sexta-feira, 10 de junho de 2011

Pilha de queixas 15

B. (38 anos) é um modelo de virtude religiosa e retidão moral. Um colosso de bons sentimentos. Possui, ninguém duvida, um coração de ouro.

Na primeira entrevista, foi capaz de citar mansamente a Bíblia e as sagradas escrituras, numa evangélica oratória, demonstrando preocupação “com a glória nas alturas e a tentação do demônio”. Tem confiança “no poder da redenção, nos valores da decência” e a convicção de que “a graça divina triunfará sobre os descaminhos do vício”. Pretende borrifar litros de água benta sobre tantos sacrilégios, acreditando assim que será levada para o reino dos bem-aventurados. Ela é quase sempre uma pastoral.

Quando pergunto sobre hobbies, ela diz que lê “sobre a vida dos santos” e se penitencia pelos pecados que ainda não cometeu. Quando pergunto sobre relacionamentos amorosos, diz que “resiste aos apelos frenéticos da carne”. Deve acreditar que o sexo é algo que só pode ser praticado por desajustados. Como se não bastasse tanta santificação e sem perder de vista o apocalipse, ela apega-se a uma profusão de símbolos cristãos com o fervor de uma carmelita sempre que se sente atraída por alguém.

Mas quem se importa ? Os outros acham-na tão intolerável que nem sequer ousam retribuir-lhe um bom dia. Nada há de errado com ela, a não ser o fato dela ser absolutamente chata devido ao seu inabalável credo religioso. Trilha o caminho certo para doses inigualáveis de chatice, como dar conselhos e sermões moralistas que ninguém ouve se puder evitar. Assunto, naturalmente, não lhe falta. Mas os ouvintes vêem nela um castelo de preceitos morais.

Ela diz que gostaria de se analisar, para “fazer mais amizades”. O mundo de B. já está pronto e escrito nas páginas da Bíblia. Como sugerir que ela abdique de tudo que acredita fervorosamente para abrir as portas para um outro mundo ?

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