
Naquele momento, o que eu desejava mais que tudo era a liberdade de silêncio. E o poder do silêncio - para silenciar a todos que quisessem saber porque não éramos mais amigos ou não nos falávamos mais.
No começo, foi um tiroteio de perguntas, onde eu tentava responder de modo mais evasivo possível. Não queria discussões, ataques ou defesas, ou mesmo ser o alvo de nenhum tipo de curiosidade alheia. Quase agradecia de joelhos quando não me perguntavam nada sobre ela. Recusei-me a falar sobre a nossa separação, no intuito de não revolver a chaga ou abrir novas feridas.
Cinco anos depois, por um motivo que muitos conhecem, decido quebrar o silêncio. Digo a mim mesmo que isso só vai doer um minuto.
Tudo começou com uma desconfortável suspeita que ela me enganava. Sem embaraços nem constrangimentos. Senti o mau presságio, como se soubesse o que estaria por vir. Confirmei minhas premonições. Sua suposta lealdade foi posta à prova. Naquela madrugada, passou o diabo na minha cabeça. Meu cérebro fervilhou.
Ela não tinha nada de ingênua. Talvez tudo a respeito dela tenha me enganado. Acho que nunca soube mesmo quem ela era. Se alguém me perguntasse hoje como se escreve seu nome, não me sinto na liberdade de responder.
Segui de peito aberto, cabeça reta. Desanimado, escalando um telhado íngreme. Decidi engolir tudo quieto. Fiz voto de silêncio, cumprindo o dever moral de me calar sobre o assunto. Uma omissão propositada. Olhando o mar. Sempre o mar. Sem desentendimento, não há conflito, não há acerto de contas e, portanto, não há tragédia. Mas também não há mais nada.
Por dentro, me sentia num barco abandonado navegando um mar bem quente. Tudo isso ajudou a encerrar meu tom de vida acelerado, a militância boêmia e a época barulhenta dos superlativos. Dando início a dois anos de introspecção, de mais suavidade e de um casamento feliz.
Minha casa não era mais o epicentro da folia. Uma época agitada e embaçada mostrava sinais de estar no fim. Comecei a mudar o compasso. Hoje, tudo deixa claro que eu estava assinalando rupturas.
Nossa amizade não acabou simplesmente. Eu é que tive que acabar aos poucos com ela, antes que ela acabasse comigo. Primeiro, tornei-a semi-póstuma. Parecia estar morta, mas mesmo assim agonizava vivendo. No fundo, tinha minhas dúvidas sobre a validade legal destes procedimentos forçados. Enfraqueci o sentimento para deixar então que morresse de morte natural, quase às escondidas. Até que pudesse ser sepultada e sumisse por debaixo da terra. Como finalmente aconteceu. Custa a acreditar que ela pudesse ter ficado tão surpresa com o meu distanciamento, como depois fiquei sabendo.
Na verdade – e tenho de ser cauteloso ao afirmar isso - o afastamento foi oportuno. Ela percebeu o quanto seria difícil ressuscitar a inocência da minha confiança. Sabia que eu não havia de querer nem ouvir falar a respeito de toda aquela história. Tentou mostrar indiferença.
Nunca a indiferença de alguém me foi tão reconfortante. Lamentei algumas vezes não saber muito bem o que fazer a respeito. Sei que ela não calculou o prejuízo imprevisível. Gostaria de pensar que ela pudesse ter enlouquecido. Mas pra mim, pelo menos, foi um dano grave.
Poucas amizades foram tão fulminantes e nenhuma teve uma queda tão brusca quanto a nossa. Porém, o que foi doloroso e difícil de entender abriu caminho para uma guinada. E assim o destino se cumpriu: o trágico rompimento de duas pessoas que pareciam se gostar. Ela cortada pela culpa. Eu atrofiado pela tristeza.
Tinha gente que duvidava que eu pudesse renascer assim tão confiante depois de tudo. Mas estive aí esse tempo todo pra quem quisesse conferir.


