J. é um adolescente abatido e assustado, de 16 anos, que sofre de crônica incomunicabilidade. Nas primeiras sessões, manteve um silêncio eloqüente. Expressão inalterável. Gestos econômicos. Ar de desamparo. Nenhuma inflexão do rosto. Um vazio exasperante.
J. não consegue enfrentar a vida com independência. Não demonstra seus sentimentos, não tem opiniões próprias e faz o possível para não ser notado em público. Opta por passar a vida em estado de completo sonambulismo. Chegou com um diagnóstico de “personalidade dissociada”, logo descartado por mim.
Mora com seus pais, que “vivem às turras, a base de insultos e pancadaria”, segundo ele mesmo. J. é submetido diariamente a um grosseiro antiquário de clichês melodramáticos. Depois de dois meses com poucos progressos, ele me perguntou; “Há sentido em continuar na terapia ?” Respondi: “Sim, há sentido de sobra”. Optei, então, por chamar seus pais para conversarmos todos juntos. J. se contentou em dar de ombros.
A sessão familiar foi um festival de excessos. P. (62 anos, advogado) e L. (54 anos, defensora pública) falam em demasia e dizem pouco. Trocam acusações mútuas e provocações ostensivas e, não raro, a um só tempo. Berram palavrões e, a rigor, não parece estar acontecendo nada. Os diálogos são quase indecifráveis, restando apenas vasto ruído. O que fazem parece caricatura debochada ou paródia feroz dos comportamentos que dizem combater. São logrados e estafantes, lembrando dois bufões animadores de mafuá, desses que vão se matando de maneira gratuita. O problema é que poderiam fazer tudo isso com dignidade. E sobretudo, mais depressa, para disfarçar o absurdo do que se passa. J. me olha com uma sensação de estar no meio do caos sem poder escapar, iniciando um ataque de sonolência, enquanto eu fico cada vez mais perplexo com o que vejo.
Pensa que acabou ? De jeito nenhum. O único prazer de L. parece ser irritar o parceiro, o que ela consegue num desfile de maus modos e com espetacular êxito. P. parece ser mais violento. As coisas pioram quando ele, para reforçar a atmosfera de pesadelo, decide resolver a situação com um par de murros, soco a soco, já que só consegue raciocinar com os punhos. L. vai se desguiando dos socos com a desenvoltura de quem está acostumada a esse comportamento. É de pasmar que J. consiga sobreviver nesse caldeirão fervilhante. Entendo agora ele não enxergar a saída para sua agonia, preferindo ficar mortificado em vida.
Diagnóstico: J. não consegue falar. P. e L. não conseguem ouvir. Todos convivem no mesmo espaço e parecem amaldiçoados por uma coexistência desastrosa.
A compreensão da dinâmica familiar foi essencial para o meu trabalho. Optei por um lento mover de peças num tabuleiro de xadrez. Consegui, numa sessão seguinte, convencer esses pais - de excelente poder aquisitivo - que seria bom se J. pudesse fazer um intercâmbio internacional para melhor socializar com o mundo, e assim, conseguir uma fórmula de comunicação. Surpreendentemente, eles me ouviram.
Nesse momento, J. se encontra num high school de uma escola em Ohio, Estados Unidos, finalizando seu ensino fundamental e tentando se comunicar em outra língua.
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