sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Carta para Luana


Depois de alguns meses de namoro, em setembro de 2006, resolvo me casar novamente. Para tanto, precisávamos de um apartamento maior. No final desse mesmo ano, vendo meu apartamento antigo e compro um outro, passando a ser vizinho da atriz Luana Piovani.

No ano seguinte, em 2007, estoura em todos os jornais, a notícia que atriz havia sido agredida pelo ator Dado Dolabella. Inicia-se um exaurido tour de force da atriz com denúncias, processos e total exposição. Um assédio implacável da imprensa na porta do meu prédio.

Nunca a mídia foi tão impiedosa com uma figura pública.

Paralelamente, em meu consultório, eu atendia duas pacientes, de classe alta, que estavam constantemente sofrendo violência física de seus namorados. Não só elas não denunciavam esse crime, como permaneciam ainda nessas relações. Luana foi citada por essas duas pacientes como um ideal de ego, a partir de uma coragem que elas gostariam de ter.

Escrevi uma carta, “doce e apenas educada, com um texto coeso” na terminologia da própria atriz. Pedi para meu porteiro entregá-la, já que não nos conhecíamos. Tive a preocupação de mostrar apenas minha solidariedade e parabenizá-la pela atitude corajosa. Luana pediu apenas para que o porteiro me agradecesse.

Nesses três anos seguintes, nos encontramos raríssimas vezes, e apenas nos saudamos num comprimento cordial. Ela nunca sequer mencionou minha carta.

Domingo passado, dia 17 de outubro, 11 horas da noite, cansado de um dia de praia e zapeando a televisão, me deparo com o programa “De frente com Gabi” (SBT). A entrevistada era Luana Piovani. Resolvi assistir ao que me vizinha tinha a dizer. Ao falar da violência física sofrida pelo ator Dado Dolabella, ela cita uma carta que recebeu de seu vizinho ‘psiquiatra’, “uma carta doce e apenas educada”, que ela guarda como "um ourinho". No meio de todo um achincalhamento público, o apoio de um estranho deu o acolhimento e a força que ela precisava. Fiquei emocionado. Muito.

Penso sempre o quanto muitas vezes não nos damos conta de quanto nossos gestos e atitudes podem fazer a diferença. Sei que tenho escrito muito sobre isso. Tenho ouvido isso de meus alunos e pacientes ultimamente. Sei do risco de estar sendo repetitivo. Mas aqui é meu lugar de expressão e de emoção.

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