sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Pilha de queixas 13

O engenheiro R. (46 anos) e sua mulher B. (38 anos) chegam para uma primeira sessão de terapia de casal. B. desfiou um rosário de queixas contra a desatenção conjugal de seu marido que, irônico, recostado na poltrona, nem chegou a protestar. Ele era o alvo das reclamações. Aproveitou a deixa e emendou com uma voz de trovoada: “Não tá feliz, vamos logo separar então”. R. é um cara ‘arretado’, uma figura agreste, um ‘bode bravo com raízes da caatinga do sertão’ em sua própria definição. Suas únicas preocupações são descobrir a melhor época para o plantio da soja ou como evitar moléstias em gado de corte. Para ele, o casamento é um tedioso compromisso que ele suporta "encharcado de álcool, graças às cavalares doses de uísque". B. confirma dizendo que o marido "bebe pesadíssimo antes de dormir e acorda de mau humor". Ele alega que a esposa "enche a paciência de qualquer um", enquanto procura uma posição mais confortável na poltrona.

Num direto processo de desconforto, onde a discussão come solta, R. causa visível mal-estar por provavelmente estar dizendo a sua verdade. B. diz que a brusca franqueza do marido “criou a sua fama de indesejável”.

R. não quer mudar. Quase tapa os ouvidos "diante de tais baboseiras" nesses intermináveis cinquenta minutos. Afirma que sempre foi assim. B. quer mudanças, isto é, ela quer que ele mude. Seria possível ? me pergunto. A que serve a terapia de casal, quando apenas um dos cônjuges está disposto a enfrentá-la ? Resposta simples e pragmática: nada. Só provoca um desgaste de energia desmedido. Tive que dar essa explicação. Ele ficou tranqüilo. Ela perguntou então se eu poderia ajudá-la num processo de separação. Agora sim. Posso trabalhar.

2 comentários:

  1. A sensação que me deu foi de alguém que construiu uma casa no lago e um dia resolveu que não queria mais o lago. E o lago é até meio abstrato, uma pintura, mas não muda, não mudará, e acaba por definir tudo que está em sua volta. Ela quer a casa no lago, mas não quer mais o lago.

    ResponderExcluir
  2. Metáfora interessante... "Ela quer a casa no lago, mas não quer mais o lago" isso é uma impossibilidade. Acho inclusive que vou utilizar essa metáfora.

    ResponderExcluir