T. (22 anos) é a instabilidade personificada. Comporta-se como uma gangorra dada a ataques de cólera. Ou está deprimida achando que ninguém a quer e que todos a usam, ou está eufórica. O melhor é que em ambas situações ela sempre xinga muito as pessoas. Para dizer que vai até a esquina, usa pelo menos três palavrões desnecessários.
Perguntei: “Como as pessoas te usam ?” Segundo ela, “basicamente para sexo”. Antes eu achava que ela tinha aprendido com a mãe a gritar. Elas são aquelas pessoas que insultam aos berros quem lhes passe pela frente, armando escândalos em público. Hoje já acho que aprendeu algo mais profundo. Aprendeu a só ver coisa ruim em tudo e todos.
O 'ficante' com quem ela saia esporadiacamente decidiu interromper essas saídas. Em vez de ir embora, ela inicia seu calvário com uma carga aparentemente inesgotável de gritarias, insultos e ameaças, passando por um processo de decomposição emocional e impulsos assassinos, com altas possibilidades de acabar num manicômio. Assim, ela assina sua própria sentença, causando uma enorme repulsa no seu 'ficante'.
T. esquece que quem está escolhendo a dor é ela mesma. Em suas reflexões mal humoradas, ela enxarca mais ainda o seu transbordante poço de ressentimentos. Acredita que "o destino parece conspirar contra mim" e assim, convencida de sua predestinação, não se conforma "com o destino que me foi imposto". Talvez isso justifique seu currículo afetivo desastroso e uma bagagem cheia de incidentes.
Ela que não sabe ir embora e ficar só com a parte boa da história. Penso: “Imagina quando alguém ficar, no caso, ficar a base de grito, que ‘relação’ boa vai ser”. Porém, prefiro me abster a lançar esse comentário.
Ela quer tanto que o cara fique que, se ele morrer, ela é capaz de botá-lo no freezer.
Depois de ler sobre essa T, sobre essa busca desenfreada, fiquei mexendo aqui e selecionei um trecho de algo que escrevi há uns tempos, lá vai:
ResponderExcluirÉ impreciso saber onde começa um sonho, onde termina um amor.
É impreciso conhecer teus céus sem voar, teus infernos sem descer a eles.
É preciso assumir o risco de viver.
O risco de viver é o elixir dos bravos.
É impreciso curar as dores, ou amansar um coração desgovernado.
É impreciso fugir do tecido da vida.
Que se forma sob os pés feito um caminho de nuvens, que envolve feito um cobertor no inverno, que carrega feito um tapete que voa.
Assumir os riscos, estes imprevisíveis ventos que chegam sem calendário, não é aceitar a vida.
É celebrá-la, em tons de cores invisíveis que se formam nas tintas que se escolhe para o que nos cerca.