domingo, 29 de maio de 2011

Ela e eu


Naquele momento, o que eu desejava mais que tudo era a liberdade de silêncio. E o poder do silêncio - para silenciar a todos que quisessem saber porque não éramos mais amigos ou não nos falávamos mais.

No começo, foi um tiroteio de perguntas, onde eu tentava responder de modo mais evasivo possível. Não queria discussões, ataques ou defesas, ou mesmo ser o alvo de nenhum tipo de curiosidade alheia. Quase agradecia de joelhos quando não me perguntavam nada sobre ela. Recusei-me a falar sobre a nossa separação, no intuito de não revolver a chaga ou abrir novas feridas.

Cinco anos depois, por um motivo que muitos conhecem, decido quebrar o silêncio. Digo a mim mesmo que isso só vai doer um minuto.

Tudo começou com uma desconfortável suspeita que ela me enganava. Sem embaraços nem constrangimentos. Senti o mau presságio, como se soubesse o que estaria por vir. Confirmei minhas premonições. Sua suposta lealdade foi posta à prova. Naquela madrugada, passou o diabo na minha cabeça. Meu cérebro fervilhou.

Ela não tinha nada de ingênua. Talvez tudo a respeito dela tenha me enganado. Acho que nunca soube mesmo quem ela era. Se alguém me perguntasse hoje como se escreve seu nome, não me sinto na liberdade de responder.

Segui de peito aberto, cabeça reta. Desanimado, escalando um telhado íngreme. Decidi engolir tudo quieto. Fiz voto de silêncio, cumprindo o dever moral de me calar sobre o assunto. Uma omissão propositada. Olhando o mar. Sempre o mar. Sem desentendimento, não há conflito, não há acerto de contas e, portanto, não há tragédia. Mas também não há mais nada.

Por dentro, me sentia num barco abandonado navegando um mar bem quente. Tudo isso ajudou a encerrar meu tom de vida acelerado, a militância boêmia e a época barulhenta dos superlativos. Dando início a dois anos de introspecção, de mais suavidade e de um casamento feliz.

Minha casa não era mais o epicentro da folia. Uma época agitada e embaçada mostrava sinais de estar no fim. Comecei a mudar o compasso. Hoje, tudo deixa claro que eu estava assinalando rupturas.

Nossa amizade não acabou simplesmente. Eu é que tive que acabar aos poucos com ela, antes que ela acabasse comigo. Primeiro, tornei-a semi-póstuma. Parecia estar morta, mas mesmo assim agonizava vivendo. No fundo, tinha minhas dúvidas sobre a validade legal destes procedimentos forçados. Enfraqueci o sentimento para deixar então que morresse de morte natural, quase às escondidas. Até que pudesse ser sepultada e sumisse por debaixo da terra. Como finalmente aconteceu. Custa a acreditar que ela pudesse ter ficado tão surpresa com o meu distanciamento, como depois fiquei sabendo.

Na verdade – e tenho de ser cauteloso ao afirmar isso - o afastamento foi oportuno. Ela percebeu o quanto seria difícil ressuscitar a inocência da minha confiança. Sabia que eu não havia de querer nem ouvir falar a respeito de toda aquela história. Tentou mostrar indiferença.

Nunca a indiferença de alguém me foi tão reconfortante. Lamentei algumas vezes não saber muito bem o que fazer a respeito. Sei que ela não calculou o prejuízo imprevisível. Gostaria de pensar que ela pudesse ter enlouquecido. Mas pra mim, pelo menos, foi um dano grave.

Poucas amizades foram tão fulminantes e nenhuma teve uma queda tão brusca quanto a nossa. Porém, o que foi doloroso e difícil de entender abriu caminho para uma guinada. E assim o destino se cumpriu: o trágico rompimento de duas pessoas que pareciam se gostar. Ela cortada pela culpa. Eu atrofiado pela tristeza.

Tinha gente que duvidava que eu pudesse renascer assim tão confiante depois de tudo. Mas estive aí esse tempo todo pra quem quisesse conferir.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tempestade


Neste momento, então, a vida é uma tempestade que machuca, molha, mas passa.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Capricho do destino


Meu irmão e eu estávamos condenados, desde que nascemos. Por um capricho do destino, nossas histórias se cruzaram. Pro melhor e pro pior. O mais engraçado é que, durante muito tempo, nos divertíamos os dois juntos. Foi com o passar do tempo que então percebemos o horror do que estava acontecendo: nossa capacidade de negociação parou de funcionar. Não concordávamos a respeito de mais nada. Entramos em rota irreversivel de colisao. Nenhum de nós cedia - havia princípios em jogo. Foram traçadas as linhas da batalha. As palavras falharam. As negociações fracassaram. Iriam começar as hostilidades. Nem minha mãe, uma mediadora experiente, poderia transpor o abismo.

E no auge dessa constatação, quando meu irmão havia acabado de tirar sua carteira de motorista, meu pai solicitou que fossêmos no aniversário da filha de um funcionário de sua empresa. Na Baixada Fluminense.

Meu irmão, na fissura de pegar o carro do meu pai, aceitou o desafio. Eu fui subornado com uma mesada duplicada. Quando você tem onze anos, uma mesada duplicada corresponde quase a um apartamento. É claro que aceitei. Que tribunal no mundo me condenaria ?

Meu pai começou então a explicar como chegar lá, a partir da Avenida Brasil. Com um ar superior que só um idiota ou um irmão mais velho pode ter, ele afirmou que havia entendido perfeitamente o caminho. Mas ele não fazia a menor idéia. Eu o conhecia desde que tinha 36 horas de vida. Rodamos por toda a Baixada. Várias vezes. Ele não cedia. Preferia enfrentar um pelotão de fuzilamento do que pedir uma informação.

Três horas, oito voltas longas pela cidade e seis postos de gasolina depois, ainda estávamos perdidos. Aquela situação estava se prolongando de maneira insuportável. Atravessei o campo minado e perguntei: “Você está louco?”. Naturalmente a pergunta era retórica. Mas talvez ele estivesse mesmo. Já estava escurecendo. Por um breve instante, meu irmão e eu concordávamos em alguma coisa: voltar.

Não nos falamos ao voltar para casa, assim como não nos falamos desde que pegamos a Avenida Brasil. Mas talvez ouvíssemos um pouco mais o que dizíamos em silêncio. Provavelmente foram os momentos mais longos daquele ano. A medida em que íamos calados para casa, íamos pensando no absurdo da situação. Duas pessoas ligadas sem nada em comum. Naquela noite, a diferença entre 18 e 11 tinha ficado um pouco maior. Eu lutando para ser um homem e meu irmão vinte quilos mais forte do que eu. E quanto mais lutássemos contra isso, mais enlaçados ficávamos.

Eu entendi algumas coisas sobre ser irmão. Num dia, brigam até morrer. No outro, fazem algo juntos. Não precisaríamos ser melhores amigos ou coisa assim. Mas seríamos sempre irmãos.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Retorno irresistível ao passado


Não há quem não tenha imaginado o que aconteceria se pudéssemos retornar ao passado, ou melhor, a um determinado momento específico da nossa trajetória. Acho que é uma fantasia que todos nós já alimentamos, pelo menos, uma vez na vida.

Penso que se eu tivesse essa oportunidade, seria para alterar a história de maneira drástica. Corrigiria os erros. Evitaria os enganos que, no futuro, seriam minha fonte de remorso. Não cometeria atos que desencadearam sofrimentos. Fugiria dos amores fadados ao fracasso. Repararia injustiças.

Porém, algumas situações na vida são tão intensas, que mesmo que uma pessoa possa alterá-las, é muito difícil escapar de sua influência. Tragédias verdadeiras tendem a ser inevitáveis. O destino pode ser excessivamente cruel e arbitrário.

Sei que ficar aqui especulando ou imaginando o que poderia ter acontecido se tivéssemos feito diferente é uma saída fácil demais. Porém, é irresistível também.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Teotihuacan


Teotihuacan é a cidade dos deuses e também a cidade dos mortos, daqueles que passam a ser teutl, isto é, heróis divinizados. The place where men become gods.

As civilizações mexicanas tinham uma lenda, segundo a qual, uma primeira geração de homens havia sido destruída por terremotos (primeiro sol - Terra). A geração seguinte fora destruída por furacões e ventanias (segundo sol – Ar). Uma terceira por erupções vulcânicas (terceiro sol - Fogo). A quarta havia desaparecido com o dilúvio (quarto sol – Água). Estes sóis de cada uma das idades não eram como o sol que aquece e dá vida. Este último sol teria sido criado em Teotihuacan (quinto sol).

A expansão do império de Teothiuacan foi conseguida pelo uso sábio do comércio e da religião. Quando a cidade tornou-se grande e poderosa, as casas passaram a ser edifícios de pedra substituindo cabanas de madeira e palha. Não se conhece qual a causa da sua decadência e posterior destruição, mas acredita-se que seja por motivos climáticos ou fatores de ordem social.

Eu e Bela chegamos a Teothiucan, depois de dois inteiros conhecendo a Cuidad do México. O impacto é incendiário. Não há uma única pedra sobrando em Teotihuacan. Um espetáculo visualmente deslumbrante que merece ser admirado de maneira irrestrita. Lá estão as serenas Pirâmedes do Sol e da Lua, banhadas por uma luz dourada e difusa, lembrando que o conhecido e o inesperado se misturam. Difícil não perder o senso do real nesse realismo fantástico. Ficamos fascinados, perdidos na fronteira entre dois mundos. Estava feliz como nunca. Me sentia como um touro de rodeio. Não parava quieto.

Primeiramente, subimos, indômitos e sem muita prudência, os 45 metros da Pirâmede da Lua – ela encontra-se à mesma cota da Pirâmede do Sol, pois está construída em terreno mais elevado. O ânimo esquentou vários graus. Não temíamos nenhum perigo. Sentamos para contemplar o infinito como se víssemos alguma cena a se desenrolar. Mesmo com a paisagem empoeirada, o universo estava pacificado.

Logo depois, com a força redobrada e o espírito tuaregue, subimos os 65 metros da Pirâmede do Sol, a maior da cidade, orientada para o ponto exato onde o Sol se põe. No vértice superior existiu um templo. Pelo menos, foi o que nos disseram. Emoção estampada em nossos rostos. Sem meio termo possível. No percurso dessas idas e voltas, percebo o quanto o inebriante cruza-se com o improvável.