
Nas festas que eu e Mrs. Miller frequentávamos - que mal me deixavam tempo para dormir - no reino superpovoado, sempre fazíamos inesperados amigos. Diante de tal superpopulação de tipos e pecados, difícil se tornava diagnosticar quem era quem, ou quem fazia o que em relação a quem.
Era um babilônico festim, com sua horda de bárbaros, corpos minuciosamente sarados, músculos torneados em aparelhos de musculação e bíceps desenvolvidos esbanjando saúde. Uma hilariante orquestração de excentricidades, ao som de verdadeiro tambor de guerra africano, onde pessoas, objetos e acontecimentos podiam ser permutados à vontade. Uma galeria de figuras que pareciam ter sido traçadas a bico-de-pena por um cartunista em estado de graça.
Havia uma completa ausência de identidades pessoais: vivia-se um êxtase solitário sem nenhuma ligação além do puro contato físico, numa entrega desprovida de limites e inibições em maciças doses de comprimidos.
Os mais afoitos, olhos dementes a preço de liquidação, estavam sempre em sobressalto, permanente estado de alerta nuclear, se drogando até a medula. Pareciam estar a ponto de explodir em ataques catatônicos de apoplexia ou todas as conhecidas variações napoleônicas. As festas não eram para corações delicados e nervos fracos. Havia o risco de inflamação nas meninges de tanta tensão.
Os mais enfurecidos, aparentemente perseguidos por estranhas maldições, tentavam estabelecer um insólito diálogo com a gente. Às vezes, com a eloquência de um gago, ora estrangulando sílabas, ora prolongando frases ininteligíveis. Outros, cheios de agudos, substituíam as palavras por distorções de voz aparentemente sem nexo. Lembro de um louro querubim, anjo barroco convertido em profeta do apocalipse, que parecia imitar o som selvagem de um pássaro nordestino, enquanto deslocava uma vértebra.
Lembro também de um sujeito, deitado num dos corredores, lívido como um vampiro, crucificado no chão, que maneava ritmicamente a cabeça. "
Passando mal ?" perguntei. Olhos rodando e congestionados, a não-vítima respondeu: "
Me deixa aqui. Isso é felicidade, cara".
Havia um outro repleto de tiques, cabeleira eriçada em desalinho, boca de porta-níquel e um andar que lembrava um macaco, provavelmente retirado de algum capítulo de “
O bebê de Rosemary”, que fornecia
pastilhas (ou seria ácido lisérgico), num autêntico serviço de utilidade pública que ninguém tinha coragem de dispensar. Naturalmente, não se tratava de iniciativa filantrópica. “
Agora, em pessoa, temos o diabo, ou algo que se assemelhe”, comentei.
As cenas de canibalismo eram, de fio a pavio, o melhor capítulo. A carne, no sentido literal, estava em transe e era mordida com dentadas. Não havia o intervalo de tempo preenchido pelo flerte, a troca de olhares ou sorrisos. Só o necessário para rondar a presa como animais famintos e finalizar a caçada humana.
Ouvíamos
gritos, grunidos e guinchos por todos os lados. Era um passeio de timbres aparentemente alucinados e possibilidades, como só nós dois, McCabe and Mrs. Miller, pecaminosos burgueses nesse cenário clautrofóbico, seríamos capazes de topar.
Houve quem considerasse anacrônico a um cara como eu, que sempre havia topado os desacertos de seu tempo, ir buscar diversão em
raves.
Sei que minha imagem, sempre cuidadosamente preservada, foi exageradamente exposta e aparentemente gasta. Foi, sem dúvida, uma época barulhenta e pessoalmente desgastante. Mas não posso esquecer que estávamos em nossa loucura passageira, assando na mesma labareda. Curtíamos aqueles momentos, tão fugazes como inesquecíveis, sem saber exatamente o que fazíamos ou precisamente o que víamos, onde cada um de nós conseguia quebrar seus próprios limites e viver instantes de paixão.