quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Julie


Julie está completando uma semana no Leblon. Quem? A pergunta é natural e geral.

Recém-chegada, a nova moradora do Baixo Leblon não roça sequer de leve qualquer coisa próxima à seriedade. Mostra-se surpreendentemente feliz o tempo todo. Não preciso fazer nada para contentá-la. Ela é capaz de vibrar para um simples aceno de mão ou um sorriso.

Possui uma inata destreza de destruir fibra por fibra o tapete do meu banheiro. De uma semana pra cá, raro é o dia em que uma peça de roupa minha não aparece esgarçada. Depois me olha, retraída, com olhos ternos e inventivos. Mas consegue fazer do seu retraimento um charmoso apelo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Carta para Luana


Depois de alguns meses de namoro, em setembro de 2006, resolvo me casar novamente. Para tanto, precisávamos de um apartamento maior. No final desse mesmo ano, vendo meu apartamento antigo e compro um outro, passando a ser vizinho da atriz Luana Piovani.

No ano seguinte, em 2007, estoura em todos os jornais, a notícia que atriz havia sido agredida pelo ator Dado Dolabella. Inicia-se um exaurido tour de force da atriz com denúncias, processos e total exposição. Um assédio implacável da imprensa na porta do meu prédio.

Nunca a mídia foi tão impiedosa com uma figura pública.

Paralelamente, em meu consultório, eu atendia duas pacientes, de classe alta, que estavam constantemente sofrendo violência física de seus namorados. Não só elas não denunciavam esse crime, como permaneciam ainda nessas relações. Luana foi citada por essas duas pacientes como um ideal de ego, a partir de uma coragem que elas gostariam de ter.

Escrevi uma carta, “doce e apenas educada, com um texto coeso” na terminologia da própria atriz. Pedi para meu porteiro entregá-la, já que não nos conhecíamos. Tive a preocupação de mostrar apenas minha solidariedade e parabenizá-la pela atitude corajosa. Luana pediu apenas para que o porteiro me agradecesse.

Nesses três anos seguintes, nos encontramos raríssimas vezes, e apenas nos saudamos num comprimento cordial. Ela nunca sequer mencionou minha carta.

Domingo passado, dia 17 de outubro, 11 horas da noite, cansado de um dia de praia e zapeando a televisão, me deparo com o programa “De frente com Gabi” (SBT). A entrevistada era Luana Piovani. Resolvi assistir ao que me vizinha tinha a dizer. Ao falar da violência física sofrida pelo ator Dado Dolabella, ela cita uma carta que recebeu de seu vizinho ‘psiquiatra’, “uma carta doce e apenas educada”, que ela guarda como "um ourinho". No meio de todo um achincalhamento público, o apoio de um estranho deu o acolhimento e a força que ela precisava. Fiquei emocionado. Muito.

Penso sempre o quanto muitas vezes não nos damos conta de quanto nossos gestos e atitudes podem fazer a diferença. Sei que tenho escrito muito sobre isso. Tenho ouvido isso de meus alunos e pacientes ultimamente. Sei do risco de estar sendo repetitivo. Mas aqui é meu lugar de expressão e de emoção.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um ano sem Fábio


Hoje faz um ano que Fábio partiu. Um dia difícil. Chuvoso. Ainda tenho a imagem de seus olhos tristes desculpando-se por partir e me fazer sofrer

Fábio gostava de viver no seu mundo de alegrias e satisfações. Sempre em seu tom animado e cheio de si, adorava exibir sua inteligência espantosa.

Ontem estive na praia. Precisamente no local que Fábio mais gostava de brincar e fazer seu tour de force, entre mergulhos, caldos, cocos e corridas. Senti sua presença forte.

Fábio foi chamado para vôos mais elevados. Mas volta e meia, na praia principalmente, sinto que ele vem me visitar e encher de amor meu coração.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Pilha de queixas 12

Retomando a história de T. descrita nos posts Pilha de queixas 3 em 4 de novembro de 2009, Pilha de queixas 4 em 5 de novembro de 2009 e Pilha de queixas 5 em 4 de dezembro de 2009.

T., com sua alma de arara e sempre a um passo de soltar fogo pelas narinas, tem uma infelicidade que ela joga no mundo, por se acreditar injustiçada. Por ter um ‘ficante’ que a rejeita, ela consegue sair do plano abstrato, sair da divagação. Ela não se magoa com algo que nem lhe foi possível. Ela tem acesso a algo (a ele, o ‘ficante’) e depois o "perde" (já que ele não quer namorá-la). Daí vem a sua mágoa. Porém, ela recebe não dele o tempo todo, materializando a mágoa que ela tem com o mundo.

Seu ‘ficante’ ativa um processo descendente em sua auto estima, que já é baixíssima, e assim, a joga mais pra baixo ainda. Ela insiste com ele. Muito. O máximo que consegue dele são opiniões sarcásticas, o que a faz ficar mais frustrada ainda. Ela procura uma aprovação que eu considero suicida. Talvez por ter sido muito mimada e ao mesmo tempo ter que se tornar subserviente, para não perder a esperança, T. acaba se tornando uma pessoas 50% insuportável e 50% submissa. No descontrole em que vive, faz tempestade de tudo que acontece, o que acarreta uma vida absolutamente solitária, não necessariamente no sentido físico. Ela faz de si mesma algo que não se leva a serio, passando desapercebida ou descartável pela vida das pessoas.

Vou tentar ser mais claro. Eu quero dizer no sentido de afeto. Claro que ela é uma pessoa que causa alguma coisa, nem que seja incômodo. Mas não desperta uma emoção, não desperta amor.

Cito aqui um exemplo, na terapia, pra ver como ela se enxerga minimamente.
Perguntei: "O que você gostaria de mudar em você?". A resposta nem me surpreendeu. Mas foi um tiro bem no alvo dessas questões todas.

Ela disse: "deixaria de cuidar das pessoas que não prestam", referindo-se ao ‘ficante’ que a rejeita constantemente. Impressionou-me aqui ela se ver como alguém tão maravilhosamente generosa, ou seja, o que ela acha generosidade nada mais é que adular alguém que ela quer. Muito. Até aí tudo bem. Nada demais a pessoa se ver como uma luz de amor, mas dá então pra praticar isso na íntegra? Porque se a idéia é amar, então ame em vez de ficar jogando com as pessoas. O curioso é que você vê um discurso dela todo contra quem joga, como se no mundo ninguém soubesse amar de verdade. Ou seja, ela não vê onde joga. Claro. Na verdade, ela quase nunca se vê. Perguntei então: "O que te impede de fazer isso?" (isto é, de ser generosa com quem não presta). Ele diz: "Tenho que ser mais malandra".

Eu intervenho: "Então ser legal é ser otária?". É o mecanismo básico de projeção. Ela está vendo nos outros tudo que ela mesmo vê nela.

Ela não só acerta o julgamento, como não consegue deixar de ser legal, já q ela se diz maravilhosa e generosa. Note o giro que ela dá.

Ela escolhe a dedo quem não a quer e fica ali o tempo que for pra um dia falar isso tudo. Daí vem sua mágoa: achar sempre que é usada pelas pessoas.

‘Mudar pra que?’ ela diz. Acaba virando um ´vão ter que me engolir´, já que esse é o jeito que ela encontra para lidar com as coisas, sempre com exagero, opulência.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Carol


Mesmo sem coroa ou faixa, manto ou cetro, Carol é inegavelmente uma espécie de primeira dama da nossa sagrada quadrilha. Ela é capaz de conduzir seu reinado, numeroso e entusiasmado, a grandes conquistas.

Com uma personalidade interessante e uma sensibilidade aguçada, ela tem atitudes decididas. É capaz de botar a boca no mundo, para quem quiser ouvir. Mas também, na insuspeitada força de sua própria fragilidade, sabe recolher suas feras na hora certa. Uma rainha, pelo menos até o momento em que a derrubam, prefere não correr nenhum risco.

Não me custa esforço maior dizer que nossa primeira dama sempre tem muito a nos oferecer em matéria de conforto e abraços.

Hoje é o seu aniversário. Dia de improvisações inteligentes, arrumações impecáveis e muita irreverência.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Glicose


Meus alunos descobriram a data do meu aniversário. Prepararam uma festa surpresa, quase temática, regada a todo tipo de açúcar. Glicose do começo ao fim, com direito aos mais variados doces açucarados. Por sinal, os meus preferidos.

A gente nem se dá conta dessa nossa capacidade de influenciar a vida das pessoas. Às vezes, nem se entende como nem porquê. Mas percebe-se que algo ali faz a diferença.

Em retribuição, ganhei um dia de glicose.