
No início do século XX, num dia chuvoso, um jogador chamado John McCabe chega, montado num cavalo, na cidade da “Igreja Presbiteriana”, noroeste úmido e frio dos Estados Unidos. Rapidamente ele conquista uma posição dominante sobre aquela cidade simplória, graças a sua personalidade agressiva e os rumores de que ele é um pistoleiro.
McCabe estabelece então um bordel, constituído por três prostitutas extravagantes compradas de um cafetão da cidade vizinha, e começa a obter algum sucesso. Constance Miller, uma "profissional" inglesa, viciada em ópio, chega na cidade e quer ser sua parceira. Ela há muito já se desinteressou por sua própria beleza, com exceção do que pode ganhar com ela. Argumenta que, como prostituta, pode fazer um trabalho de gestão do bordel melhor que ele. Os dois tornam-se então parceiros de um bem sucedido estabelecimento de classe. Um interesse amoroso desenvolve-se entre os dois, após McCabe aproveitar os seus serviços.
Há sempre dinheiro envolvido em tudo. Um dia um homem chamado Bart morre e no funeral, Mrs. Miller convence a viúva a tornar-se uma prostituta. Argumenta: “É o que você fazia antes com Bart, só que agora você pode ficar com uma parte do dinheiro para si mesma”.
A cidade prospera tornando-se mais rica e bem sucedida. Agentes da companhia de mineração da cidade vizinha chegam para comprar os negócios de McCabe, bem como as minas de zinco ao redor. Porém, essa companhia é bem mais conhecida por matar pessoas que se recusam a vender o que eles querem comprar do que pelas suas próprias atividades de mineração. McCabe não aceita vender pelo preço inicial oferecido e passa a inflacionar o valor nas negociações, apesar das advertências de Mrs. Miller, de que ele está subestimando a violência que se seguirá, se não aceitar o dinheiro.
Assim, três assassinos são expedidos pela empresa mineira para matá-lo. Embora tenha ficado com medo dos pistoleiros quando eles chegam na cidade, McCabe tenta em vão apaziguá-los, mas recusa-se a abandonar a cidade.
Finalmente, quando um confronto letal torna-se inevitável, ele mata dois dos homens armados atirando por trás, deixando apenas o outro vivo. Em uma torção final, McCabe atira no terceiro com sua pistola, mas é mortalmente ferido. A neve cai fortemente soprando sempre em uma inclinação. Enquanto o povo combate um incêndio na capela, McCabe morre na neve e Mrs. Miller entorpece-se com ópio chinês.
Poucos filmes têm um sentido tão esmagador da localização. A Igreja Presbiteriana é uma cidade perdida no nada, coberta por uma madeira bruta serrada, cortada das florestas. Parece um canteiro de obras. Buracos cavados. Madeira empilhada para cima esperando ser utilizada. Nessa cidade de pessoas simples, são quase todos homens e a maioria deles estão envolvidos na construção da cidade. Além do trabalho, não há nada a fazer senão beber, jogar e contratar os prazeres das mulheres.
A terra é uma lama de gelo. Os dias são curtos. Há pouca luz no interior. Os ambientes são fechados, as salas são escuras. Há apenas luz suficiente vinda ora de uma fogueira, ora de uma lâmpada de gás para fazer brilhar seja um dente de ouro ou uma lágrima.
Os personagens não são introduzidos. Eles já estão todos lá. Na verdade, eles já estão lá há muito tempo. Eles sabem tudo sobre os outros. Existe esse pressuposto fundamental: Todos os personagens se conhecem. A câmera não olha primeiro para um e depois para outro. Na linha do diálogo, eles não falam um após o outro, como personagens de um jogo. Eles conversam quando e como querem. Passamos a entender que não é tão importante ouvir cada palavra. Às vezes tudo o que importa é o tom escuro de um quarto.
A trilha sonora e todas as canções afogam os personagens na natureza. É escuro, molhado, frio e, em seguida, neva. O céu é um crepúsculo e a neve cai de forma constante toda vez que fecha alguma passagem do filme.
Em alguns filmes, geralmente quando o herói morre, vemos sempre o olhar triste de sua companheira/heroína. Numa aspereza poética, aqui vemos Mrs. Miller olhar triste antes mesmo de McCabe cumprir o seu destino. Na verdade, ela é o ópio no final da Igreja Presbiteriana. Sua atenção está focada em cores bonitas e superfícies. O tempo e lugar já estão tão mortos para ela que simplesmente prefere desligar a sua mente.
Só pra finalizar vale ressaltar também o título do filme "McCabe & Mrs. Miller". Não "e" como em um par, mas "&", como em uma corporação. É um acordo comercial onde eles trabalham em parceria. Porém é ela quem faz quase tudo – e quase sempre bem. Ela é segura, determinada, assertiva, fria, inteligente e principalmente, triste. Já detinha essa tristeza antes mesmo de chegar na cidade. Ao mesmo tempo que é suficientemente independente para preparar e consumir sua própria erva.
Já McCabe, esse estranho misterioso, é fanfarrão, borrifa suas fraquezas – covardia, pouca habilidade na matemática e mau jeito no manejo da arma – com uma água de colônia de terceira categoria. Passeia aprumado pela cidade, exalando um “novo riquismo” tão pífio quanto patético que acabará por lhe sair caro. Porém, ele tem a poesia em si. He has poetry inside him. Passa muito tempo conversando consigo mesmo, murmurando críticas ou intenções. Ele diz para si mesmo o que tanto gostaria de dizer para Mrs.Miller : "Se apenas tivesse um momento em que você pudesse ser doce, sem pensar em dinheiro".
O filme deixa subentendida a união (amorosa), porém quase sobrefilma a separação. As cenas de sexo estão omissas e o fato de partilharem a mesma cama passa quase desapercebido.
Mas McCabe estava numa cidade onde ninguém sabia o que era apenas uma poesia, e Mrs.Miller já tinha perdido a sua há muito tempo.
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