Estou revendo fotografias e recordando acontecimentos agradáveis e dignos de serem lembrados. Sei que minha memória pode falhar no meio de lacunas ou cenas de transição. Posso confundir as imagens sobre os personagens que habitam a minha memória. Com apenas uma exceção. Tenho total confiança nas minhas lembranças dele.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Memória
Estou revendo fotografias e recordando acontecimentos agradáveis e dignos de serem lembrados. Sei que minha memória pode falhar no meio de lacunas ou cenas de transição. Posso confundir as imagens sobre os personagens que habitam a minha memória. Com apenas uma exceção. Tenho total confiança nas minhas lembranças dele.
domingo, 20 de março de 2011
A imagem é tudo !

Qualquer garoto de 14 anos já sabe a grande verdade universal: a imagem é tudo !!! você é quem você aparenta. Aparência é algo que você constrói com esforço e cuidado planejado.
Meus amigos, todos de 14, queriam passar o Reveillon, no Clube Federal, no Leblon, um clube freqüentado pelos projetos de mauricinho da época. Bastava apenas que um dos pais fosse para se responsabilizar pelos demais. A mãe de um deles topou. Agora seria fácil. Só convencer os meus.
“Não!” foi a resposta que minha mãe me deu, alegando que eu era muito novo para esse tipo de festa. Levei meu caso a corte superior. Tudo tinha limites. Parecia que toda minha vida dependia de uma resposta do meu pai. “De jeito nenhum”, foi o que ele falou. “Miserável traidor”, pensei. Minha imagem estava em questão. Talvez eu tivesse fazendo um cavalo de batalha. Mas como dizer para os meus amigos que eu não poderia ir porque meus pais não deixaram. Minha natureza selvagem começou a se manifestar. Joguei sujo. Estava em desespero.
Quebrei a regra básica entre pais e filhos: NUNCA OS COMPARE A SEUS SEMELHANTES. Falei, na cara, que todos os outros pais deixaram. Pude ver a fúria dele.
Nessa hora vi a alegria do meu irmão sentado no sofá. Talvez isso fosse justiça. Uma espécie de vingança, por todas as vezes que eu ri do meu irmão, quando ele estava em encrenca. Aquele era o momento pelo qual ele esperou a vida toda.
Eu tinha que resolver a situação o mais rapidamente. Fiz o contrário: adiei o máximo possível. Eu precisava de tempo, tempo para dizer adeus a vida.
Foi nessa semana que pela aprendi que a vida é uma serie de voltas e reviravoltas.
Por uma pungente ironia, alguns amigos do meu pai decidiram passar o Ano Novo no Federal também. Parece que seus filhos, que eu nem conhecia, também haviam pedido o mesmo que eu.
Foi meu primeiro reveillon com meus amigos. Nem foi nada tão especial assim. Mas marcou minha independência. Agora eu estava por minha própria conta.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Pilha de queixas 14
J. é um adolescente abatido e assustado, de 16 anos, que sofre de crônica incomunicabilidade. Nas primeiras sessões, manteve um silêncio eloqüente. Expressão inalterável. Gestos econômicos. Ar de desamparo. Nenhuma inflexão do rosto. Um vazio exasperante.
J. não consegue enfrentar a vida com independência. Não demonstra seus sentimentos, não tem opiniões próprias e faz o possível para não ser notado em público. Opta por passar a vida em estado de completo sonambulismo. Chegou com um diagnóstico de “personalidade dissociada”, logo descartado por mim.
Mora com seus pais, que “vivem às turras, a base de insultos e pancadaria”, segundo ele mesmo. J. é submetido diariamente a um grosseiro antiquário de clichês melodramáticos. Depois de dois meses com poucos progressos, ele me perguntou; “Há sentido em continuar na terapia ?” Respondi: “Sim, há sentido de sobra”. Optei, então, por chamar seus pais para conversarmos todos juntos. J. se contentou em dar de ombros.
A sessão familiar foi um festival de excessos. P. (62 anos, advogado) e L. (54 anos, defensora pública) falam em demasia e dizem pouco. Trocam acusações mútuas e provocações ostensivas e, não raro, a um só tempo. Berram palavrões e, a rigor, não parece estar acontecendo nada. Os diálogos são quase indecifráveis, restando apenas vasto ruído. O que fazem parece caricatura debochada ou paródia feroz dos comportamentos que dizem combater. São logrados e estafantes, lembrando dois bufões animadores de mafuá, desses que vão se matando de maneira gratuita. O problema é que poderiam fazer tudo isso com dignidade. E sobretudo, mais depressa, para disfarçar o absurdo do que se passa. J. me olha com uma sensação de estar no meio do caos sem poder escapar, iniciando um ataque de sonolência, enquanto eu fico cada vez mais perplexo com o que vejo.
Pensa que acabou ? De jeito nenhum. O único prazer de L. parece ser irritar o parceiro, o que ela consegue num desfile de maus modos e com espetacular êxito. P. parece ser mais violento. As coisas pioram quando ele, para reforçar a atmosfera de pesadelo, decide resolver a situação com um par de murros, soco a soco, já que só consegue raciocinar com os punhos. L. vai se desguiando dos socos com a desenvoltura de quem está acostumada a esse comportamento. É de pasmar que J. consiga sobreviver nesse caldeirão fervilhante. Entendo agora ele não enxergar a saída para sua agonia, preferindo ficar mortificado em vida.
Diagnóstico: J. não consegue falar. P. e L. não conseguem ouvir. Todos convivem no mesmo espaço e parecem amaldiçoados por uma coexistência desastrosa.
A compreensão da dinâmica familiar foi essencial para o meu trabalho. Optei por um lento mover de peças num tabuleiro de xadrez. Consegui, numa sessão seguinte, convencer esses pais - de excelente poder aquisitivo - que seria bom se J. pudesse fazer um intercâmbio internacional para melhor socializar com o mundo, e assim, conseguir uma fórmula de comunicação. Surpreendentemente, eles me ouviram.
Nesse momento, J. se encontra num high school de uma escola em Ohio, Estados Unidos, finalizando seu ensino fundamental e tentando se comunicar em outra língua.
J. não consegue enfrentar a vida com independência. Não demonstra seus sentimentos, não tem opiniões próprias e faz o possível para não ser notado em público. Opta por passar a vida em estado de completo sonambulismo. Chegou com um diagnóstico de “personalidade dissociada”, logo descartado por mim.
Mora com seus pais, que “vivem às turras, a base de insultos e pancadaria”, segundo ele mesmo. J. é submetido diariamente a um grosseiro antiquário de clichês melodramáticos. Depois de dois meses com poucos progressos, ele me perguntou; “Há sentido em continuar na terapia ?” Respondi: “Sim, há sentido de sobra”. Optei, então, por chamar seus pais para conversarmos todos juntos. J. se contentou em dar de ombros.
A sessão familiar foi um festival de excessos. P. (62 anos, advogado) e L. (54 anos, defensora pública) falam em demasia e dizem pouco. Trocam acusações mútuas e provocações ostensivas e, não raro, a um só tempo. Berram palavrões e, a rigor, não parece estar acontecendo nada. Os diálogos são quase indecifráveis, restando apenas vasto ruído. O que fazem parece caricatura debochada ou paródia feroz dos comportamentos que dizem combater. São logrados e estafantes, lembrando dois bufões animadores de mafuá, desses que vão se matando de maneira gratuita. O problema é que poderiam fazer tudo isso com dignidade. E sobretudo, mais depressa, para disfarçar o absurdo do que se passa. J. me olha com uma sensação de estar no meio do caos sem poder escapar, iniciando um ataque de sonolência, enquanto eu fico cada vez mais perplexo com o que vejo.
Pensa que acabou ? De jeito nenhum. O único prazer de L. parece ser irritar o parceiro, o que ela consegue num desfile de maus modos e com espetacular êxito. P. parece ser mais violento. As coisas pioram quando ele, para reforçar a atmosfera de pesadelo, decide resolver a situação com um par de murros, soco a soco, já que só consegue raciocinar com os punhos. L. vai se desguiando dos socos com a desenvoltura de quem está acostumada a esse comportamento. É de pasmar que J. consiga sobreviver nesse caldeirão fervilhante. Entendo agora ele não enxergar a saída para sua agonia, preferindo ficar mortificado em vida.
Diagnóstico: J. não consegue falar. P. e L. não conseguem ouvir. Todos convivem no mesmo espaço e parecem amaldiçoados por uma coexistência desastrosa.
A compreensão da dinâmica familiar foi essencial para o meu trabalho. Optei por um lento mover de peças num tabuleiro de xadrez. Consegui, numa sessão seguinte, convencer esses pais - de excelente poder aquisitivo - que seria bom se J. pudesse fazer um intercâmbio internacional para melhor socializar com o mundo, e assim, conseguir uma fórmula de comunicação. Surpreendentemente, eles me ouviram.
Nesse momento, J. se encontra num high school de uma escola em Ohio, Estados Unidos, finalizando seu ensino fundamental e tentando se comunicar em outra língua.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Casual
terça-feira, 1 de março de 2011
Central Park

Voltei dos Estados Unidos na semana passada. Dois ou três dias depois, eu não me lembro bem, tive uma noite de sono atormentada por um sonho espetacular: o Central Park estava lotado e eu me encontrava com vários amigos, uma multidão de personagens que fui recolhendo em minhas andanças. Um reencontro com pessoas e idéias passadas, numa espécie de reciclagem sentimental de boas lembranças. Todo mundo estava achando maravilhoso estar lá para alguma finalidade. Era como se fossemos gravar um desses especiais de fim de ano ou alguma coisa assim.
Mas, no fim do sonho, todos desapareciam. Ao olhar pra trás, eu não via mais ninguém. Eu ficava lá, no Central Park, sozinho. Em paz com a vida, mas um tanto solitário. Nem sinal de que aquelas pessoas estiveram ali. Confesso que fiquei estarrecido, com o ar de bom moço distraído. E logo depois acordei – ou interrompi o sono, sei lá, a gente nunca sabe direito como essas coisas acontecem. Só sei que esse sonho parecia espantosamente verossímel. Ele palpitava, fascinava como coisa viva.
Como todos os sonhos, o meu certamente deve esconder significações que o transcendem. O problema consiste em diagnosticá-las corretamente.
Minhas fantasias noturnas correm cada vez mais ferozmente atrás de mim. Realidade e imaginação se fundem no meu universo. Difícil separar passado, presente e futuro.
Meu lado lírico diz que, no fundo, eu queria que todos os meus amigos estivessem comigo. Até mesmo os mais antigos, aqueles que não vejo há tanto tempo. Meu lado trágico questiona o porquê de todos irem embora sem se despedir. Fiquei com a impressão que faltava alguma imagem, alguma cena entre a gravação da mensagem e o meu ‘olhar pra trás’. Algo que não consigo me lembrar.
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