domingo, 29 de novembro de 2009

Sakara


A Pirâmede de Djoser, primeira pirâmede construída no Egito, é o mais antigo monumento do mundo.

Ela foi escanalonada e construída em 2650 a. C. para o Faraó Djoser pelo arquiteto real Imhotep. Sua genialidade foi ter iniciado a construção de uma mastaba (estrutura de sepultura) não com tijolos de barro, mas com pedras, tendo acrescentado muitas outras depois, formando a pirâmede em degraus. Não à toa, ele foi mais tarde elevado à categoria de deus.

A Pirâmede de Djoser faz parte do enorme complexo funerário de Sakara, a 30km do Cairo. Sakara é mais antiga que as pirâmedes de Giza e está entre as ruínas mais antigas que podem ser encontradas no Egito. Funcionou como necrópole da cidade de Mêmphis.

O nome Sakara deriva de Sokar, nome de um deus da mitologia egípcia considerado como protetor da necrópole. Os deuses Sokar, Ptah e Nefertum formavam a tríade de Mêmphis.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Adolescência 10 - Círculos


De novo. Acabo bebendo muito. Desta vez não por tédio. Por medo.

Por tudo que está acontecendo. Que eu não quero ver. E não vejo mesmo. Principalmente quando estou alto e me sentindo bem.

Sem falar. Sem olhar um para o outro. O silêncio entre nós longe de ser vazio. Cheio de palavras não trocadas. Dessa noite. De antes dessa noite. De quando ? Não sei. E tenho certeza que ninguém sabe.

Farto de ruminação. Cansado de aguardar.

Nada é falado. Nada é decidido.

Tudo são círculos. E mais círculos...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Lago Titicaca


O Lago Titicaca foi o berço da civilização Inca. Localizado a 3.811 metros acima do nível do mar, na fronteira entre o Peru e a Bolívia, é o lago navegável mais alto do mundo. Pelo menos, foi o que Tai e eu aprendemos quando chegamos a Puno, a principal porta de entrada para o Titicaca.

Navegamos então pelas suas águas em direção a uma das mais antigas civilizações da América, a ilha flutuante de Uros, o lugar ideal para se exilar alguém. De lá, fomos para a Ilha de Taquile, onde pernoitamos na casa de nativos. No dia seguinte, fomos em direção da Ilha de Amantani, onde percorremos os lugares mais estranhos e inimagináveis.

A foto é, sem dúvida, uma das minhas preferidas. Uma foto irretocável. Desde que Tai apareceu definitivamente na minha vida, não consigo pensar em ninguém mais como ela, para captar imagens. Nessa, sua câmera absorve toda a sensação de horizonte aberto que estávamos sentindo.



As possibilidades pareciam infinitas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Adolescência 9 - Amanheceu


Amanheceu. Acontecimento inesperado ? Surpresa ao constatar um novo dia ?

Hesito algum tempo antes de levantar. O estômago se contrai. Mãos entrelaçadas na nuca aumentam o diâmetro do meu peito.

Contemplo os pés. Meus próprios pés.

Olhos ardendo. Joelhos para cima. Roupas espalhadas: camisa na cadeira, calças no chão.

Vendo a chuva escorrer pela vidraça do quarto. Me sinto abandonado num dia triste e frio.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Aiuruoca


Ainda fascinados com a experiência anterior, a segunda parte da trilogia seria então em Aiuruoca, MG. Foi no parque estadual de Ibitipoca, que descobrimos essa cidade. Partimos ainda com mais entusiasmo do que na primeira viagem – se é que isso era possível.

Numa trilogia, o segundo capítulo é sempre o mais difícil. Tentar superar o sucesso de uma experiência bem sucedida é tarefa árdua.

O auge da expedição acontece logo na chegada a cidade. Depois de pararmos – novamente – na estrada pra fotografarmos as placas, nos deparamos com um morro alto indicando a direção a ser seguida com todas as letras do nome da cidade: AIURUOCA. A empolgação foi grande.

Desafiamos os limites do permitido. Escalamos o morro e cada um de nós se posicionou em uma das letras da palavra. Não antes de, num caso de máxima lucidez, pararmos um estranho motoqueiro e entregar todas as nossas câmeras digitais para que ele tirasse o maior numero de fotos possível, “soltar o dedo” na terminologia de Luísa. Queríamos colher os louros da nossa ousadia.

Parece impertinência ? O que vem depois é muito pior. Eis que lá em cima, a muitos e muitos metros do chão, pendurados em letras gigantes, as câmeras entregues ao estranho, Bela me pergunta: “você trancou o carro né ?”. Eu, com um possível olhar semi-imbecil, respondo: “nossa, eu não devia ter deixado a chave na ignição”. Ainda posso ver o olhar das meninas ao som da minha resposta.

Foi o que aconteceu. Uma paródia. No desatino, todos nós perdemos o juízo e largamos o carro aberto, malas, dinheiro e o pior, a chave na ignição deixada por mim, num caso agudo de oligofrenia.

Minha avó sempre dizia que Deus protege os loucos e as crianças. Não sei em que categoria nos enquadrávamos naquele momento, talvez na fronteira que a razão faz com a demência.

O fato é que a foto ficou ótima !

O nome da cidade vem de ajuru que quer dizer papagaio, na língua tupi e oca, que significa casa. Aiuruoca significa então "Casa de Papagaio". Decidimos então, no dia seguinte subir o Pico do Papagaio numa aventura pra lá de divertida. Partimos da Reserva Ambiental Matutu.



São quase nove quilômetros de trilha, passando por paisagens exuberantes, Mata Atlântica, cachoeiras, bosques de araucárias e bromélias.



Subimos em três horas e meia, com direito a algumas paradas. O topo é fantástico. 2.295 metros de altitude. Sensação total de plenitude e conquista.



O horizonte imenso todo aberto para nós sugerindo mil direções.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Luísa


Luísa é a voz amorosa da inocência. Quando contei que Jesus Cristo escolheu seus 12 apóstolos, um de cada signo, ela acreditou... E ainda ficou curiosa pra saber qual deles era do signo de escorpião, o mesmo que o seu. Situações antológicas e inesquecíveis como essas, vive-se apenas quando se tem Luisa por perto. Parece muitas vezes uma menina, com suas frases ótimas que saem quase sem querer. Tem a disposição vivaz de quem ainda não largou suas bonecas.

Ela foi o presente que Bela me deu no final do ano passado. Tornou-se uma das melhores e mais fiéis amigas do Fábio, dedicando-lhe um álbum todo especial no seu “Facebook”.

Cumpriu com garra e determinação a terceira força da trilogia Ibitipoca-Aiuruoca-Trindade. Devo confessar que gosto imensamente de sua companhia. Principalmente nas viagens e em suas extensas seqüências de fotos. Não economiza. Costuma “soltar o dedo”. Quer “garantir” que a seqüência ficará perfeita.

Preciso mencionar ainda o seu incontrolável desejo por “zooms”, o qual acabei tornando-me dependente também. Compartilhamos silêncios cúmplices, cada um com sua própria digital checando suas fotos repetidas. O que já provoca certa tensão em Bela.

Hoje é seu aniversário. Dia de relembrar as tardes confortáveis em Ibitipoca e Aiuruoca.

sábado, 14 de novembro de 2009

São Thomé das Letras 1


Falar de Debs é retornar a São Thomé das Letras. Eu tinha feito essa viagem aos 20 e nunca mais havia voltado. Pura falta de oportunidade. Tentei voltar, mas os caminhos me levavam sempre a outros lugares.

Debs nunca tinha ido. Nem Babi. Nem Rose. Fez-se a oportunidade. Mais uma road trip por Minas Gerais.

Diz a lenda que um escravo de nome João fugiu e refugiou-se numa gruta, sobrevivendo com o que a natureza lhe dava. Um dia apareceu na gruta um senhor com longa barba e vestes brancas que lhe entregou um bilhete, o qual deveria ser entregue ao seu senhorio sendo que seria a garantia do perdão pela fuga. O escravo retornou a fazenda e foi perdoado. O feitor quis conhecer a gruta e encontrou em seu interior uma imagem de São Thomé esculpida em madeira. Na entrada, haviam pinturas avermelhadas semelhantes a letras. A origem do nome “São Thomé das Letras” surgiu em referência a essas pinturas.



Deitados no telhado em forma piramidal, assistimos a um inesquecível por do sol.

Nada é mais lindo do que o azul sem manchas do céu de São Thomé das Letras.

O horizonte imenso aberto sugeria mil direções.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Déborah


Deborah mergulhou ao meu lado nas águas claras e frias das cachoeiras de São Thomé das Letras. Na cachoeira do paraíso, no véu de noiva, no vale das borboletas. E assistiu também, bem pertinho de mim, ao por do sol no telhado da casa da pirâmide. Um céu escarlate. Isso tudo selou, por razões puramente sentimentais, nossa conexão.

Cheia de trejeitos e com brilho de malícia nos olhos, essa menina corre de um lado para outro com a naturalidade de quem brinca no pátio de casa. Possui uma espécie de dínamo que a faz expressar-se com uma energia de alta voltagem, vazando a emoção de forma passional. Carisma irrefutável, ela alia refinamento e espontaneidade. Na loucura e no desatino.

O temperamento é de fato guerreiro, pronta para brigar pelo que acredita ou para enfrentar o que for preciso.

Planejo ainda mencionar – apenas de passagem – que Déborah sempre dorme nos finais de festas. Não importa onde. Na minha penúltima de aniversário, ela desmaiada em minha cama, - ta bem, já eram cinco e meia da manhã - lembro de Cris, sacudindo-a, em tom de voz forte: “Déborah acorda, o garoto quer dormir”. Vale lembrar que o garoto era eu...

Hoje é seu aniversário. Dia de reverenciar seu dom de fazer os brownies mais gostosos do planeta. Dia de ouvir suas deliciosas gargalhadas. Aquelas que dão vontade de agarrar e trazer para casa.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Casamento


Poucas pessoas sabem o quanto foi difícil para eu voltar a acreditar em casamento. Mesmo assim, havia me decidido casar novamente. Mais confiante, me sentia mais seguro. Uma idéia me perseguiu durante toda aquela semana, adiar. “Vamos em frente, não adianta recuar” tentava repetir para mim mesmo.

Assumi o grande desafio e espantei o medo de passar o resto da vida fugindo desse compromisso. Torci para conseguir uma agradável reconciliação com meu coração. Queria dar adeus de vez aos fantasmas. Para isso, sabia que precisava confrontá-los, até perceber quais eram reais, quais eram imaginários.

Podemos ficar todos calmos. Acertei o passo, pisei com firmeza o caminho certo. Enterrei de vez o conturbado relacionamento anterior. Dividi o mérito com Leandro, indiretamente responsável por essa saudável guinada na minha vida. Reconciliei-me com meus pensamentos, afastando de vez todos os medos que me perseguiam.

Na nova casa, iniciei então uma rotina de confortadoras trivialidades. As aparições noturnas tornaram-se raras. As incursões diurnas ganharam fôlego. As pessoas não apareciam mais sem serem convidadas. Mais recluso, uma vida mais regrada, mal sou visto nos lugares. Mantive-me convenientemente afastado do eixo das badalações. Muito pouca exposição pública. À exceção de cerimônias, quando nada se pode fazer. Relembrei quanto vale uma vida privada.

Deixei pra trás as festas e toda publicidade em torno de mim. Me desfiz da imagem de uma pessoa agitada, com vida intensa. Sai de cena por longa temporada, esperando que a distancia pudesse dar a lucidez que me faltava. Queria existir apenas nos limites da minha domesticidade.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Skank


Hoje tem show do Skank, o grupo musical brasileiro que possui as músicas e letras que compõe meu repertório amoroso nos últimos dez anos. Não conseguiria contar as vezes que me emocionei com “Resposta”, “Balada do amor inabalável” ou “Dois rios”.

Desde quarta, tenho escutado Skank no meu ipod. Em casa, no carro a caminho da faculdade, na praia. Uma espécie de pré-estréia para a noite de hoje.

Aqui estão 12 músicas para um enredo amoroso. Não foi necessariamente assim comigo. Mas poderia ter sido...

1) PARA SE APAIXONAR Balada Do Amor Inabalável
É força antiga do espírito virando convivência de amizade apaixonada
Sonho, sexo, paixão, vontade gêmea de ficar e não pensar em nada...
Planejando pra fazer acontecer
Ou simplesmente refinando essa amizade
Eu vou dizendo na sequência bem clichê
Eu preciso de você...

2) PARA AMORES PLATÔNICOS Ali
Quem sabe com ela
Eu teria as tardes que sempre me passaram
Como imagens, como invenção!
Se eu não posso ter eu fico imaginando...

3) PARA PRIMEIRO ENCONTRO Resposta
Bem mais que o tempo que nós perdemos
Ficou prá trás também o que nos juntou...
Ainda lembro que eu estava lendo
Só prá saber o que você achou
Dos versos que eu fiz e ainda espero
Resposta...

4) PARA FICAR Seus Passos
E o que dizer desse segundo distraído do olhar
Que no infinito corre mundo
Onde o céu encontra o mar
Nesse jogo de reflexo a certeza me distrai
Seu desejo é meu início
E eu estou tão perto agora, eu sei

5) PARA ONE NIGHT STAND Formato Mínimo
Os lábios se tocaram ásperos em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos e ávidos, gozaram rápido

6) PARA SE DECLARAR As Noites
As ruas desse lugar conhecem bem
As noites longas, as noites pálidas
Quando eu te procurava
As ruas desse lugar agora eu sei
Sempre escutaram a nossa música
Quando eu te respirava
E lá no céu os astros num arranjo surpreendente
Se buscavam como a gente
Pelo menos tinha essa ilusão

7) PARA FAZER SEXO Dois Rios
Que os braços sentem e os olhos vêem
E os lábios beijam dois rios inteiros sem direção
E o meu lugar é esse ao lado seu, meu corpo inteiro
Dou o meu lugar pois o seu lugar é o meu amor primeiro
O dia e a noite, as quatro estações

8) PARA UNIÂO E CUMPLICIDADE Sutilmente
E quando eu estiver triste simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo suavemente se encaixe
E quando eu estiver bobo sutilmente disfarce

9) PARA ROAD TRIP A DOIS Vou Deixar
Eu já estou na sua estrada
Sozinho, não enxergo nada
Mas vou ficar aqui até que o dia amanheça
Vou esquecer de mim e você se puder
Não me esqueça...

10) PARA IR EMBORA Acima Do Sol
Eu não posso te ajudar esse caminho não há outro
Que por você faça
Eu queria insistir mas o caminho só existe
Quando você passa...

Assim ela já vai achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer
Sim, eu sei que ela só vai achar alguém pra vida inteira
Como você não quis...

11) PARA EX NAMORADOS Amores imperfeitos
Não precisa me lembrar não vou fugir de nada
Sinto muito se não fui feito um sonho seu
Mas sempre fica alguma coisa, alguma roupa pra buscar
Eu posso afastar a mesa quando você precisar

12) PARA VOLTAR O NAMORO Três Lados
E quanto a mim, te quero, sim
Vem dizer que você não sabe
E quanto a mim, não é o fim
Nem há razão pra que um dia acabe

Você estava longe, então por que voltou ?

Bem, acho que seria capaz de prosseguir exaustivamente essa lista. Vamos ao show então...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Pilha de queixas 4

O 'ficante' com quem T. teve um relacionamento rápido dizia sempre para ela que “não queria namorar”. Porém, ela acaba de descobrir que ele está namorando outra menina. Ela, a esteta do exagero que não tem meias medidas e sempre a beira de um ataque de nervos, insiste em ligar para ele para fazer acusações. Aos berros. Sempre aos berros. T. é um primor em matéria de delicadeza. Quando não grita, urra. Não há bom costume que fique de pé quando ela está por perto. Ela resume sua vida a acusações com ou sem motivos, às entranhas da piedade e do terror.

Explico que ao "acusá-lo" do fato de ele dizer que não quer namorar não é uma declaração registrada em cartório. Explico ainda que ele poderia em algum momento mudar de idéia.

O que mais me chama a atenção é que para ela, o rapaz não namorá-la era quase um pacto silencioso: "ah ele não ME namora porque não quer namorar".

Ela não pensa que o rapaz só estava sendo educado e não falaria "você ta louca que eu namoraria você ????"

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pilha de queixas 3

T. (22 anos) é a instabilidade personificada. Comporta-se como uma gangorra dada a ataques de cólera. Ou está deprimida achando que ninguém a quer e que todos a usam, ou está eufórica. O melhor é que em ambas situações ela sempre xinga muito as pessoas. Para dizer que vai até a esquina, usa pelo menos três palavrões desnecessários.

Perguntei: “Como as pessoas te usam ?” Segundo ela, “basicamente para sexo”. Antes eu achava que ela tinha aprendido com a mãe a gritar. Elas são aquelas pessoas que insultam aos berros quem lhes passe pela frente, armando escândalos em público. Hoje já acho que aprendeu algo mais profundo. Aprendeu a só ver coisa ruim em tudo e todos.

O 'ficante' com quem ela saia esporadiacamente decidiu interromper essas saídas. Em vez de ir embora, ela inicia seu calvário com uma carga aparentemente inesgotável de gritarias, insultos e ameaças, passando por um processo de decomposição emocional e impulsos assassinos, com altas possibilidades de acabar num manicômio. Assim, ela assina sua própria sentença, causando uma enorme repulsa no seu 'ficante'.

T. esquece que quem está escolhendo a dor é ela mesma. Em suas reflexões mal humoradas, ela enxarca mais ainda o seu transbordante poço de ressentimentos. Acredita que "o destino parece conspirar contra mim" e assim, convencida de sua predestinação, não se conforma "com o destino que me foi imposto". Talvez isso justifique seu currículo afetivo desastroso e uma bagagem cheia de incidentes.

Ela que não sabe ir embora e ficar só com a parte boa da história. Penso: “Imagina quando alguém ficar, no caso, ficar a base de grito, que ‘relação’ boa vai ser”. Porém, prefiro me abster a lançar esse comentário.

Ela quer tanto que o cara fique que, se ele morrer, ela é capaz de botá-lo no freezer.

domingo, 1 de novembro de 2009

Perturbador da ordem


Nunca fui um adolescente muito bagunceiro. Embora meu avô sempre dissesse que eu era “encapetado”, juro que achava isso um exagero.

Aos 13 anos, no último mês da sétima série, fui considerado perturbador da ordem. Esse foi o termo justificado em minha caderneta para uma suspensão de três dias. Na verdade, não fui suspenso sozinho. Quatro garotos do colégio foram, e eu estava entre eles, embora talvez isso não fizesse a menor diferença para os meus pais.

Eles foram comunicados pelo telefone no gabinete da coordenação.

Naquela tarde, não quis voltar pra casa e enfrentar perguntas inevitáveis. Pensei em ficar na garagem. Talvez dormisse lá. Acho que fazia um ano e meio que não rezava, mas naquele dia eu rezei. Pensava em como melhorar o humor em casa. Penetrar nas linhas inimigas e tentar fazer a comunicação.

Cheguei em casa três horas depois. Totalmente exausto, transpirando, amarrotado. Na fornalha ardente que era a cidade naquele mês de novembro. Nunca senti tanto calor em toda a minha vida.

Iríamos passar o natal na Disneyworld, Miami. Eu e meu irmão teríamos que passar de ano. Direto. As recuperações seriam em janeiro. Essa suspensão poderia atrapalhar muito todo o plano familiar.

Quando abri a porta de casa, meus pais estavam na sala com o ar de quem vai dar uma lição. Porém, um ato espantoso de condescendência aconteceu.

Meu pai me contou uma história sua de vinte anos atrás. No mesmo fôlego, disse que me amava embora blá blá blá... Terminou com um “Por isso, por favor, preste atenção !”

Nunca fui um aluno muito brilhante, embora sempre passasse de ano. Mas passei três dias internado em casa estudando matemática e ciências. Dia e noite. Noite e dia. Devia isso a eles. Passei raspando. Mas passei. Foi um daqueles momentos que me senti realmente orgulhoso de ser um garoto esperto.

Eu nunca me perdoaria se não tivesse passado direto. De verdade. Dia 20 de dezembro daquele ano, pisei nos Estados Unidos pela primeira vez. Sem perturbar a ordem no avião.