J. chega no consultório, com um pequeno atraso. Vive uma crise conjugal com a namorada. Estão juntos "há quase um ano", mas as divergências começaram "logo no primeiro mês de namoro". Em quarenta minutos, enumera uma pilha de queixas sobre a namorada.
Reclama, num discurso empolado, que ela "pensa que todo mundo é cabeça de bagre, só ela é esperta, mas o que ela não sabe é que na verdade ela é a grande cabeça de bagre". Embora considere os outros idiotas, ela tem uma "maldita mania" de achar que os outros precisam de sua ajuda.
Cita, ainda irritado, que ela é mentirosa, "metida a honesta" e "só faz burrada na vida" devido a sua "teimosia idiota".
Surpreende-se quando pergunto se ele quer alguém assim pra continuar se relacionando.
Talvez tenha achado uma ousadia a minha pergunta.
Não sei se ela realmente é tudo isso que ele falou. Não importa também. O que importa é que é assim que ele a vê.
Fiquei me perguntando o que nos leva a ser atraídos por algo no outro que tanto abominamos. Será que é porque reconhecemos tudo isso dentro de nós ?
Antigamente eu acharia que somos tolos, mas hoje acredito que isso é manifestação da nossa sabotagem, de uma forma bem covarde e vergonhosa, botando, em quem elegemos nossos sócios-de-vida, os nossos demônios pessoais que fingimos não ver no espelho do banheiro. Alias, falando em sabotagem, o livro tá aqui, mas pega logo pq Sonia falou que quer ler.
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