sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Pilha de queixas 6

M.A. sempre reclamou de seu namorado. Diz que ele é mentiroso, tem duas caras, “um crápula sem sentimentos, tão safado que ninguém nem desconfia”. Mas o que mais a incomoda é ele não ser confiável.

Seu namorado não se dá bem com as calças abotoadas. Ela já pegou algumas de suas traições e o confrontou. Uma, duas, três, oito. Decidiu então terminar o relacionamento. Mas, segundo ela, “ele se diz arrependido novamente e anda me cercando”. M.A. está em dúvida.

Fiquei pensando. A dúvida de M.A. nada mais é do que uma carta-bomba. Sim, isso mesmo. É como receber uma carta bomba. Você sabe que é uma carta bomba e mesmo assim você abre. Ela pensa: vou abri-la, quem sabe a bomba não estoure e vire uma carta de amor.

O detalhe cruel é que ela não lembra que foi ela mesma quem mandou para si essa carta bomba.

M.A. abre a carta, fantasiando que vai ter amor ali dentro. Ela não entende – ou não consegue ver – que só quando ela mandar carta de amor para si mesma é que ao abri-la, vai ter amor.

Enquanto isso, colocando-se numa história assim - mesmo já sabendo o que virá – ela estará sempre se auto-contemplando com sua própria tragédia.

2 comentários:

  1. Muito interessante a história, esse sonho de que algo (talvez nunca) aconteça.
    Acho que é como comer doce no sábado pensando em começar uma dieta na segunda, e aí come pensando "ah só mais um não vai fazer diferença".
    Tem o prazer do sabor do doce ao comer, mas acaba fazendo, sim, diferença depois, principalmente porque nunca começa a dieta, já que está viciada no doce.
    A pessoa em questão talvez até tenha a sensação de amar/ser amada, mas sempre acompanhada de um dissabor que advém da sua própria expectativa em transformar o doce (o ex) em algo saudável, ao mesmo tempo em que não consegue parar de consumi-lo, muito menos fazer uma dieta e escolher algo além do doce que a viciou (e a engordou).
    Isso me lembrou um poema da (poeta americana) Maya Angelou:

    The caged bird sings
    with fearful trill
    of the things unknown
    but longed for still
    and is tune is heard
    on the distant hillfor the caged bird
    sings of freedom

    But a caged bird stands on the grave of dreams
    his shadow shouts on a nightmare scream
    his wings are clipped and his feet are tied
    so he opens his throat to sing

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  2. Nossa, que analogia profunda... poxa, nem fui tão longe, but I got the point.

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