imagem estava em questão. Talvez eu tivesse fazendo um cavalo de batalha. Mas como dizer para os meus amigos que eu não poderia ir porque meus pais não deixaram. Minha natureza selvagem começou a se manifestar. Joguei sujo. Estava em desespero.

Quebrei a regra básica entre pais e filhos: NUNCA OS COMPARE A SEUS SEMELHANTES. Falei, na cara, que todos os outros pais deixaram. Pude ver a fúria dele.

Nessa hora vi a alegria do meu irmão sentado no sofá. Talvez isso fosse justiça. Uma espécie de vingança, por todas as vezes que eu ri do meu irmão, quando ele estava em encrenca. Aquele era o momento pelo qual ele esperou a vida toda.

Eu tinha que resolver a situação o mais rapidamente. Fiz o contrário: adiei o máximo possível. Eu precisava de tempo, tempo para dizer adeus a vida.

Foi nessa semana que pela aprendi que a vida é uma serie de voltas e reviravoltas.

Por uma pungente ironia, alguns amigos do meu pai decidiram passar o Ano Novo no Federal também. Parece que seus filhos, que eu nem conhecia, também haviam pedido o mesmo que eu.

Foi meu primeiro reveillon com meus amigos. Nem foi nada tão especial assim. Mas marcou minha independência. Agora eu estava por minha própria conta.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Pilha de queixas 14

J. é um adolescente abatido e assustado, de 16 anos, que sofre de crônica incomunicabilidade. Nas primeiras sessões, manteve um silêncio eloqüente. Expressão inalterável. Gestos econômicos. Ar de desamparo. Nenhuma inflexão do rosto. Um vazio exasperante.

J. não consegue enfrentar a vida com independência. Não demonstra seus sentimentos, não tem opiniões próprias e faz o possível para não ser notado em público. Opta por passar a vida em estado de completo sonambulismo. Chegou com um diagnóstico de “personalidade dissociada”, logo descartado por mim.

Mora com seus pais, que “vivem às turras, a base de insultos e pancadaria”, segundo ele mesmo. J. é submetido diariamente a um grosseiro antiquário de clichês melodramáticos. Depois de dois meses com poucos progressos, ele me perguntou; “Há sentido em continuar na terapia ?” Respondi: “Sim, há sentido de sobra”. Optei, então, por chamar seus pais para conversarmos todos juntos. J. se contentou em dar de ombros.

A sessão familiar foi um festival de excessos. P. (62 anos, advogado) e L. (54 anos, defensora pública) falam em demasia e dizem pouco. Trocam acusações mútuas e provocações ostensivas e, não raro, a um só tempo. Berram palavrões e, a rigor, não parece estar acontecendo nada. Os diálogos são quase indecifráveis, restando apenas vasto ruído. O que fazem parece caricatura debochada ou paródia feroz dos comportamentos que dizem combater. São logrados e estafantes, lembrando dois bufões animadores de mafuá, desses que vão se matando de maneira gratuita. O problema é que poderiam fazer tudo isso com dignidade. E sobretudo, mais depressa, para disfarçar o absurdo do que se passa. J. me olha com uma sensação de estar no meio do caos sem poder escapar, iniciando um ataque de sonolência, enquanto eu fico cada vez mais perplexo com o que vejo.

Pensa que acabou ? De jeito nenhum. O único prazer de L. parece ser irritar o parceiro, o que ela consegue num desfile de maus modos e com espetacular êxito. P. parece ser mais violento. As coisas pioram quando ele, para reforçar a atmosfera de pesadelo, decide resolver a situação com um par de murros, soco a soco, já que só consegue raciocinar com os punhos. L. vai se desguiando dos socos com a desenvoltura de quem está acostumada a esse comportamento. É de pasmar que J. consiga sobreviver nesse caldeirão fervilhante. Entendo agora ele não enxergar a saída para sua agonia, preferindo ficar mortificado em vida.

Diagnóstico: J. não consegue falar. P. e L. não conseguem ouvir. Todos convivem no mesmo espaço e parecem amaldiçoados por uma coexistência desastrosa.

A compreensão da dinâmica familiar foi essencial para o meu trabalho. Optei por um lento mover de peças num tabuleiro de xadrez. Consegui, numa sessão seguinte, convencer esses pais - de excelente poder aquisitivo - que seria bom se J. pudesse fazer um intercâmbio internacional para melhor socializar com o mundo, e assim, conseguir uma fórmula de comunicação. Surpreendentemente, eles me ouviram.

Nesse momento, J. se encontra num high school de uma escola em Ohio, Estados Unidos, finalizando seu ensino fundamental e tentando se comunicar em outra língua.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Casual


Uma união casual. Um encontro tímido de parte a parte quase passou desapercebido. Até ganhar escandaloso destaque e já se tornar lenda. Com uma boa dose de humor e outra de malícia, criou-se fantasia sobre fantasia. Talvez por isso nem mesmo a gente consiga explicar afinidade tão convincente.

terça-feira, 1 de março de 2011

Central Park


Voltei dos Estados Unidos na semana passada. Dois ou três dias depois, eu não me lembro bem, tive uma noite de sono atormentada por um sonho espetacular: o Central Park estava lotado e eu me encontrava com vários amigos, uma multidão de personagens que fui recolhendo em minhas andanças. Um reencontro com pessoas e idéias passadas, numa espécie de reciclagem sentimental de boas lembranças. Todo mundo estava achando maravilhoso estar lá para alguma finalidade. Era como se fossemos gravar um desses especiais de fim de ano ou alguma coisa assim.

Mas, no fim do sonho, todos desapareciam. Ao olhar pra trás, eu não via mais ninguém. Eu ficava lá, no Central Park, sozinho. Em paz com a vida, mas um tanto solitário. Nem sinal de que aquelas pessoas estiveram ali. Confesso que fiquei estarrecido, com o ar de bom moço distraído. E logo depois acordei – ou interrompi o sono, sei lá, a gente nunca sabe direito como essas coisas acontecem. Só sei que esse sonho parecia espantosamente verossímel. Ele palpitava, fascinava como coisa viva.

Como todos os sonhos, o meu certamente deve esconder significações que o transcendem. O problema consiste em diagnosticá-las corretamente.

Minhas fantasias noturnas correm cada vez mais ferozmente atrás de mim. Realidade e imaginação se fundem no meu universo. Difícil separar passado, presente e futuro.

Meu lado lírico diz que, no fundo, eu queria que todos os meus amigos estivessem comigo. Até mesmo os mais antigos, aqueles que não vejo há tanto tempo. Meu lado trágico questiona o porquê de todos irem embora sem se despedir. Fiquei com a impressão que faltava alguma imagem, alguma cena entre a gravação da mensagem e o meu ‘olhar pra trás’. Algo que não consigo me lembrar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Manhattan


Custou, mas aconteceu. Manhattan, New York City.

Passei exatamente dez anos sem ir a Nova Iorque. Nem sei bem porque. Talvez achasse que já havia ido o bastante. Uma desbotada desculpa. Mas é justamente aí, nessa intransponível certeza, que percebi que, de fato, havia me enganado.

E assim, quase por acidente, voltei a Manhattan, New York City. Tenho uma inclinação romântica por essa cidade. Sempre a imagino em preto-e-branco e ao som das músicas de George Gershwin ou Cole Porter (What is this thing called love). Assim, com meu melhor sorriso, voltei ao Upper East Side e ao Guggenheim. Voltei a Chelsea, Tribeca, Soho, Village e percebi o tamanho do meu inconveniente saudosismo. Voltei ao MOMA, sem dúvida, o melhor museu da ilha. Nada, no entanto, parece ser tão fascinante como o Central Park. Justificável emoção.

O Central Park é uma parada obrigatória para pensar. Principalmente nessa época do ano em que ele está todo branco, enquanto minha vida está atribulada de incertezas. Minha imaginação continua a desconhecer limites. Fechando os olhos, com o auxílio de um ipod, aciono cenas gravadas e arquivadas na minha memória. Passo a vida a limpo. Recupero projetos frustrados. Resgato amores antigos. Apresso novos sonhos. Afasto temores escondidos. Ameaço trilhar tantos caminhos que acabo passando por cima de todos eles.

Penso no ano que começa. Que até então, não ofereceu ainda nenhuma previsibilidade.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ponto de partida


Não foi exatamente o que se esperava. Mas quem esperava o que de mim ? Talvez tenha sido justamente o contrário. Como se esperava tudo de mim, tudo que aconteceu foi exatamente como se queria. Então, antes de mais nada, o destino se cumpriu. No final, nem eu nem ninguém tinha o direito de estar decepcionado. É onde se volta ao ponto de partida.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Previsibilidade


2011: Um ano que não fornece a menor previsibilidade.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Closer


Ontem revi “Closer” (2004) com Julia Roberts(Anna), Natalie Portman(Alice), Jude Law(Dan) e Clive Owen(Larry).

O filme traz a tragédia do amor, cheia de ciúme, desejo e traição. Trata-se de mentiras que contamos uns aos outros com muita convicção e ao mesmo tempo, com muita honestidade.

Dan cruza com Alice, recém-chegada dos Estados Unidos, no meio de uma rua de Londres. Amor à primeira vista. Mas, como diz o título, se acreditamos nesse amor instantâneo, nunca pararemos de olhar. E é isso que acontece. Passado uns meses, Dan conhece Anna numa sessão fotográfica e esse é o início de um trágico desmoronar de valores.

À semelhança do encontro de Dan e Alice, o de Anna e Larry, motivado por uma confusão de identidades, é também ele metafórico, no que diz respeito à ignorância e ao engano de que serão alvo, pelos outros e também pelos seus próprios sentimentos.

A verdade é constantemente evocada, e aparece muitas vezes sem nenhuma compaixão. A ironia é que nenhum deles é sincero. A não ser na sua infidelidade. Anna procura a verdade, mas adia-a repetidamente. Larry joga com os sentimentos dos outros para conseguir o que pretende: Anna. Dan exige a verdade, mas mostra-se ressentido quando a encontra. Alice, habituada à ilusão na sua profissão de stripper, parece ser a única que assume e luta pelo seu compromisso, fiel ao amor que sente.

Conseguimos ver a dor e o sofrimento de perto. Perto demais.



Os personagens não tem família, amigos, passado ou futuro. Parecem só existir em relação a cada um dos outros.

Closer” fala sobre pele. Afinal de contas, existe uma stripper e um dermatologista. A pele como proteção e como barreira. Quanto à nossa pele, essa fica a cargo da voz de Damien Rice, em The Blower’s Daughter, que ficou pelo menos um ano ecoando no meu ouvido. E acho que no ouvido de muita gente.

Porém, o melhor do filme é a virtude da imprevisibilidade. Como a vida. Como o amor. Nem um nem outro são isentos de dificuldades, de dores, de culpa. Quanto mais perto chegamos de alguém, maior a probabilidade de nos magoarmos.

Destaquei ainda algumas frases do filme, que considero sensacionais:

Have you ever seen a human heart? It is like a closed fist wrapped in blood.” CLIVE OWEN (Larry)

I don’t love you anymore, goodbye.” NATALIE PORTMAN (Alice)

I know who you are. I love you. I love everything about you that hurts.” CLIVE OWEN (Larry)

Where is this "love"? I can't see it, I can't touch it. I can't feel it. I can hear it. I can hear some words, but I can't do anything with your easy words.” NATALIE PORTMAN (Alice)

What's so great about the truth? Try lying for a change - it's the currency of the world.” JUDE LAW (Dan)

E, é claro, a música que ecoou no meu ouvido durante todo um ano.

The Blower's Daughter (Damien Rice)

And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky

I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...

And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial

I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...

Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?

I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'Til I find somebody new

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Fim da adolescência


Publiquei aqui no blog textos escritos quando eu tinha 17 anos. Um pungente retrato da minha adolescência. Uma época de descobertas, de despertar para a vida adulta, de amores irremediáveis, de sofrimento sem sentido. Procurava desesperadamente coisas que eu nem sabia e terminava por ver minhas ilusões se arruinarem.

Um ano longo, difuso e corrosivo, com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Estava atravessando uma fase difícil do tipo não-sei-bem-o-que-estou-fazendo-da-vida. Não conseguia me comunicar com o mundo. Por isso escrevia. Hoje lamento não ter guardado tudo. Muitas coisas, escritas em rascunhos de papel, se perderam. Outras tiveram seu fim na lixeira. Acabei registrando as que mais gostava. Não necessariamente as melhores.

As lembranças que agora vêm à tona são como um vulcão que se derrama para fora até se tornar rocha. Tenho personalidade forte. Mas tenho também uma emoção do mesmo tamanho.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Pilha de queixas 13

O engenheiro R. (46 anos) e sua mulher B. (38 anos) chegam para uma primeira sessão de terapia de casal. B. desfiou um rosário de queixas contra a desatenção conjugal de seu marido que, irônico, recostado na poltrona, nem chegou a protestar. Ele era o alvo das reclamações. Aproveitou a deixa e emendou com uma voz de trovoada: “Não tá feliz, vamos logo separar então”. R. é um cara ‘arretado’, uma figura agreste, um ‘bode bravo com raízes da caatinga do sertão’ em sua própria definição. Suas únicas preocupações são descobrir a melhor época para o plantio da soja ou como evitar moléstias em gado de corte. Para ele, o casamento é um tedioso compromisso que ele suporta "encharcado de álcool, graças às cavalares doses de uísque". B. confirma dizendo que o marido "bebe pesadíssimo antes de dormir e acorda de mau humor". Ele alega que a esposa "enche a paciência de qualquer um", enquanto procura uma posição mais confortável na poltrona.

Num direto processo de desconforto, onde a discussão come solta, R. causa visível mal-estar por provavelmente estar dizendo a sua verdade. B. diz que a brusca franqueza do marido “criou a sua fama de indesejável”.

R. não quer mudar. Quase tapa os ouvidos "diante de tais baboseiras" nesses intermináveis cinquenta minutos. Afirma que sempre foi assim. B. quer mudanças, isto é, ela quer que ele mude. Seria possível ? me pergunto. A que serve a terapia de casal, quando apenas um dos cônjuges está disposto a enfrentá-la ? Resposta simples e pragmática: nada. Só provoca um desgaste de energia desmedido. Tive que dar essa explicação. Ele ficou tranqüilo. Ela perguntou então se eu poderia ajudá-la num processo de separação. Agora sim. Posso trabalhar.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Folclore


O folclore que cerca Fabrizio – freqüentemente engordado pelas histórias contadas por seus amigos – alimenta o mito de que ele alcançou nos últimos anos uma singular intocabilidade. Mesmo assim, ele não se furta em dizer o que pretende, a seu modo e feitio, aos gritos ou sussuros, com fôlego para permanecer numa discussão horas a fio.

O que se diz de Fabrizio seria apenas isso – folclore – não fosse ele dono de uma luz própria. Acredito que ele carregue dentro de si um lampião.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sim, sim, sim


Hoje acordei com o refrão: “He walks away, the sun goes down, he takes the day but I’m grown, and in your way, in this blue shade, my tears dry on their own”. Adoro essa música. Tempos atrás, em caminhadas pela praia, ouvia direto “Tears dry on their own”. Depois, parei de ouvir...

O CD “Frank” foi um presente de aniversário. Em 2006, o ano em que conheci o som de Amy Winehouse. Tenho sorte de ter amigos que me iniciam musicalmente. Depois, faço minha própria trilha sonora.

Sempre gostei de “Just friends” com o “When will we get the time to be just friends ?” e no final: “I wanna touch you but that just hurts”. Dancei ao som de “Rehab” com o “They tried to make me go to rehab/ but I sais no, no, no”. Sim, sim, sim. Já sofri de reminiscências com “For you I was a flame/ Love is a losing game” para concluir que: “what a mess we made”.

Mas minha favorita mesmo é: “There is no greater love in all the world, it’s true/ No greater love than what I feel for you”. Ainda boto fé nisso.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Olhar para frente


Luciana tirou essa foto há alguns dias atrás em Ilha Grande. Todo ano tiro uma foto igual a essa. Como se eu obedecesse a uma superstição. Gosto da mensagem. É como se eu tivesse olhando para o que está por vir. Encarando o presente e o futuro. Num domínio de mim mesmo, começo minha campanha de otimismo à luz dos novos dias que chegam. Sempre incubido da vontade de levantar vôo.

Luciana também me alertou para o fato de que essa foto pode ser encarada como um olhar para trás. Um refúgio no passado. “Depende da perspectiva”, ela disse. Engraçado. Sempre pensei nessa foto como um olhar para frente.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Infalível receita


Finalmente está pronta a infalível receita para se conseguir realizar um reveillon perfeito. Reúne-se pessoas que se gostam e que querem muito estar juntas. Adiciona-se música, champanhe e a proximidade do mar. Mistura-se isso a uma profusão de beijos e abraços acalorados. Tudo isso numa noite, ardente em seus 35 graus, semelhante a muitas outras desse verão carioca.

Só falta agora confirmar que fica mais fácil viver quando a simplicidade ocupa os espaços com mais força que os compromissos.