sábado, 29 de agosto de 2009

Festa


Hoje é dia de festa. Vou receber meus convidados, escolhidos pelo critério mais rigoroso de preferência pessoal.

Correndo de galope, no maior fôlego, termino os preparativos finais. O problema agora é controlar meu entusiasmo.

Quero que essa noite seja uma festa, cheia de histórias divertidas contadas por mim e por meus amigos. O visual, despojado, vai ganhar um andamento contemporâneo entre a bossa-nova, o rock e o eletrônico.

Ando feliz da vida, no melhor humor do mundo. Esparramando açúcar pra todos os lados. Aproveitando a maré boa que navego de três anos pra cá. Acerto nas escolhas, nos amigos, no sorriso. Consigo um equilíbrio. Confio na sorte, nos dias que correm.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Bobagens engraçadas


Falavamos muitas bobagens, coisas nossas, íntimas. Bobagens estúpidas. Eu me sentia seguro, de uma forma que jamais julguei possível novamente.

Sempre pensei em escrever algumas dessas bobagens, porque eram tão tolas e tão engraçadas... e me deixavam tão feliz...

Mas nunca o fiz.

Posso recordar o sentimento, mas não posso mais me lembrar delas.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Jaqueline


Não tenho dificuldade de revisitar o passado. Ontem mesmo, ouvindo música, uma canção do Keane me fez reviver um momento glorioso: a primeira vez que vi Jaqueline, minha adorável Mrs. Miller.

Fomos apresentados por uma grande amiga nossa em sua festa de aniversário e passamos a noite toda juntos, conversando, dançando, bebendo e descobrindo tantas coisas em comum. Tive com ela uma das amizades mais intensas de toda minha vida, talvez pelo momento acelerado que nós dois estávamos vivendo. Trilhávamos um caminho de demolições e construções.

Nossa agenda juntou-se de tal forma, como a muito não acontecia. Festas, badalações, atmosfera de boemia, noites esfumaçadas, eventos que iam de segunda a segunda. Vivemos nosso apogeu, numa vertente arrebatadora, com o sucesso subindo-nos a cabeça. Sentíamos que o tempo estava ficando mais rápido que a nossa própria vida, que parecia encolher. Uma temporada maravilhosa, porém tumultuada e pessoalmente desgastante. Diante de muitos questionamentos, ainda me perguntava: “Será que você está no caminho certo?”.

Seis meses depois, ela estava morando na minha casa. Estávamos numa felicidade idílica. Criei um personagem agitado com todas essas badalações. Mas havia outro, ali do lado, observando tudo e criticando rigorosamente aquele personagem. Incompatível com as coisas que acreditava. O que me deixava mais confuso ainda.

Fiquei engessado em algo que eu não era. Depois de tantos enganos, tantas opiniões e tantos fantasmas, precisava refletir sobre o que eu queria. Era difícil lutar contra tudo em torno de mim.

Em seguida, inicio um namoro, um dos mais importantes da minha vida. O que começou como uma simples aventura transforma-se num relacionamento duradouro e, após seis meses, resolvemos iniciar uma vida a dois, o que me leva a um novo casamento. Atitudes e conceitos reformulados, todo o clima acelerado se converge para um clima intimista.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Muito legal


Minha mãe me contou que, quando eu era criança, eu disse que gostaria que todas as pessoas no mundo fossem iguais. Disse que se ia acabar pensando que todo mundo com quem se encontra na rua era seu pai ou sua mãe ou seu irmão. Assim, as pessoas iam estar sempre se abraçando umas as outras onde quer que fossem e que tudo isso ia parecer muito legal.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Yogoberry

P. tem 14 anos e está apaixonada. Por um “lesk da minha turma que mora na Barra”. “Que ótimo”, falei.

Segundo ela, eu não estava considerando todas as implicações. É verdade. Quando você tem 14 anos, a distância da Zona Sul até a Barra é aproximadamente a mesma do Rio a Barcelona.

Quando você está apaixonado, a vida é uma série de acontecimentos. Acontece uma coisa, depois outra e a vida continua. Troca torpedos no corredor, entre uma aula e outra. Combina de ir ao shopping a tarde e depois tomar um yogoberry...

14 anos é uma idade maluca. Você já tem idade para se apaixonar e enfrenta o mundo sem nada, além da sua mesada. Torce pra que isso seja suficiente.

Passou uma semana planejando falar com ele. “Sobre o que ?” perguntei. “Sei lá, sobre o amor”, ela respondeu. Até que um dia, no recreio, atravessou o campo minado em direção ao pátio do colégio. Seu coração chegou ás estrelas. Mas tudo que conseguiu falar foi: “Você sabe quando é que é mesmo a prova de história ?”.

Mas ele não sabia. Achava que era quarta ou quinta da semana que vem, mas não tinha certeza.

Falar com o coração nem sempre é fácil. Aos 14, aos 20, aos 30, aos 40. O importante é que não precisamos ter pressa.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Elas conspiram


Suspeito que essas meninas conspiram para me fazer feliz. Elas providenciam que eu não tropece mais, que eu não derrape mais.

Eu planejo de coração saltar pessoalmente sobre elas.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Minhas meninas


Nada soa mais verdadeiro que o prazer com que falo dessas meninas. Sem um pingo de hesitação.

Eu não as procurei. Elas foram vindo ao meu encontro com suas pegadas e impressões digitais. Sequer me perguntaram se eu queria ser amigo delas. Apenas me informaram. E nenhuma parece ser tímida quanto a isso.

Comecei a ser escalado para tudo. Fui promovido à posição de celebridade requisitada, numa cerimônia habitual de torpedos e convites. Fiquei fascinado, absolutamente encantado como cada uma conseguiu incendiar minha imaginação.

O Deus da Alegria Absoluta está por cima de nós, derramando toda a felicidade possível. Estou extasiadamente feliz, mais feliz do que em qualquer outro instante na vida. Era em momentos como este, agora eu sabia, que meu alter ego adolescente precisa de sério controle.

Estou prestes a confessar: Essa foi de longe a melhor festa de reveillon que estive na vida !

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Esfinge


Formada por 4 animais: o leão, a águia, o homem e o touro, representando os 4 elementos em um corpo. Sínteses das forças elementares, correspondendo as 4 virtudes mágicas: saber, querer, ousar e calar.

A história mais famosa relacionada à Esfinge é a de Édipo que, antes de seu nascimento, foi previsto que mataria o pai e casaria com sua própria mãe. Diante de tal tragédia, Édipo, ao nascer na cidade de Tebas, sendo o herdeiro do Rei, é levado para ser afogado às margens de um rio. Entretanto, penalizado com a criança, seu guardião o entrega a uma família de camponeses que habitavam muito longe de Tebas. O tempo passa. Édipo cresce como camponês e sente a necessidade de sair do local em que vivia para conhecer novos horizontes. Em uma de suas andanças, é agredido por um homem, que sem saber que era seu pai, mata-o. Prossegue então sua caminhada até chegar a Tebas, sua cidade de origem, que estava sendo devastada por uma Esfinge, que a todo viajante que ali chegava, propunha um enigma: "O que caminha com 4 pernas de manhã, com duas pernas ao meio-dia e com três pernas de tarde ?" Os que não conseguiam decifrá-lo eram devorados. Édipo, porém, descobre a resposta: o homem, que engatinha na infância, anda sobre duas pernas na idade adulta e usa uma bengala na velhice. Com a resposta correta, a Esfinge é destruída e Édipo, na verdade, decifra uma parte do enigma. Porém, ele não conseguiu decifrar o seu próprio enigma, seu destino. Tornou-se vítima de seu próprio desconhecimento de quem era.


Esse mito nos chama a a atenção para a necessidade de nos conhecermos em nossa essência, caso contrário, seremos "vítimas" do destino, das forças que manipulam nossa vontade. Ser capaz de responder corretamente à pergunta da Esfinge: Conhece-te a ti mesmo, significa que a pessoa está preparada para passar através dos portais da consciência.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Acesso de tosse


Meu nome ecoou por toda a casa. A voz vinha de uma mulher que sozinha representava toda uma multidão: minha mãe.

Ela tinha descoberto que foi o caçula quem havia organizado aquele furacão na noite anterior.

Meu nome ecoou novamente. Senti o estardalhaço da fanfarra de clarins e da tropa de tambores, num volume pra lá de considerável.

Agora eu estava por conta própria. Eu queria que acontecesse algum terremoto, uma guerra nuclear surpresa, mas a vida nunca é tão misericordiosa assim.

Desci a escada como se estivesse indo para o meu próprio funeral. Agora, a gordura estava no forno, iam começar a me fritar.

Minha mãe me lançou aquele olhar de você-está-acabado-de-uma-vez-por-todas e começou a fazer as perguntas inevitáveis. Eu só tinha uma defesa: insanidade. Nessa hora, lembro, tive um acesso de tosse. Porém, não quis reduzir sua duração.

Sabia que estava errado. Afinal, nunca fui proibido de dar festas, salvo em sua ausência. Mas ela continuou a lição de moral, enquanto eu sentia o metal ressoando em sua voz

Nesse instante, tive outro acesso de tosse e, por mais estranho que possa parecer, verdadeiro.

Eu tinha q resolver a situação o mais rapidamente. Mas tudo que podia fazer era me desculpar. E aceitar o castigo de não andar de bicicleta durante duas semanas.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Rito de passagem


Durante quase toda a minha adolescência, pelo menos ma vez por mês meus pais passavam o fim de semana em Petrópolis, na casa do meu tio. E naquele mês de novembro, eles decidiram ir justamente na última semana que, coincidentemente, fecharia as provas semestrais. Essa seria a ocasião perfeita para uma festa com toda a turma da oitava série. Era o fim de uma etapa, a despedida do ginásio, afinal, ano seguinte estaríamos no científico.

Organizamos a festa em minha casa. Chamamos os trinta alunos da turma, além de uma multidão de “amigos próximos”, entre primos e agregados. Tudo o que precisava era pedir ao meu irmão que não desse com a língua nos dentes.

Nunca fui muito bom em conversas pessoais com ele. “Sabe como eles são”, falei. Esse era o problema. Ele sabia.

A festa começou as nove e até onde me lembro, atravessou a manhã seguinte. Foi nosso rito de passagem para o científico. A multidão de “amigos próximos” deve ter chegado fácil a casa dos cem.

Mas justamente nesse fim de semana, choveu torrencialmente em Petrópolis, o que fez com que eles decidissem voltar cedo, assim que acordassem, “pra não pegar neblina”.

Meus pais, que deveriam chegar umas cinco da tarde do domingo (“voltaremos antes de escurecer”), com a casa já arrumada e sem nenhum vestígio de festa, retornaram ao lar às onze horas da manhã de domingo...

Constatam, então, as consequências de um furacão passado na noite anteiror.

Não tenho uma idéia precisa do que aconteceu em seguida, além do fato de ouvir muitos berros furiosos da minha mãe no quarto do meu irmão.

Mas ele não contou a verdade. Não sei bem porque ele fez isso. Talvez ele tivesse visto que era inútil tentar explicar. Talvez soubesse que meus pais seriam mais duros comigo do que com ele. Talvez porque tinha esquecido e pensado que fosse ele mesmo quem tivesse feito a festa. Ou talvez principalmente porque naquela manhã meu irmão visse em mim um pouco de si.

Só sei que naquele domingo a diferença entre 14 e 21 anos tinha ficado um pouco menor.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sobre meu pai


Passei a semana escrevendo sobre meu pai. Tentei percorrer com alguma eficiência o caminho dos fatos consumados. Primeiro, revisitei nostálgico a infância lá em casa.

Depois, recordei nossa distância durante a minha adolescência. Tateando ás cegas, procurei não abrir velhas feridas. Eu e minha rebeldia moderada.

Ontem a noite, informei ao meu pai que estava escrevendo sobre ele no meu blog. Demonstrou uma desconfiança meio mafiosa, para depois soltar um “Não posso impedi-lo”. O que na linguagem dele é traduzível por “por favor, vá em frente”.

Minha mãe ligou-me hoje pela manhã só para dizer: “seu pai está adorando”.

Hoje procuro moderar meus caprichos em relação a ele e com isso advogar nossas negligências. Fomos para a Espanha e Portugal no ano passado. Ficamos 20 dias inteiros, juntos, horário integral. Não me lembro há quanto tempo isso não acontecia.

Percebo que as horas passadas em sua companhia hoje são mais importantes do que na minha adolescência. Pretendo ainda poder contar aqui a nossa história.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Adolescência 3 - Finge estar brincando


O que quer dizer "ser pai" ? Falar comigo sobre a maneira como eu visto. O que há de errado com a roupa que estou usando ? Nada. Ele não vê nada errado. Só que não pode deixar nenhuma chance de perguntar. "Estamos na era da perfeição, filho. Todo mundo se esforça ao máximo".

Prestar atenção a sintomas. Agora ele já sabe quais são: perda de apetite, insônia, falta de interesse nos estudos. Tudo, até agora, negativo.

Faço os deveres de casa. Digo que sou feliz. Outro dever de pai: fazer perguntas idiotas. "Você está feliz ?"

Mesmo assim tem que perguntar. Finge estar brincando, só brincando.

Respondo da mesma forma, sem dar importância. A resposta teria sido diferente se ele tivesse lembrado de perguntar antes ?

Outro dever de pai: observar. Proteger-se de novos sofrimentos, de fatos que não se alteram, que não podem ser alterados.

Antes, era apenas prestar atenção no que acontecia, como uma caixa esperando ser aberta. Agora não é mais. O que foi que mudou ? Surpresas de menos ? ou de mais ?

Responsabilidade. Não se pode deixar passar nenhum sintoma. É assim que as coisas acontecem. Alguém guarda muita coisa dentro de si. Ninguém percebe isso.

Como foi que as coisas aconteceram ? Onde está a culpa ? Em acreditar que as pessoas que você ama são especiais ?

Todo mundo acredita nisso. Só que ninguém sabe que acredita nisso. Até que acontece.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A casa do meu pai


Caçula, desde criança tentava me destacar nas reuniões familiares e nas festas promovidas pelo meu pai. Participava ora das discussões políticas, ora dos serões em volta do violão. Lá em casa, a discussão esquentava na política e esfriava na música.

Meu pai sempre gostou de reunir pessoas. Adorava festas, a mesa farta e a sala cheia. A casa estava sempre atulhada de incorporados. Um verdadeiro ponto de encontro, onde tudo desembocava lá. Costumava sair uns três almoços por dia. Tudo era pretexto para se abrir mais uma garrafa de vinho ao redor de um ou vários violões.

Com o tempo, devido a muitos amigos de meu pai que moravam em São Paulo, minha casa tornou-se um consulado paulista. Todo paulistano que chegava ao Rio ia pra lá e tinha direito a casa, comida e carinho, o tripé que sustentava a minha família. As conversas, as mesmas. Sempre sobre política, afinal estávamos nos anos 70.

A lembrança mais remota que tenho dessa época é o violão do lado do sofá e as portas sempre abertas.

Quem quisesse, entrava. Literalmente.