Retomando a história de T. descrita nos
posts Pilha de queixas 3 em 4 de novembro de 2009,
Pilha de queixas 4 em 5 de novembro de 2009 e
Pilha de queixas 5 em 4 de dezembro de 2009.
T., com sua alma de arara e sempre a um passo de soltar fogo pelas narinas, tem uma infelicidade que ela joga no mundo, por se acreditar injustiçada. Por ter um
‘ficante’ que a rejeita, ela consegue sair do plano abstrato, sair da divagação. Ela não se magoa com algo que nem lhe foi possível. Ela tem acesso a algo (a ele, o
‘ficante’) e depois o "perde" (já que ele não quer namorá-la). Daí vem a sua mágoa. Porém, ela recebe
não dele o tempo todo, materializando a mágoa que ela tem com o mundo.
Seu
‘ficante’ ativa um processo descendente em sua auto estima, que já é baixíssima, e assim, a joga mais pra baixo ainda. Ela insiste com ele. Muito. O máximo que consegue dele são opiniões sarcásticas, o que a faz ficar mais frustrada ainda. Ela procura uma aprovação que eu considero suicida. Talvez por ter sido muito mimada e ao mesmo tempo ter que se tornar subserviente, para não perder a esperança, T. acaba se tornando uma pessoas 50% insuportável e 50% submissa. No descontrole em que vive, faz tempestade de tudo que acontece, o que acarreta uma vida absolutamente solitária, não necessariamente no sentido físico. Ela faz de si mesma algo que não se leva a serio, passando desapercebida ou descartável pela vida das pessoas.
Vou tentar ser mais claro. Eu quero dizer no sentido de afeto. Claro que ela é uma pessoa que causa alguma coisa, nem que seja incômodo. Mas não desperta uma emoção, não desperta amor.
Cito aqui um exemplo, na terapia, pra ver como ela se enxerga minimamente.
Perguntei: "
O que você gostaria de mudar em você?". A resposta nem me surpreendeu. Mas foi um tiro bem no alvo dessas questões todas.
Ela disse: "
deixaria de cuidar das pessoas que não prestam", referindo-se ao
‘ficante’ que a rejeita constantemente. Impressionou-me aqui ela se ver como alguém tão maravilhosamente generosa, ou seja, o que ela acha generosidade nada mais é que adular alguém que ela quer. Muito. Até aí tudo bem. Nada demais a pessoa se ver como uma luz de amor, mas dá então pra praticar isso na íntegra? Porque se a idéia é amar, então ame em vez de ficar jogando com as pessoas. O curioso é que você vê um discurso dela todo contra quem joga, como se no mundo ninguém soubesse amar de verdade. Ou seja, ela não vê onde joga. Claro. Na verdade, ela quase nunca se vê. Perguntei então: "
O que te impede de fazer isso?" (isto é, de ser generosa com quem não presta). Ele diz: "
Tenho que ser mais malandra".
Eu intervenho: "
Então ser legal é ser otária?". É o mecanismo básico de projeção. Ela está vendo nos outros tudo que ela mesmo vê nela.
Ela não só acerta o julgamento, como não consegue deixar de ser legal, já q ela se diz maravilhosa e generosa. Note o giro que ela dá.
Ela escolhe a dedo quem não a quer e fica ali o tempo que for pra um dia falar isso tudo. Daí vem sua mágoa: achar sempre que é usada pelas pessoas.
‘Mudar pra que?’ ela diz. Acaba virando um ´
vão ter que me engolir´, já que esse é o jeito que ela encontra para lidar com as coisas, sempre com exagero, opulência.