quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dois anos depois


O blog tem revelado um caminho novo para mim. Busco sempre o novo e a transformação. Esse espaço me trouxe a vontade de criar. Uma espécie de perfil de mim mesmo e da minha galeria de honra. Minha platéia agora é um grupo de amigos que se procura agradar, num pódio quase particular. Isso tem me alegrado muito. Com ele, há troca. Um bate-e-volta. Um entrosamento.

A passagem do tempo está impressa post a post. Uma profusão de fotos me leva a uma viagem fotográfica desde as minhas origens até os dias de hoje. Assumo todos os meus lados. Estou inteiro no blog, como talvez nunca tenha estado em outras coisas que escrevi. Combinando maturidade e afeto, o binômio dessa minha fase. É bom lembrar que maturidade é sempre uma das melhores conquistas na vida.

Sei que o blog tem personagens em excesso, que aparecem e somem sem maiores explicações, ao acaso de situações desligadas entre si. Nunca se sabe muito bem por quais regras os personagens se comportam. Mas não se deve buscar também uma história linear, com começo, meio e fim. Apenas acompanhar a forma afetiva com que eu retrato a convivência dos meus personagens entre eles ou mesmo comigo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Pilha de queixas 15

B. (38 anos) é um modelo de virtude religiosa e retidão moral. Um colosso de bons sentimentos. Possui, ninguém duvida, um coração de ouro.

Na primeira entrevista, foi capaz de citar mansamente a Bíblia e as sagradas escrituras, numa evangélica oratória, demonstrando preocupação “com a glória nas alturas e a tentação do demônio”. Tem confiança “no poder da redenção, nos valores da decência” e a convicção de que “a graça divina triunfará sobre os descaminhos do vício”. Pretende borrifar litros de água benta sobre tantos sacrilégios, acreditando assim que será levada para o reino dos bem-aventurados. Ela é quase sempre uma pastoral.

Quando pergunto sobre hobbies, ela diz que lê “sobre a vida dos santos” e se penitencia pelos pecados que ainda não cometeu. Quando pergunto sobre relacionamentos amorosos, diz que “resiste aos apelos frenéticos da carne”. Deve acreditar que o sexo é algo que só pode ser praticado por desajustados. Como se não bastasse tanta santificação e sem perder de vista o apocalipse, ela apega-se a uma profusão de símbolos cristãos com o fervor de uma carmelita sempre que se sente atraída por alguém.

Mas quem se importa ? Os outros acham-na tão intolerável que nem sequer ousam retribuir-lhe um bom dia. Nada há de errado com ela, a não ser o fato dela ser absolutamente chata devido ao seu inabalável credo religioso. Trilha o caminho certo para doses inigualáveis de chatice, como dar conselhos e sermões moralistas que ninguém ouve se puder evitar. Assunto, naturalmente, não lhe falta. Mas os ouvintes vêem nela um castelo de preceitos morais.

Ela diz que gostaria de se analisar, para “fazer mais amizades”. O mundo de B. já está pronto e escrito nas páginas da Bíblia. Como sugerir que ela abdique de tudo que acredita fervorosamente para abrir as portas para um outro mundo ?

domingo, 5 de junho de 2011

Purgatório


Aquele foi seu ano de purgatório. Durante esses tempo, insuspeitamente discreta e laboriosamente comedida, ela procurou afugentar todos os diabólicos mal-entendidos que, no passado, marcaram as passagens de sua vida. Controlou seu temperamento. Ponderou palavras e opiniões. Silenciou gestos e expressões. Não deu um passo em falso. Resistiu enquanto pôde no coração das trevas.

Submeteu-se a uma bateria de conselhos e sugestões. Mesmo quando os seus mentores marchavam contra as idéias que fervilhavam em sua cabeça para completar essa árdua jornada de penitência, guardadas todas as devidas proporções de tempo e espaço.

Não se pode pretender, porém, que os recém purificados se tornem imediatamente felizes e espontâneos. Todo paraíso tem a sua serpente. A maçã que traz para sua mordida é o passado. Ela tem uma imagem a confirmar e outra a desmentir. Quer se livrar dos arranhões a sua reputação. Não seguiu completamente a lição. Mas sinceramente reconheceu seu engano. O tempo passou e o pesadelo foi esquecido. O mal foi castigado.