segunda-feira, 26 de julho de 2010

Um ano depois


Dia 26 de julho de 2009. Há exatamente um ano atrás, nascia “Mesmo que nunca se aprenda”, o blog. Foi num dia de Leblon Jazz Festival. Cris passou aqui em casa para abrir o blog, enquanto preparamos caipivodkas com as bebidas da minha última festa. Fomos encontrar Bela, Luisa e alguns outros amigos.

Há um ano que escrevo sobre minha viagem ao Egito, onde se iniciou um emblemático processo de mudança, com uma guinada de 180 graus. Há um ano que reedito textos meus escritos no fim da minha adolescência, uma época em que eu buscava algo que eu nem sabia.

Há um ano também que estou focalizando a personalidade dos meus melhores amigos, fazendo declarações ensolaradas de amor a todos aqueles que compartilham minha intimidade. Consegui que o blog tivesse meu olhar, e principalmente, a presença congestionada deles, seja nos posts ou nos comentários, com todos os apelos mágicos que a magia traz. Desde Luciana, presente na minha vida há trinta anos. Como todos os que vieram depois, todos portadores do meu amor. Inclusive, minhas adoráveis meninas - a melhor colheita dos últimos anos - núcleo central da nossa sagrada quadrilha.

Adoro todos os posts que escrevi para os meus amigos. Isso eu digo assim modestamente porque, acredito, que os posts se parecem mais com eles que comigo.

A escolha dos assuntos – os que mais me fascinam - acabou por recair naqueles que são ligados diretamente às conexões humanas, os encontros e desencontros, uniões impetuosas e equivocadas, o antes, o início, o meio, o fim e o depois.

Construo histórias que caminham paralelas, reunindo seus fios da meada. A segurança que atinjo hoje me dá a chance e o pulso para espraiar a narrativa por outros personagens, seja no meu consultório, seja na minha vida pessoal, lançando mais luz sobre outras vidas. A idéia de lidar com figuras secundárias é mais vasta e abrangente. Embora saiba que estou sempre escrevendo a mesma história. A minha história.

Na verdade, “Mesmo que nunca se aprenda” continua sendo um auto-retrato, reflexo exato do que penso e sinto, revelando o lado mais íntimo e desconhecido da minha personalidade. Traço um mosaico onde procuro oferecer sempre uma fotografia de mim mesmo. Apontando o caminho mais intimista que tenho buscado nos últimos anos. Parafraseando Marisa Monte, um infinito particular no universo ao meu redor. Ou como ensinava Guimarães Rosa, o mais particular não é senão o mais universal: “O sertão é do tamanho do mundo”.

Foi uma aposta ousada. Confesso que não esperava a atenção e o interesse que despertou. Fico surpreso e grato. Não conto com uma aprovação irrestrita, mas continuo feliz com a empreitada. Boca aberta em riso. Continuo confiando na sorte, nos dias que correm.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Amigo


Ontem foi Dia do Amigo. Dia feliz, de muitos torpedos e declarações. Déborah foi a primeira e os endereçou às suas "pessoas favoritas". Em seguida, Luísa exaltou "happy three friends". E por aí foi e não parou mais...

Sempre tive facilidade para fazer amigos. Quando criança, qualquer garoto que tivesse uma bola de futebol ou quisesse brincar de alguma coisa, virava meu melhor amigo. Meus critérios eram simples. A vida era mais simples.

Na época do colégio, bastava estar na minha turma anual para ser meu amigo. Se gostasse de uma bagunça então, melhor ainda. Nos finais de semana, minha casa transformava-se num verdadeiro ponto de encontro. Afinal, tenho pais que sempre gostaram de movimento.

Com o tempo, fui ficando mais seletivo. Mesmo assim, tive a sorte, a arte ou o dom de fazer bons amigos. Dei uma derrapada a poucos anos atrás, mas todo ser humano tem o direito de errar de vez em quando. Exerci esse direito.

Esse post é dedicado então a todos os meus amigos. Aos que estão mais perto e aos que estão mais longe. Aos que já foram mais íntimos e aos que estão com a vida diferente em outros países... e nem por isso menos amigos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Pilha de queixas 11

J., 30 anos, namora há dois uma mulher de 27. Ele diz que “o namoro vai mal há alguns meses. Ela está muito estranha e distante”. Não pensa em conversar com ela, perguntar o que está acontecendo. Acha melhor “esperar um pouco”, talvez porque sinta que tenha o controle da relação. Ainda que tudo fique por um fio, J. prefere esperar. E enquanto espera, pensa que a namorada fará o mesmo. Bem, essa é a sua crença.

Insiste: “Ainda estamos juntos, só que precisamos de um tempo. Estamos mal, mas nada demais. Uma hora a gente fica bem de novo”. O que ele faz ? A rigor, nada. J. prefere permanecer com a sua crença: As coisas estão mal, mas ele está razoavelmente bem porque sabe que as coisas vão ficar bem.

Segundo muitos, as coisas sempre ficam bem. Seria um conforto pensar assim ?

J. não pensa que nesse meio tempo, enquanto ele e sua crença esperam, ela pode assinar o atestado de óbito, conhecer outra pessoa e fazer tudo que ela gostaria de ter feito com ele.

Só nos resta aguardar e torcer por sua crença.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O fundo do mar


Sempre fui apaixonado pelo fundo do mar. Desde criança. Acho mesmo que desde que vi o mar pela primeira vez. Tinha o ímpeto de me atirar no mar, como se o conhecesse, e tivesse a certeza que ele nunca me faria nenhum mal. Nunca fez mesmo.

Assim, acabei desenvolvendo quase uma dependência de morar perto do oceano. Hoje já consigo vê-lo da minha janela e volta e meia, vou me certificar que ele está ainda por lá.

A experiência de mergulhar em Fernando de Noronha foi uma das mais fascinantes de toda a minha vida. Noronha é um paraíso para quem gosta de mergulhar. Entre os animais marinhos, destacam-se milhares de espécies de peixes, tartarugas, caranguejos e moluscos, além de golfinhos e baleias.

Ouvir o silêncio a 25 metros de profundidade é uma benção.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Fernando de Noronha


Foi na companhia de Bela que fiz a viagem menos planejada, e ironicamente, uma das mais acertadas. O paraíso se chama Fernando de Noronha - o arquipélago vulcânico isolado no Atlântico Equatorial Sul, constituído por 21 ilhas, ilhotas e rochedos de natureza vulcânica. Decidimos ir três dias antes, a fim de comemorarmos seu aniversário lá. Em grande estilo. Um acerto do começo ao fim.

Com o auxílio de um bugre, que acabou sendo nosso guia, percorremos, algumas vezes, toda a ilha. Logo descobrimos que esse talvez seja o melhor lugar do mundo para se começar a desenvolver um gosto duradouro pelo ócio. Sendo assim, não nos restava muita escolha, a não ser passar o dia inteiro nas praias. Praia do cachorro, Praia do meio, Praia da Conceição, Praia da cacimba do padre, Baía dos porcos, Baía do sancho, Baía do sueste, Air France. E por aí vai...


Aventuramo-nos em trilhas para chegar em algumas delas, mais distantes, onde nosso bugre não poderia alcançar. Uma viagem irretocável com dias ensolarados. O mar foi cenário de todas as fotos, sejam elas azuis ou verdes, aquáticas ou áreas.


Assistir o por do sol, na Praia do Boldró, é quase um ritual religioso. Todos ali juntos esperando a hora de nos despedirmos do sol e pedir que no dia seguinte, e no outro, e no outro também, ele volte com o mesmo brilho.

O fundo do mar é o próximo capítulo. Eu mesmo deveria estar sabendo que o melhor ainda estava para acontecer. E, em breve.

domingo, 11 de julho de 2010

Bela


Bela se torna por merecimento, e sem esforço demasiado, uma grande companheira de aventuras. Não há parceria melhor para compartilhar Fernando de Noronha, San Blás ou as montanhas mágicas da Mantiqueira. Assim como eu, ela é fascinada por lugares paradisíacos. Aí estão nossos ímpetos e afinidades essenciais.

Ao mesmo tempo que é grandiosa na arte de tirar sarro de nós mesmos, ela sabe como poucos explorar sua sedução. Seu riso atrevido combina fabulosamente com sua imaginação sem freios.

Não me custa nada revelar que Bela sempre chega atrasada aos lugares. Não porque esqueceu a hora. Mas algo no caminho lhe prende a atenção e a desvia. Argumenta. É convincente. Fala tão depressa e depois sorri para mim, toda covinha nas faces. Percebo o amor em seus olhos, cúmplice em nossas caretas infantis. Não posso me esquecer desse detalhe: seu sorriso com careta infantil é freqüentemente enlouquecedor.

Hoje é seu aniversário. Dia de percursos, de distâncias, de extremos e de intensidades.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Adolescência 12 - No meio fio


Sento-me no meio fio. Esperando pelo meu pai. Esfrego minhas mãos no fino blusão de brim. Devia entrar. Apanhar um blusão mais quente. Mas não quero correr o risco.

Não que ela se incomode. Ou diga algo. Mas a barreira já foi pulada uma vez. Por hoje, chega.

Quase sete horas. Será que ele se esqueceu ? Por um momento, desejo que ele tenha se esquecido. Mas logo depois rezo para que não. Ela teria que me dar carona. Tem consulta no médico. Chegaria tarde. O colégio fica do outro lado. Atravessaríamos a cidade sozinhos no carro. Eu não quero dizer nada errado.

Puxa, pai, não me faça esperar aqui até ela sair !

domingo, 4 de julho de 2010

Eternal Sunshine of the Spotless Mind


Ontem revi Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004), com Jim Carey (Joel) e Kate Winslet (Clementine). Impressionante !! Um filme sobre pessoas comuns, cheias das imperfeições, em vez da dicotomia de sempre: bons contra os maus, os perfeitos e os imperfeitos. Como na vida aqui não há nada disso. Há pessoas que estão desorientadas, perdidas, que precisam de uma bússola. E quando nenhuma lhes surge diante dos olhos preferem apagar tudo a digerir os momentos difíceis da sua vida, as estórias infelizes, os momentos que nunca deviam ter existido.

É essa a premissa do filme. É essa também a premissa da vida.

Quem já não desejou ter a oportunidade que este filme oferece ? De apagar o que incomoda e incomodará para sempre ?

Quem já não se arrependeu de algo e quis que isso desaparecesse da memória de alguma forma ? Está na nossa natureza. Uma procura das falhas da natureza humana. Mas é uma procura otimista, do lado bom das coisas.

E se aquilo que apagamos não devesse ter sido apagado ? E se sentíssemos falta amanhã do que nos repugna hoje ? Então o que faríamos ? Será que a vida nos colocaria de novo na mesma linha de onde tínhamos descarrilhado por opção nossa ? Ou será que tudo estaria de fato perdido ? para sempre ?

Apesar de surreal, acho o filme muito simples e lírico. Um hino ao amor apontado ao nosso coração. Mas o que de fato nos prende é a relação amorosa que percorre todo o filme. Apesar de terem tentado apagar as memórias do relacionamento, nunca em momento algum, tivemos duvidas que Joel e Clementine se amam profundamente. Nem era preciso aquele inicio carinhoso ou o final comovente. Mesmo nas discussões ou nos desabafos o amor - aquilo que verdadeiramente atravessa todo o filme - está lá.

Eternal Sunshine of the Spotless Mind merecia um tratado, uma monografia, uma dissertação de mestrado, uma tese de doutorado. Nunca li uma critica cinematográfica que chegue a tocar em algo profundo do que este filme nos tem para oferecer. Pelo contrário. O filme toca-nos de tal forma que a sensação de humanidade que nos acompanha ao acabar o filme torna-se nossa. Só nossa. Impossível de descrever ou partilhar com outros. É algo pessoal e intransmissível. Tal e qual o amor.

Amor - sempre esta palavra tão forte e por vezes usada tão levianamente - que está em todo o lado. Está na relação central do filme, mas também nos aspectos mais periféricos. É o que move todas as personagens desta história. Porque o amor de uns contagia os outros. E mesmo uma vingança amorosa - que também existe pois a balança tem sempre dois pratos - potencializa o reforço do amor. Num final que nos toca mais no coração do que nas lágrimas que descem pelos rostos. Afinal ver esses dois personagens funciona quase como um espelho. Não seremos todos um pouco assim ?

É um filme tocante. É impossível não sentir um bater do coração. Deste filme só não gosta quem se julgar perfeito. Porque todos os outros, como eu, como você, vai-se ver ali retratado. Nas coisas boas e nas coisas más. E desenganem-se aqueles que sairam da sala desiludidos a pensar que iriam ver um " e viveram felizes para sempre". Porque com a vida ninguém sabe se isso vai acontecer de fato.