
Fui acusado de romantizar demais San Blás. A acusação procede. Não adianta, sou passional. Quando me apaixono, acabo cegando. Tentarei ser menos emotivo e falar dos percalços. Passamos alguns perrengues na viagem sim, todos altamente superáveis. Situações que oscilam entre o implausível e o inesperado. Da cidade do Panamá até San Blás são duas horas. Duas longas horas numa estrada de terra com paredões de barro de quase 90 graus por onde passamos somente com um potente 4x4. Mas o bizarro era o motorista ouvindo e cantando “Corazón partío” (quién me va a curar el corazón partío ?) ou “Desde cuando”, do Alejandro Sanz. Alto. Eram seis horas da manhã e estávamos bêbados de sono. Não pude fazer uso do meu ipod, pois, ingenuamente, o deixei na mochila. Depois, passei ainda a conhecer o repertório completo da cantora Shakira, a qual nunca tive o menor interesse.
Consumada a incrível façanha, chegamos ao lugar que não consta em mapa algum: San Blás. Ficamos hospedados em uma cabana de uma família Kuna, pé na areia, paredes de bambú, telhado de palha e duas redes. Sem eletricidade.
Na primeira ilha, Isla Del Diablo, contamos com a luz de um lampião. Vale ressaltar que moravam duas famílias Kuna nessa ilha e o mais genial foi termos descoberto, duas noites depois, que essas famílias não se falam entre elas. Motivo ? Não tenho a mais vaga idéia, mas num território indígena, não achei boa idéia questionar nada. Só fiquei imaginando a possibilidade de morar numa ilha deserta e não trocar palavra alguma com alguém a menos de 20 metros de distância. Se bem que os Kuna, em geral, me pareceram bem calados. Não sei se quando saíamos pra nadar, fofocavam sobre a gente. Nunca saberei também. Sexta passada, quando contei esse fato a Cris, ela sugeriu que eu deveria ter feito uma dinâmica de grupo ou uma mediação.
Na segunda, Isla Pelicano, tivemos uma tocha. O banho era de canequinha, através de um poço de água doce. Isso mesmo. Estávamos na natureza selvagem, numa nova temporada de Lost.
Almoço e jantar, sempre o mesmo: Peixe pescado pela manhã, arroz, salada e algum legume preparado pelos Kuna. É claro que levamos um sortimento de barras de cereais, biscoitos, iogurtes, sucrilhos, delícias pra suplementar nossa dieta. Afinal, ninguém é de ferro.

Porém, acredito que estivemos num dos lugares mais lindos do mundo. Contamos com a presença da lua cheia, quase todas as noites, com toda sua luz refletindo no mar e os coqueiros desenhando sombras. E tudo isso, com nossos dois melhores companheiros, já exaustos e quase descarregados: dois ipods que revezavam-se numa trilha sonora, que ia de Moby (numa analogia ao filme “A praia”) a Coldplay.
Um perrengue cinematográfico into the wild.
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