sexta-feira, 28 de maio de 2010

Cego


Minha mãe me contou que, quando eu era criança, uma das minhas brincadeiras preferidas era ficar andando como um cego pela casa, raspando as mãos pelas paredes. Disse que minhas mãos chegavam a ficar vermelhas de tanto que eu caminhava de um lado para o outro.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Momentos


Como já confessei aqui, aprendo muito com meus alunos. Semana passada, num final de uma aula de Psicologia da Personalidade, dois alunos vieram conversar comigo. Falando sobre relacionamentos e memórias, um deles, de 22 anos, disse que os nossos grandes momentos na vida não são aqueles que "destacamos ou que sublinhamos". Nem mesmo os que colocamos em CAPS LOCK, negrito ou itálico. Nossos grandes momentos são "aqueles que são borrados, apagados, às vezes até mesmo deletados".

O outro aluno concordou. Quis acrescentar ainda aqueles momentos "que levam reticências ou os que acabam muito antes do fim".

Voltei pra casa pensando nisso tudo. Tentando reeditar alguns desses meus momentos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pilha de queixas 9

F. (48 anos) é casado, mas banca uma mulher, vinte e cinco anos mais nova do que ele. Sempre lhe comprou presentes caros, jóias, jantares e o aluguel de um apartamento na zona sul da cidade. Recentemente, sua empresa faliu e ele comunicou a mulher que ele bancava há 5 anos “que a farra tinha acabado”. Ela aceitou pacificamente. Sem brigas nem discussões. Porém, decidiu arrumar um outro amante.

F., em sua arrogãncia medrosa, está raivoso. Indignado. Já a procurou duas vezes para proferir avassaladores insultos e despejar algumas obscenidades. Sente-se traído "por ela ter pulado fora". Argumentei: "mas quem quebrou o acordo foi você, não ela". Afinal, a gente não ama o empregador. Perguntei se ele tinha a ilusão de que pagando, ela iria acabar se apaixonando por ele.

F. endossava o auge de seu próprio escapismo comprando amor ou sexo. Numa farsa na qual ele próprio era cúmplice.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Terras lusitanas


A primeira vez que fui a Portugal eu tinha 21 anos. Viajei com meu avô, a expressão por excelência da alma lusitana que dava valor às coisas boas da vida, à mesa farta, aos vinhos e aos amigos. Queria mostrar-me às terras pelas quais andou quando era adolescente. Engraçado não ter feito isso com meu irmão. Mas quis fazer comigo.

Foram dois meses juntos, percorrendo Portugal, de Faro até Oporto, passando por Fátima, Guimarães, Coimbra, Viseu, Lisboa. Minhas raízes se ampliaram e engrandeceram. Foi nessa viagem que aprendi sobre a Revolução dos Cravos - dia 25 de abril de 1974 e a substituição de Salazar. Mas aprendi principalmente sobre aqueles que libertaram Portugal do atraso cultural e estrutural provocado pelo regime obscuro. Foi nessa viagem também que entendi de fato a música “Tanto mar” do Chico Buarque.

Nunca mais voltei a Portugal. Meus pais já tinham ido umas duas vezes, mas sem mim. A oportunidade reapareceu nessa euro-familytrip. Sete dias em terras lusitanas, percorrendo alguns lugares que meu avô havia me apresentado.

Percorremos Lisboa de ponta a cabeça. O Castelo de São Jorge e sua localização privilegiada permitindo a vista de toda a cidade. Como que repartindo a cidade em leste (onde estão os bairros de Estefânia, Alfama e Graça) e oeste (Bairro Alto, Amoreiras, Lapa), existe um eixo imaginário, que partindo do Rio Tejo, atravessa a Cidade Baixa, segue pela rua Augusta, praça do Rossio, Av. da Liberdade e chega à Praça do Marques do Pombal.

O Monumento aos Descobrimentos está situado às margens do rio Tejo e homenageia todos aqueles que enfrentaram os oceanos e deram a Portugal, na época, o controle de praticamente metade do mundo. Foi inaugurado em 1960, em referência aos quinhentos anos da morte do Infante D. Henrique, patrono das grandes conquistas marítimas de Portugal. Em sua lateral estão representados marinheiros, navegadores, cartógrafos, estudiosos e todos aqueles que contribuíram para o que passou a ser conhecido como Era dos Descobrimentos.


Nos arredores de Lisboa, fomos ainda a Cascais e Estoril. No dia seguinte, Sintra.


Sempre senti saudades das terras lusitanas. Saudades sem ter de quê nem de quem. Talvez porque trago Portugal comigo, no meu coração. Afinal, tenho uma costela portuguesa.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Madri


Próxima parada: MADRI. Uma cidade com imponentes avenidas, prédios elegantes, novas construções por todos os lados e inconfundíveis sinais de prosperidade econômica para onde quer que se olhe. Madri causa sempre um impacto em todos nós, dando a impressão de ser um tipo de primo rico da comunidade latina ou aquele membro da família que conseguiu vencer na vida.

Trata-se de uma cidade dinâmica e moderna, que ao mesmo tempo preserva com cuidado sua rica herança histórica e suas belas tradições. É uma cidade que merece uma visita alongada, mais até do que os seis dias que passamos lá.


A Gran Via (ou grande avenida) é considerada o coração da cidade. O trânsito é frenético. A vida é pulsante. Ponto de referência ideal para começar a percorrer a cidade assim como a Plaza de Espana, Edifico de Espana, Torre de Madrid e no centro um monumento dedicado a Cervantes, com destaque para as estátuas de Dom Quixote e Sancho Pança.


O clima histórico - bairros antigos, tabernas, balcões de ferro e lampiões - parece conduzir a gente de volta no tempo. A área próxima a Plaza Mayor e Cuchilleros reúne um pouco desta Madri encantadora, que já seduziu tanta gente. A Cava de San Miguel, a Cava Alta e a Cava Baja, juntas, formavam o sistema de defesa que envolvia as muralhas da Madrid medieval. Essas cavas (estreitas covas ou fossos) tinham como finalidade formar uma defesa adicional caso a cidade fosse invadida. Com o tempo perderam a função defensiva. Mais tarde foram aterradas e no século 16 transformadas em ruas. As construções do lado leste são na realidade parte do muro de contenção da Plaza Mayor.


Nessa tarde, depois de percorrermos as cavas subimos direto a grande escadaria que conduz à Plaza Mayor. Se eu tivesse que escolher um lugar para representar a cidade, essa seria minha escolha. Uma grande área retangular, cercada por prédios com arcadas. A origem está no ano 1560, quando o rei Felipe II decidiu construir uma área destinada a funcionar como mercado aberto. Com o tempo, passou a desempenhar diversas outras atividades, recebendo touradas, coroações, festivais, execuções, fogueiras da inquisição e qualquer outro grande evento de massas, já que era capaz de receber cerca de 50 mil pessoas.


E como se não bastasse todos esses encantos, a cidade é ainda cheia de generosas áreas verdes. O principal parque da cidade é o Parque del Retiro, bem no centro, formado por 120 hectares de jardins, gramados, árvores centenárias, barquinhos para alugar, o mausoléu de Alfonso XII , o Jardim de Rosas, o Palácio de Cristal, Palácio de Velasquez e Casa de Vacas.

Parece que Madri é a cidade que mais turistas atrai em todo o mundo. Não sei se isso é verdade. Mas se for, faz todo o sentido. Clima agradável, bonitas tradições, música e comida excelentes, cultura, artes e uma infra estrutura de primeiro mundo, que oferece tudo que um turista pode desejar. Meu pai ficou bastante impressionado. A última vez que ele esteve lá foi em meados dos anos 80.

Acho que escolhi um bom presente para ele.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Barcelona


Minha euro-familytrip de 2008 foi um ato de gratidão para com meus pais. Uma oportunidade de dar retorno a quem sempre me deu tudo ao longo dos anos.

Meu pai tem descendência espanhola. Minha mãe, portuguesa. A escolha recaiu na Península Ibérica. Nada mais justo. Começamos então por Barcelona, uma das minhas cidades preferidas da Europa. Havia estado lá somente uma vez, em pleno verão de 2001, num calor de 40 graus. Já era hora de voltar. Dessa vez no outono, minha estação preferida.

Barcelona em si é um ponto turístico. Basta caminhar pelas ruas, observar as construções, a variedade de raças e tudo que está a sua volta.

O melhor é a arquitetura genial de Antoni Gaudí, com suas obras como Casa Blató, Igreja Sagrada Família, Parc Guell (1900-1914) e La Pedrera.


La pedrera é um dos edifícios mais significativos da história da arquitetura mundial, considerado por alguns arquitetos mais escultura do que edifício. Um projeto de Antoni Gaudí e Cornet de 1905, edificado entre os anos 1906 e 1910 para a família Milà. A fachada é uma impressionante massa de pedra ondulada sem linhas retas onde o ferro forjado está presente nas sacadas, imitando formas vegetais. O telhado é uma fantasia, as chaminés com formas que lembram guerreiros, saídas de escadas que formam um bosque de figuras que surpreendem pelo vanguardismo das formas. Descobri que o edifício foi reconhecido como patrimônio da humanidade pela UNESCO em 1984. Adoro essas descobertas.


Las Ramblas, onde nos hospedamos, nada mais é do que um calçadão com árvores e bares na calçada, constituindo o verdadeiro eixo turístico da cidade. Começa na Plaza Catalunya e termina no Port Vell, passando pelo Bairro Gótico e o mercado S. José (mais conhecido como Boqueria).

A montanha de Montjuic (monte Judeu), foi protagonista de muitos acontecimentos. O símbolo histórico e o monumento mais antigo (finais do séc XVII) é o castelo de Montjuic, onde se pode admirar uma das melhores vistas da cidade.

Se diz que até 1992, Barcelona estava de costas pro mar, justamente porque toda esta extensão de praia, era ocupada por fábricas e a zona marginal da cidade. Com as Olimpíadas, foi construída a Vila Olímpica para alojar os atletas das Olimpíadas. Após os jogos, os apartamentos foram vendidos e a região transformou-se em uma nova zona residencial e de diversão da cidade. É onde ficam as praias. Eu, como bom carioca que tento ser, tive que dar um mergulho.

Capital da Comunidade Autônoma da Cataluña, Barcelona é uma das cidades mais agitadas da Espanha e conta com uma legião de turistas jovens de todas as partes do mundo. É uma cidade mediterrânea, com um clima pra lá de agradável, que mantém uma incrível harmonia entre construções modernas e raízes históricas que remontam a Idade Média.

Logo logo faço uma terceira visita a ela.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Frágeis e válidas


Luciana me perguntou se eu ainda gosto dele.

Uma pergunta não totalmente fora de propósito.

Há pelo menos meia dúzia de respostas para essa pergunta, e todas elas, frágeis e válidas.

Mas, por enquanto, deixarei passar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Olhos marejados


Hoje Fábio faria 11 anos.

Já estou com os olhos marejados de lágrimas só em pensar nisso. Perdi uma grande referência na minha vida. Não sei se a maior. Talvez a mais sincera de todas.

Durante muito tempo, ficou ao meu lado nos bons e nos maus momentos. Nas épocas de esperança, nos anos de mudança. Sempre um companheiro calado. O primeiro a me receber na porta quando eu voltava de viagem. Aquele que nadava 500metros livre enquanto eu corrigia provas.

Sempre satisfeito consigo mesmo, Fábio não queria de jeito algum ingressar na vida adulta. E acabou conseguindo. Tinha uma sabedoria invejável. Compreendia os meus pensamentos e os aceitava. Parecia realmente saber o que acontecia comigo.

Sua opinião de como a vida deveria ser inspirava otimismo em qualquer um. Era impossível não entender suas intenções. Irreverente e generoso numa personalidade impulsiva. Às vezes desesperada.

Hoje Fábio faria 11 anos.

Não quero a imagem impiedosamente desoladora que fiquei no final de outubro, onde quase tudo me fazia cair aos prantos. A cara afundada no travesseiro e as lágrimas encharcando pelo meu rosto.

Quero apenas fazer uma homenagem àquele que muito me ofereceu em matéria de conforto.