quarta-feira, 18 de maio de 2011

Capricho do destino


Meu irmão e eu estávamos condenados, desde que nascemos. Por um capricho do destino, nossas histórias se cruzaram. Pro melhor e pro pior. O mais engraçado é que, durante muito tempo, nos divertíamos os dois juntos. Foi com o passar do tempo que então percebemos o horror do que estava acontecendo: nossa capacidade de negociação parou de funcionar. Não concordávamos a respeito de mais nada. Entramos em rota irreversivel de colisao. Nenhum de nós cedia - havia princípios em jogo. Foram traçadas as linhas da batalha. As palavras falharam. As negociações fracassaram. Iriam começar as hostilidades. Nem minha mãe, uma mediadora experiente, poderia transpor o abismo.

E no auge dessa constatação, quando meu irmão havia acabado de tirar sua carteira de motorista, meu pai solicitou que fossêmos no aniversário da filha de um funcionário de sua empresa. Na Baixada Fluminense.

Meu irmão, na fissura de pegar o carro do meu pai, aceitou o desafio. Eu fui subornado com uma mesada duplicada. Quando você tem onze anos, uma mesada duplicada corresponde quase a um apartamento. É claro que aceitei. Que tribunal no mundo me condenaria ?

Meu pai começou então a explicar como chegar lá, a partir da Avenida Brasil. Com um ar superior que só um idiota ou um irmão mais velho pode ter, ele afirmou que havia entendido perfeitamente o caminho. Mas ele não fazia a menor idéia. Eu o conhecia desde que tinha 36 horas de vida. Rodamos por toda a Baixada. Várias vezes. Ele não cedia. Preferia enfrentar um pelotão de fuzilamento do que pedir uma informação.

Três horas, oito voltas longas pela cidade e seis postos de gasolina depois, ainda estávamos perdidos. Aquela situação estava se prolongando de maneira insuportável. Atravessei o campo minado e perguntei: “Você está louco?”. Naturalmente a pergunta era retórica. Mas talvez ele estivesse mesmo. Já estava escurecendo. Por um breve instante, meu irmão e eu concordávamos em alguma coisa: voltar.

Não nos falamos ao voltar para casa, assim como não nos falamos desde que pegamos a Avenida Brasil. Mas talvez ouvíssemos um pouco mais o que dizíamos em silêncio. Provavelmente foram os momentos mais longos daquele ano. A medida em que íamos calados para casa, íamos pensando no absurdo da situação. Duas pessoas ligadas sem nada em comum. Naquela noite, a diferença entre 18 e 11 tinha ficado um pouco maior. Eu lutando para ser um homem e meu irmão vinte quilos mais forte do que eu. E quanto mais lutássemos contra isso, mais enlaçados ficávamos.

Eu entendi algumas coisas sobre ser irmão. Num dia, brigam até morrer. No outro, fazem algo juntos. Não precisaríamos ser melhores amigos ou coisa assim. Mas seríamos sempre irmãos.

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