segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Matchu Pitchu


Depois de escrever sobre Tai, não tenho muita escolha. Retorno a Matchu Pitchu. Foi com a força mítica daquelas terras que tudo realmente começou. Antes, apenas um prólogo.

Algumas viagens são fabulosas, porque tudo é simplesmente fabuloso ! Essa foi bem além. 15 dias em terras peruanas. Na chegada a Cuszco, nosso primeiro almoço foi regado a Pisco - uma aguardente destilada de uvas moscatel com elevado teor de açúcar, cultivadas nos vales irrigados do Peru. O fato é que nunca tinha tomado essa bebida. Nem ela. Fiquei tonto. Muito. Somado a altitude de Cuszco – 3360m acima do nível do mar - minha cabeça rodava, rodava, rodava... Ela ficou ótima ! Queria mais... bem, essa é a Tai.

Percorremos as ruas íngremes e os becos da cidade com suas construções antiqüíssimas. O importante em Cuzsco é não ter pressa. Andar devagar, ”despacito”. Exercícios físicos, nem pensar.

Matchu Picchu ou “la ciudad perdida de los Incas” é um mistério que foi descoberto para o ocidente em 1911. 20 hectáres divididos em dois setores: um agrícola, com ladeiras e montanhas que alcançam até 4 metros de altura e um urbano, formado por construções e praças, onde encontramos o Templo do Sol e o Templo das Três Janelas. Os incas foram hábeis construtores. Aprendi que eles também estudavam as estrelas e faziam cirurgias. Depois de uma bem sucedida temporada no Egito, andar por aquelas terras era uma verdadeira reverência aos deuses. Quem esteve lá sabe do que estou falando...



O lago Titicaca é um capítulo à parte. Espero retornar em breve pra falar sobre ele. E sobre Tai novamente. Essas memórias ainda se misturam dentro de mim

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tai


Conhecer a Tai foi um daqueles golpes de sorte que acontecem duas ou três vezes na vida. Basta dizer que foi com essa menina travessa e dengosa que fui pra Matchu Pichu. Passamos 15 dias no ‘El Glorioso Peru’, numa viagem irreverente, cheia de imprevistos e momentos hilariantes, e mais que tudo isso, inesquecível. Juntos, colocamos nosso senso de humor a toda prova. Dormimos em todos os lugares possíveis: no chão do aeroporto, num ônibus sem calefação, na casa de nativos, sob enganoso desleixo. Isso com nossa história se estabelecendo numa base sólida.

Tai é a força carismática que mistura eletricidade e graça em doses bem medidas. Guarda dentro de si uma dignidade a toda prova. Dona de um coração sofisticado e popular, ela está sempre louvando a harmonia. Nasceu sob o signo da publicidade. Desconfio que seu ascendente está na casa da unanimidade.

Sinto me intensamente grato a ela. Tai me apresentou a tantos e tantos amigos que, com a ironia das casualidades só encontradas em bons enredos, me elegeram grão mestre de uma adorável quadrilha.

Ela diz que sou um “ladrão de corações”, mas foi ela quem roubou o meu primeiro. Nunca me devolveu. E ainda me faz refém do seu charme.

Hoje é seu aniversário. O tapete vermelho está estendido.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os amigos do Fábio


Ontem foi o primeiro dia sem Fabio. Um dia difícil. Chuvoso. Minha rotina diária ficou desconfortável.

Recebi telefonemas, torpedos e emails de apoio e carinho, todos carregados com uma dose gigante de amor. Mas estou prestes a confessar: estou muito orgulhoso do Fábio. É lisonjeante saber que ele apaixonou tantos corações. Sua rede social de amigos era intensa.

Luisa, que jogava-se – literalmente – no chão quando o via, escreveu: “Fabinho nos trouxe muitas alegrias, estará sempre em nossos corações.”

Tai lembra que “ele sempre esteve com a gente nos momentos mais divertidos da nossa amizade” e continua: “Fabio é lindo...e sempre será muito querido por todos que te cercam. Fico um pouco aliviada que ele estava ao seu lado. Com certeza não sofreu, pois estava com quem mais amava nesse mundo”.

Segundo Déborahnão tinha nada no Fábio que não fosse adorável. Sempre ali, com certeza curtindo com a gente. Ontem fui lembrando de cada evento em que ele por muitas vezes foi o centro das atenções...carinhoso, calmo, guloso... vamos nos lembrar sempre de sua loirice elegante. E muito dessa presença cativante ele herdou do pai =)”. Essa eu adorei !!! Sempre fui um pai coruja. Adorava ouvir que o Fábio parecia-se comigo.

Cris acredita que “Fabio com certeza está no paraíso dos cachorros bons onde existem nuvens de biscrock”.

Babi diz que “realmente, ele se foi rápido e leve. Sem estardalhaço. No auge da beleza e da boa forma (assim sempre me pareceu), com toda a elegância. Bem-educado como ele só... Impressionante, e bonito, como cada um tem seu estilo, e seu destino” e propõe "um brinde. Uma silenciosa reza alegre, relembrando todos os bons momentos proporcionados e divididos. Por todos nós, todos que o conheceram o mascote dos encontros na sua casa, mas principalmente aquelas felicidades que ele trouxe pra você e pra sua vida, e que nem tem como sabermos quantas foram", Lindo, Babi, lindo !!!

E foram tantas manifestações fabulosas, Rodrigo, Rose, Luciana, Dani, Bernardo, Carol, Bela, Márcia, Letícia, Olívia, Jaqueline, Leandro, meu pai, minha mãe, os porteiros do meu prédio, o quarteirão inteiro da rua... uau, estou começando a me emocionar novamente.

Vou terminar com o torpedo de Fabrizio: “Nunca esqueça que o amor que você sente pelo Fábio fez dele um filho muito amado e amoroso. Esse amor é de vocês e pra sempre, onde ele estiver ele vai estar olhando por você, te amando e esperando”.

Acho que fiz um bom trabalho !!!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Fábio


Fábio partiu ontem a tarde, às 15hs 30min. Suavemente.

A partir de uma pequena cirurgia, apresentou um diagnóstico ruim. Decidimos então iniciar uma quimioterapia. Ele não gostou muito dessa idéia.

Fábio nunca teve uma gripe. Era a imagem de saúde e entusiasmo. Sempre animado em descobrir como seria o seu dia. Quem teve o privilégio de conviver com ele, sabe do que estou falando. Sua generosidade era tamanha. Aceitou todas as minhas escolhas, amizades e namoros, com um sincero ar de aprovação, oferecendo todos os seus brinquedinhos.

Viveu de acordo com o que ele tinha de melhor. Fábio era um duque. Independente. Deitava-se na porta do cafeína, sendo capaz de contemplar o movimento por horas. Só levantava-se caso alguma fêmea simpática se engraçasse para o seu lado.

Meus amigos não param de ligar e mandar torpedos. Obrigado pelo carinho de todos vocês. Estou em paz. Triste. Mas em paz. Fábio sofreu menos de um dia. Márcia disse que “Fábio decidiu não abrir mão da vida que estava acostumado a levar”. Márcia é um oráculo. Acho que ela acertou novamente.

A suavidade de sua partida ainda me deixa impressionado. Vou ficar bem. Por ele. Por todo amor que ele me deu. Por tudo que ele me ensinou. As horas passadas na sua companhia foram as mais importantes da minha vida.

Suas cinzas serão jogadas num fim de tarde na Praia do Leblon.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ibitipoca


Nossa trilogia começa em Ibitipoca, MG. Nenhum de nós conhecia o parque estadual de Ibitipoca. Montamos o grupo coeso e completo, a mais legítima trinca. Intitulavamos happy three friends, denunciando o estado que encontrávamos em nossa primeira road trip juntos.

No primeiro dia: circuito janela do céu. Enquanto subíamos, trocávamos olhares, não de saudação, mas sim de reconhecimento. Uma espécie de consulta com os olhos somente, sem sinal visível de que uma decisão estivesse para ser tomada.

De vez em quando, olhávamos de alto a baixo, tirávamos fotos, entravamos nas grutas, trocávamos expressões de prazer e contentamento em compartilhar a companhia dos outros. A nossa companhia.

Isabela tomava sempre a dianteira, quase com felicidade, avançando com energia e decisão. Tornava-se ali uma guia escoteira. Atrás geralmente estava eu. Luísa vinha na rabeira.



Isabela fez sinal para que nos aproximássemos e víssemos o que tinha encontrado. Faz com que eu apressasse o passo e atravessasse o resto da mata correndo. A janela do céu. Nenhum pensamento que nos pressionasse, exceto a fome, saciada apenas com duas barras de cereais. Nos divertíamos, subindo as montanhas, nadando na cachoeira e contemplando o céu entre longos silêncios bem valorizados.

No segundo dia: circuito das águas. Nos banhamos nas águas frias da cachoeira dos macacos, passamos pelo lago das miragens e o lago dos espelhos.

Nossa crença está aí. Na aliança, no motim. A primeira parte da trilogia estava cumprida.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Paraty e Trindade


Isabela e Luisa nunca tinham ido a Paraty. Nem a Trindade. Achei que seria uma boa idéia levá-las. Assim completaríamos a trilogia de 2009.

Os sinais apontavam para não irmos. Desde quarta chovia sem cessar no Rio de Janeiro. Esse era um fato, porém, do qual eu não queria realmente me dar conta. Assim, decidi tapar as orelhas e anestesiar uma parte do meu cérebro. Meu pai chegou a me questionar se eu viajaria mesmo, o que não era uma pergunta totalmente fora de propósito.

Sexta, confesso, cheguei a desanimar. Mas fomos assim mesmo, a legítima trinca e a múltipla variedade de características pessoais que começam a influir sobre cada um de nós mesmos.

Tomados de entusiasmo, torcíamos para não sermos pegos de surpresa por uma tempestade ou um tufão. Nossa road trip com chuva.

Nosso primeiro dia foi em Paraty. Fim da tarde: Trindade. Eis que no dia seguinte o inesperado acontece: o sol surge. O mesmo sol que havia nos guiado em Minas, acabou nos levando a trilhas, cachoeiras e praias de Trindade.

Nossa crença está aí. Mergulhamos na água doce e na água salgada. Presumo que estamos felizes.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Antes de dormir


Examino meu rosto no espelho. Sombrancelhas grossas e escuras. Olhos castanhos. Nariz. Boca. Muito bem, não falta nada.

Cabelo limpo e, por fim, decentemente cortado.

Faço um sorriso bobo, forçado. Mais um ponto a meu favor: dentes bons e certos.

A pele, boa. Atravessei toda a adolescência sem uma espinha, o que intrigava meu pai e aborrecia meu irmão, já que ele comia a mesma quantidade de chocolates que eu.

Deito-me na cama. As mãos acima da cabeça, olhando pro teto. Posso pensar bem de mim mesmo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Essência emocional


Algumas pessoas perguntaram sobre os últimas postagens, sem entender muito o que estava se passando comigo. “Achei os textos tão fortes que nem quis comentar nada lá...” me fala uma amiga. Um outro diz que “tem uma carga densa” e que “eu passo a emoção de forma bruta”.

Preciso explicar então. Esses textos não foram escritos recentemente. Escrevi quando tinha 17 anos. Aliás o "Menos intensidade" e "O mesmo de sempre" postados em julho são da mesma época. Nunca os publiquei, e estou fazendo isso pela primeira vez.

Perdi muitas coisas – livros, fotos, álbuns, CDs – nas diversas mudanças de casa nesses anos todos. Porém, esse caderno nunca se afastou de mim... Gosto de me ler aos 17, ler essa versão antiga de mim mesmo. Abrindo a cortina do passado, entro em contato com minha essência emocional, meus desabafos sinceros. Todos pertencentes a uma esfera de sentimentos mais íntimos.

Reler e postar esses textos é como se o adolescente que mora ainda em mim começasse a (re)escrever os seus próprios textos.

sábado, 3 de outubro de 2009

Adolescência 6 - Nunca mais


De novo, acordado. Nunca mais, nunca mais.

Exausto. De olhos inchados. Olho para as mãos, para as unhas, de novo roídas. Não me lembro de tê-las roído.

O coração bate. Lento e cheio. No mesmo ritmo da horrível dor de cabeça que desponta bem atrás dos olhos.

Uma outra idéia vêm a cabeça. Ameaça-me. Tento expulsá-la. Não é agradável.

De frente pra minha casa, olho a janela do meu quarto. De manhã cedo, o quarto é meu inimigo. Há perigo pelo simples fato de estar acordado.

Mas agora, olhando a janela, parece-me um refúgio. Imagino-me dentro dele. Na cama, a salvo, com as cobertas puxadas até a cabeça.

Dormindo... Inconsciente... A idéia persegue-me... vem à tona.

O que está errado é agora visível, preocupante. Há motivo para preocupação, conforme suspeitava.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Adolescência 5 - Boca seca


Acordo outra vez com a boca seca. Durante alguns segundos terríveis não sei se está de novo acontecendo... ou pior ainda, se o tempo andou pra trás e ainda está acontecendo.

Não adianta! Não adianta pensar naquilo. Em nada vai mudar. O que está feito, está feito.

Ordeno a minha mente que me deixe em paz.

Que me deixe mergulhar num sono sem pesadelos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Adolescência 4 - O eco do meu grito


Acordo. Pareço ouvir o eco do meu grito dentro da cabeça.

Será que gritei alto ?

Fico a escuta de algum barulho, de alguém pulando da cama e correndo pelo corredor em direção ao meu quarto. Nada. O sangue pulsa nas veias. Primeiro quente. Depois frio. O coração bate dolorosamente.

Sento-me na cama. Acendo a luz lentamente, muito lentamente.

Nenhum movimento rápido. Tenho a impressão de que se fizer algum movimento mais violento, me espatifarei em um milhão de pedaços.