domingo, 1 de novembro de 2009

Perturbador da ordem


Nunca fui um adolescente muito bagunceiro. Embora meu avô sempre dissesse que eu era “encapetado”, juro que achava isso um exagero.

Aos 13 anos, no último mês da sétima série, fui considerado perturbador da ordem. Esse foi o termo justificado em minha caderneta para uma suspensão de três dias. Na verdade, não fui suspenso sozinho. Quatro garotos do colégio foram, e eu estava entre eles, embora talvez isso não fizesse a menor diferença para os meus pais.

Eles foram comunicados pelo telefone no gabinete da coordenação.

Naquela tarde, não quis voltar pra casa e enfrentar perguntas inevitáveis. Pensei em ficar na garagem. Talvez dormisse lá. Acho que fazia um ano e meio que não rezava, mas naquele dia eu rezei. Pensava em como melhorar o humor em casa. Penetrar nas linhas inimigas e tentar fazer a comunicação.

Cheguei em casa três horas depois. Totalmente exausto, transpirando, amarrotado. Na fornalha ardente que era a cidade naquele mês de novembro. Nunca senti tanto calor em toda a minha vida.

Iríamos passar o natal na Disneyworld, Miami. Eu e meu irmão teríamos que passar de ano. Direto. As recuperações seriam em janeiro. Essa suspensão poderia atrapalhar muito todo o plano familiar.

Quando abri a porta de casa, meus pais estavam na sala com o ar de quem vai dar uma lição. Porém, um ato espantoso de condescendência aconteceu.

Meu pai me contou uma história sua de vinte anos atrás. No mesmo fôlego, disse que me amava embora blá blá blá... Terminou com um “Por isso, por favor, preste atenção !”

Nunca fui um aluno muito brilhante, embora sempre passasse de ano. Mas passei três dias internado em casa estudando matemática e ciências. Dia e noite. Noite e dia. Devia isso a eles. Passei raspando. Mas passei. Foi um daqueles momentos que me senti realmente orgulhoso de ser um garoto esperto.

Eu nunca me perdoaria se não tivesse passado direto. De verdade. Dia 20 de dezembro daquele ano, pisei nos Estados Unidos pela primeira vez. Sem perturbar a ordem no avião.

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